Fofa, brutal, PJ Harvey faz um clássico

Valsa, riffs stonianos, latidos e pós-punk convivem em A Woman A Man Walked By, novo CD da britânica e John Parish

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

Candidato desde já a melhor disco do ano, A Woman A Man Walked By (Universal Music), de PJ Harvey e John Parish, é a mais cruel, áspera e bela estranheza a frequentar o universo musical na temporada. De sangue alternativo por excelência, PJ Harvey - paradoxalmente - consegue mover montanhas. Já tornou planetário o virulento refrão "just stick it up your fucking ass", da canção que dá título ao álbum. Ouça A Woman A Man Walked ByNão se deixem enganar pelo jeito fofo e o olhar vulnerável e sonolento de PJ Harvey. Todos os que a conhecem sabem: essa mulher é brutal. Poeta e artista das grandes esferas, Polly Jean escreveu as letras do disco, e o produtor e músico John Parish fez a música. A mixagem do trabalho foi realizada por Flood (pseudônimo de Mark Ellis), mago dos estúdios que trabalhou com U2, Nick Cave, Sigur Rós, Jesus and Mary Chain e Nine Inch Nails, entre outros.John Parish tem em seu currículo diversas trilhas sonoras e também trabalhos com grupos como Eels e Giant Sands. Em 1996, ele já havia trabalhado com PJ no disco Dance Hall at Louse Point. Suas guitarras podem criar climas oníricos em dissonâncias à moda do Sonic Youth, ou remeter ao blues rock inglês dos anos 70 - e é o que ele faz, mas não só."Nós devemos amar, ou aceitar as consequências", sentencia PJ Harvey, em The Soldier, citando um certo poeta que não menciona. Um tom surrealista, além de um sabor de diálogo com a poesia clássica, perpassa as letras da menina elétrica PJ Harvey. Em April, por exemplo, a referência é obviamente a TS Eliot. Já a letra de Pig Will Not, segundo conta a própria cantora nas notas do álbum é a O Rebelde, de Charles Baudelaire.Pretensiosa demais? Não exatamente. Imagine essa neblina de uma poética refinada convivendo com um colchão de punk sujo de clubes como o velho CBGB, nos anos 1970. É mais ou menos isso que dá para sentir em alguns momentos. Pig Will Not começa como uma avalanche punk e termina com um piano de space-jazz. O som pode remeter a Captain Beefheart, assim como Passionless, Pointless poderia perfeitamente ter saído de um disco do Dresden Dolls.Sincera a ponto de parecer malvada, ela faz da bizarra valsa Leaving California uma espécie de anti-hino ao Estado americano. "Oh, me dê alguma sombra. Oh, Inglaterra, venha logo. Como pude acreditar que poderia viver e respirar em você?/ A Califórnia me matou/ Eu acho que é tempo de partir/ Eu não disse a ninguém que ficaria."Canções de perda e sofrimento, como The Chair, Crack in the Canvas e Sixteen, Fifteen, Fourteen, criam um clima meio doloroso, e os espasmos da memória de PJ Harvey são emoldurados por órgãos, banjos, violão acústico, teclados e gritos, latidos (não é brincadeira; ela late), sussurros e distorção.Black Hearted Love, que abre o disco, é a faixa em que John Parish exercita sua porção "Rolling Stones 1967", com uns riffs à moda de Keith Richards. Entre as sombras da poesia de PJ Harvey, a inocência rocker dos anos 1960 parece procurar chão firme.Em alguns momentos, como em The Chair, PJ Harvey faz lembrar a misteriosa Nico (a cantora alemã Christa Päffgen, que integrou por breve e fulminante período a banda vanguardista Velvet Underground). Um resenhista disse que parece homenagem à diva do trip-hop, Beth Gibbons. Mas é um trip-hop de cabaré, decadentista.Em outros momentos, PJ é puramente uma "filha" de Patti Smith, mas com um componente de ternura - e ela também não faz política no sentido esquerdista, como Patti Smith faz. Fala das tropas entrando no Paralelo 39, mas se preocupa muito mais com as avarias emocionais que o soldado traz em seu retorno. Essa cicatriz é para sempre.Garota do interior da Inglaterra, que cresceu no condado de Hardy, entre ovelhas e os amigos malucos dos pais hippies, Polly Jean Harvey é uma força incomum no mundo do rock. Nos últimos dez anos, seu disco mais festejado foi Stories from the City, Stories from the Sea, de 2000. Mas nenhum álbum que ela lança tem qualquer coisa de irrelevante. Ela sempre pisa fundo. Nesse novo disco, ela acelera em direção ao abismo. LetraUma vez eu conheci uma mulher-homemuma amiga corajosa,eu penseiLogo vi quão errada eu tavaQuando fomos emparelhados contra o muroEle tinha bagos de fígadode galinhaEle tinha baço de fígadode galinhaEle tinha coração de fígadode galinhaFeito de partes de fígadode galinhaPequenas partes de fígadoEstava ficando carecaprecocementeToda paixão há muito esfriaraMas eu queria explorarOs úmidos becos de sua almaTodo o tempoele tentou ajudarCuspiu na minha cara e riuAquela mulher-homemEu queria seu f... raboEu queria seu f... raboEu queria seu f... raboEu quero o teu f... raboMeu amigo, meu dardoEle está parecendoAtulhado em um táxiVejo você inteiro claramenteChupando uma pequena ervilhaChupando uma pequena ervilhaMeu, meu pequeno brinquedoEle é só um filho da mamãeOnde está o seu fígado?Onde está o seu coração?O que há com todas as suas partes de mulher?Agora é minha vez de rirSó enfiando esse p... no seu f... raboTRADUÇÃO LIVRE DE LETRA DE A MAN A WOMAN WALKED BAY, DE PJ HARVEY

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