Filmes para flagrar o cotidiano carioca

Com imagens fortes de áreas de confronto, Cenas do Rio exibe Abaixando a Máquina, de Guilherme Planel e Renato De Paula

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

30 de setembro de 2008 | 00h00

Em Gramado, o próprio Matheus Nachtergaele confessou que estava começando a entender seu filme A Festa da Menina Morta. Escrito e realizado de forma seminal, o filme é um dos mais fortes - o mais forte? - da nova safra da produção brasileira, um pouco por fugir ao cinema de pobre e de violência para propor uma outra abordagem da realidade social do País. A Festa é violento em outro sentido, ao encarar as relações interpessoais nesta comunidade ribeirinha da Amazônia, que vive em função do culto do título. O guardião da festa é Daniel de Oliveira, num papel que o diretor chegou a pensar em fazer, mas depois preferiu concentrar-se na atividade por trás das câmeras. Daniel, de alguma forma, interpreta Matheus e os temas do sexo (do incesto) e da religiosidade originam cenas transgressoras e de grande intensidade. Leia mais no Blog do MertenHouve gente que entrou pela madrugada tentando decifrar A Festa da Menina Morta. O maior enigma do filme é uma de suas cenas mais belas. Ela não possui função narrativa, no sentido de que não faz a história avançar. Um garoto dança hip-hop numa barca, só isso. Sem conexão direta com a trama, ele vira metáfora visual do que talvez seja o grande tema de Matheus Nachtergaele - pela via do sexo ou da dança, uma outra forma de expressão corporal, todo mundo está tentando se libertar daquela vida asfixiante e os que não o tentam parecem condenados ao mundo que espera pelas revelações da menina morta.A Première Brasil deu um salto de qualidade na mostra competitiva de ficção, mas os documentários seguem bons. O Festival do Rio criou uma nova seção - Cenas do Rio -justamente para exibir filmes que tratam das questões cotidianas da cidade que é chamada de maravilhosa. Abaixando a Máquina, de Guilherme Planel e Renato De Paula, tem um subtítulo revelador - Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca. Construído por meio de imagens fortes e depoimentos de profissionais da imprensa que vivem de clicar o que ocorre em áreas de confronto do Rio, o documentário discute a ética da imprensa e a relação das comunidades com os fotógrafos. Os líderes comunitários reclamam que os fotógrafos só aparecem na favela na hora do perigo e nunca para mostrar os esforços dos que tentam viver decentemente. Esta é uma discussão ampla e que pode ser aplicada ao próprio cinema brasileiro.Campeão de procura do público por ingressos nestes primeiros dias, Queime Depois de Ler segue-se a Onde os Fracos Não Têm Vez na carreira dos irmãos Coen. Eles se voltam agora para o universo da espionagem, contando a história de um monte de personagens que compartilham uma coisa - a boçalidade. Frances McDormand faz uma instrutora de ginástica que desencadeia uma série de mortes só porque quer dinheiro para se reinventar numa cirurgia plástica. O público quase morria de rir cada vez que Brad Pitt entrava em cena como um tipo (gay?) que vai de trapalhada em trapalhada. No final, só uma pessoa se dá bem e o chefe da CIA se pergunta o que aprendemos com o episódio. A resposta fica para o espectador. O que se aprende é que os Coen descobriram uma fórmula rentável em Fargo e parecem decididos a seguir nesta via.

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