Richard Perry/The New York Times
Richard Perry/The New York Times

Finalmente, Yoko Ono em mostra no MoMA

As ideias esotéricas e a fama podem torná-la perfeita para o museu hoje

Blake Gopnik, The New York Times

24 de maio de 2015 | 11h01

Yoko Ono estava prestes a queimar uma pintura. Ao lado de curadores e conservadores, numa galeria que não tem sido usada no MoMA, a superstar de 82 anos queria reproduzir um buraco de cigarro que o compositor de vanguarda John Cage fizera numa das suas telas virgens, meio século antes. Pediu então os cigarros franceses que Cage teria fumado, mas acabou se contentando com um da marca Nat Sherman. Para acender um cigarro num museu no qual há décadas não se sentia cheiro de tabaco, ela se aproximou e, com um toque seguro de artista, abriu um buraco redondinho.

A exposição Yoko Ono: One Woman Show, 1960-1971, aberta em 17 de maio em uma das prestigiosas galerias do sexto andar, é um evento importante da temporada de verão do MoMA. Mais de 100 obras vintage estão expostas – e em uns poucos casos, como no da tela queimada, fac-símiles – que representam a época de grande sucesso da sua primeira carreira artística, ofuscada mais tarde por sua imagem mais conhecida de ícone da cultura pop e de viúva de John Lennon.

Muitos dependem desse evento – Yoko, o museu e Klaus Biesenbach, principal curador do MoMA e um dos organizadores da mostra, que pode dar novo impulso à fama dos três.

“Nos anos 60, Yoko Ono era uma importante artista de vanguarda, que exercia grande influência, trabalhando em Londres, Tóquio e Nova York”, explicou Biesenbach na sala do conselho do museu. A realização de Yoko como artista, ele disse, “é quase oculta por sua fama; nós queremos revelá-la”.

Quanto a Biesenbach, a mostra servirá de resposta às duras críticas que ele recebeu por sua celebração da pop star islandesa Björk, que ocupa todo o saguão do MoMA. Segundo um crítico, a exposição “tinha sido uma rematada porcaria”; outro pediu que ele se demitisse.

Trabalhar com Yoko satisfaz a notória predileção do curador pelas celebridades, mas a obra conceitual inicial da artista tem um inegável peso e rigor que poderá contribuir para devolver a Biesenbach as credenciais de profissional competente.

Biesenbach recusou-se a comentar a mostra de Björk, limitando-se a dizer que os dois projetos eram “muito diferentes”. Mas Christophe Cherix, curador-chefe do MoMA para desenhos e gravuras, e colaborador de Biesenbach na mostra de Yoko Ono, insistiu que, embora o seu projeto não tivesse sido concebido para corrigir o mau passo no caso Björk, suas obras complexas fazem com que ela se destaque como “o oposto da celebridade” – por algo que será um desafio para os amantes da arte, em lugar de dar a eles o que eles querem.

Na manhã do incidente do cigarro, Yoko estava na cozinha do seu apartamento no Edifício Dakota, em cuja refinada decoração se mesclam imagens dela com Lennon e até mesmo com os outros integrantes da banda.

Ela afirmou que não tem problemas em apresentar sua obra ao lado da de Björk, sua colega mais jovem, “incrivelmente boa”. Embora tenha concedido centenas de entrevistas, Yoko parece ouvir as perguntas com muita atenção. Com seu jeito moleque, jeans azul-escuro e tênis, ela parecia pelo menos 20 anos mais nova.

Se a nova exposição nos devolver a primeira ‘persona’ de Yoko como artista radical, também poderá provar que o próprio MoMA valoriza o radicalismo que menosprezou por várias décadas. “O MoMA ignorou quase totalmente o Fluxus (décadas de 1960 e 1970)”, disse Cherix, referindo-se ao movimento de artistas charlatães em cuja órbita Yoko se moveu na sua juventude. O Fluxus era uma tribo de radicais em termos culturais, reunidos sob este nome pelo empresário anticonformista George Maciunas, em 1961.

Entre seus membros, contrários à arte e ao objeto, estava Alison Knowles (cuja obra mais famosa era o simples ato de fazer uma salada) e George Brecht (uma de suas “músicas” consistia em despejar água de uma certa altura). Em um loft no Soho, a sra. Knowles disse que Yoko nunca aderiu plenamente aos ideais que definiam o verdadeiro membro do Fluxus. Entretanto, ela foi incluída em tantas publicações e eventos que foi considerada uma artista pertencente a ele, pelo menos no início da carreira.

Se ela se distinguia um pouco dos seus colegas do Fluxus, era por causa de seu lado incrivelmente otimista (“deem uma chance à paz”) e por seu sentimento em relação ao poder das flores (“ouçam o som da terra rodando”) que não é típico da vanguarda.

Outra inspiração para o novo projeto de Yoko Ono, disse Cherix, foi uma “intervenção” de 1971 que a artista apresentou no MoMA, sem a permissão do museu, à qual ela chamou de Yoko Ono – One Woman Show (mesmo título de sua nova mostra). A exposição inclui uma sala repleta de objetos da mostra histórica de Yoko de 1961, na galeria de Maciunas, reproduzidos em fac-símiles porque os originais se perderam. (É ali que ela apresentou seu Smoke Painting.) A extremidade da mostra cobre a Plastic Ono Band, grupo conceitual de rock, que ela criou com Lennon em 1969.

O jogo de equilíbrio entre ideias esotéricas e sua disseminação em massa poderá tornar Yoko perfeita para o MoMA de hoje. Sua exposição solo como celebridade marca uma trajetória entre os blockbusters, que atraem multidões, aos quais nenhum museu resiste, e as mostras substanciais que artistas e críticos esperam do museu.

O período péssimo que passou depois do nascimento da filha Kyoko no Japão, em 1963, pode tê-la impulsionado a criar a sua obra mais importante, a performance Cut Piece, da qual o MoMA mostra trechos. Nela, Yoko, num palco, permite que visitantes recortem suas roupas com tesouras. É a destilação total da vitimização feminina, mas se transformou numa superação heroica. Esta é a exatamente função de uma arte como a dela. “A arte é um desafio”, afirmou. “Como a vida.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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