Fiquem sossegados, não muda nada

ponto de vista

João Ubaldo Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Acordado desde as quatro e meia, me entretenho em desafiar a petulância deste utensílio eletrônico que não cessa de enervar-me e de repente percebo que a nossa velha e querida amiga, a Rododáctila Aurora, já há alguns minutos esgarça nuvens diáfanas com seus dedos cor-de-rosa, o Astro-Rei esparge raios fúlgidos no firmamento, a Estrela d?Alva fenece melancólica, etc., etc. Enfim, amanhece e é hora de buscar os jornais. Sempre me sugerem que faça assinatura, mas isso me privaria de um breve passeio matinal em que há sempre pequenas alegrias ou surpresas.Uma dessas alegrias é encontrar meu camarada Salvatore, o bravo calabrês da banca de jornais, com quem faço uma troca ritual de palavras que por alguma razão nunca dispensamos e que termina sempre com os dois amaldiçoando la maledetta vecchiaia, a miserável da velhice que cada vez mais nos engolfa e que deixa Salvatore de péssimos bofes. Non si può fare niente! - brada ele inconformado, e eu concordo, com a seriedade e convicção necessárias, nesse ponto somos almas gêmeas. Em seguida ele me faz um resumo dos acontecimentos anunciados nas primeiras páginas. La stessa cosa! - sempre diz ele. - Nunca muda nada, só varia um ladrão ali, outro acolá, até as bundas são as mesmas!No início, eu discrepava, não mais discrepo. Bem pensado, é sempre a mesma coisa, hoje nem ladrões novos parece haver, são os mesmos de ontem, notícia já vencida. E de fato, já vi antes todas as bundas na exposição do dia. Felizmente alguns jovens um pouco alegres e recém-saídos de alguma festa estão saracoteando por ali, entrando e saindo da pastelaria, fazendo algazarra e rindo muito, como devem fazer os jovens. Um deles me reconhece enquanto me despeço de Salvatore, fala com os outros me apontando, batem palmas, uma das moças me beija na bochecha e outro deles me exorta amavelmente:- Viva, mestre! Pau neles, mestre! Cacete neles!Sorri paternalmente, agradeci, dei um aceno de despedida e parti de volta para casa comovido com aquela manifestação juvenil. Engraçado, eu, que sempre me achei uma flor de pessoa, ter fama de caceteiro. Bem, talvez deva reconhecer que me destemperei algumas vezes, mas a verdade é que, sinceramente, não gosto disso e encaro com desagrado estas teclas, quando os únicos assuntos que se oferecem envolvem dar o tal "cacete neles", sob pena de se parecer omisso. É chato, esse negócio de ficar falando mal disso ou daquilo todo santo domingo, às vezes acho que há quem me imagine um nordestino enfezado, de sotaque cerrado e mau hálito, sem pescoço, feio como a necessidade, 1 metro e 58 de recalque e 52 quilos de raiva da humanidade. (Comentários sobre esta suposição para o editor, por caridade.)Não, não há por que, nesta bela manhã já outonal, ficar falando mal do governo ou dos governantes, por exemplo. Para quê? Só para ficar repetindo o que já sabemos? Nem é nosso costume fazer nada, assim como é também uso aceitar tudo goela baixo sem tugir e muito menos mugir, nem ninguém vai fazer nada. A palavra de ordem, desde que o presidente Lula assumiu, é o contrário do que o otariado (no seio do qual sempre me destaquei) pensava. Ou seja, é "não muda nada aí e dá uns cala-a-boca a quem precisar". E então não mudou nem vai mudar nada. Eles são caras-de-pau e dizem que já fizeram tudo isso, mas não fizeram xongas, nem reforma agrária, nem tributária, nem política, nem administrativa, nem nada.Dirá a prezada amiga, que acordou agora e só funciona direito depois do primeiro drinque do brunch, que está havendo má vontade minha, pois que o presidente do Senado, o combativo representante do Amapá José Sarney, já tomou uma medida draconiana, inaudita nos anais da República. De fato, duvido que alguém antes dele tenha demitido 60 e tantos diretores, ou quantos foram lá que ele demitiu. Até porque em lugar nenhum deve haver tanto diretor para demitir de uma vez. E então - o que é que vocês queriam? - o homem foi fundo, vai deixar no Senado somente as 80 e poucas ou 90 e poucas diretorias imprescindíveis, como a de Garagem, a de Check-In no Aeroporto e certamente a de Sanitários e Toaletes e a do Cafezinho.Além disso, ele contratou a Fundação Getúlio Vargas para fazer um estudo, uma auditagem completa no Senado, com vistas à racionalização e otimização do funcionamento da augusta casa. Vai demorar um pouco, pois não se faz um trabalho desses em alguns dias. Aliás, vai demorar tanto tempo que todo mundo já terá esquecido essa besteira. E é o tempo que dá para recolocar o pessoal que saiu com a extinção das diretorias, com um adicional de emergência para aqueles que, por causa de uma frescura puritana moralista de merda, ficaram sem receber salários, gratificações, horas extras, biênios, quinquênios, decênios, licenças-prêmio e mais o mínimo para a dignidade de um funcionário graduado.Claro que não vai acontecer nada, não é para acontecer. Vai continuar todo mundo furtando, se locupletando e se fazendo, é nisso que se tornou a nossa vida pública. O partido diferente, o da ética, acabou assim que elegeu o presidente, embora fique por aí com essa empulhação ideológica, que agora, ao que parece, vai até trazer o professor Delúbio de volta aos salões do poder onde ele disse que sua história viraria piada - e não é que virou? Não muda nada, nem mensalão, nem lero-lero em torno da famosa governabilidade, nem medida provisória, nem despesas com cartões corporativos, nem leilões de cargos, nem partidos de aluguel, nada, nada, sempre foi assim e vai continuar assim e os incomodados que se mudem. Non si puó fare niente. ''Salvatore da banca de jornais diz que é sempre a mesma coisa, só varia um ladrão ali, outro acolá''''Tudo vai ficar igual, cartão corporativo, mensalão, etc., e os incomodados que se mudem''

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