Filmes escolhidos dialogam entre si

O brasileiro Corumbiara e o peruano La Teta Asustada investigam temática indígena; diversidade marca demais vencedores

Luiz Carlos Merten, GRAMADO, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

E o 37º Festival de Gramado terminou na noite de sábado consagrando a estética política, duplamente vencedora - na mostra brasileira, com Corumbiara, o poderoso documentário de Vincent Carelli; e, na latina, com a ficção A Teta Asustada, da peruana Claudia Llosa, que já havia vencido, em fevereiro, com o mesmo filme, o Urso de Ouro em Berlim. Corumbiara ganhou o Kikito de melhor filme, mas dividiu o de direção com Paulo Nascimento, da produção gaúcha Em Meu Nome. Também recebeu os prêmios principais dos júris de estudantes e do público (um colegiado formado por leitores de 12 dos maiores jornais do País, incluindo, claro, o Estado). A Teta ganhou, além do Kikito de melhor filme, os de direção e atriz (Magaly Solier). São todos defensáveis, é verdade, mas o júri perdeu a chance de premiar o filme uruguaio Gigante, de Adrián Biniez, e ainda cometeu dois verdadeiros sacrilégios - ignorou a atriz argentina Valeria Bertucelli, de Lluvia, e dividiu o prêmio de melhor ator entre Horacio Camandule, de Gigante, e o colombiano Matías Maldonado, de Nochebuena. O prêmio de melhor atriz poderia ter sido dividido, e estaria tudo bem. O de melhor ator teria de ser exclusividade de Camandule, embora talvez tenha sido intimidante o fato de ele - um professor de escola primária - não ser ator profissional.Desde domingo passado e até sábado, Gramado sediou também o Gramado Cine Vídeo e o Animagramado, festival de animação que confirma o boom do formato no Brasil (e no mundo). O Cine Vídeo exibiu e premiou vídeos nas categorias social, independente e de TVs universitárias. Embora importantes, os dois eventos tendem a ser ofuscados pela projeção que o festival de cinema já possui há décadas. Gramado, em 2009,homenageou nomes importantes do cinema brasileiro - os diretores Ruy Guerra e Walter Lima Júnior, o ator e diretor Reginaldo Faria. Ruy Guerra, na sexta-feira à noite, recebeu o Kikito de Cristal pelo conjunto de sua obra. Ele fez o mais belo (e singelo) dos agradecimentos. Lembrou Gabriel García Márquez, que disse certa vez que escrevia para ser amado, e ainda definiu seu ofício de escritor como doloroso e fascinante. Ruy disse que filmar também é doloroso e fascinante. E acrescentou, sob aplausos: "Hoje, aqui, eu me sinto amado".Houve outra homenageada, Xuxa, por seus quase 30 milhões de espectadores (em 18 filmes). Ela provocou a irritação da crítica com seu jatinho (pago pelo festival), o carro blindado e o batalhão de seguranças, e mais ainda pelo fato de se haver recusado a dar uma entrevista coletiva. Em seu discurso de agradecimento, ela provocou - disse que era "loira, povo e vencedora". Xuxa teve o troco na noite de encerramento. Aproveitando o fato de que José Vitor Castiel era o apresentador (com Renata Boldrini), irromperam no palco seus dois parceiros no grupo Homens de Perto, uma espécie de Casseta e Planeta local. Um deles recebeu um Kikito honorário (de chocolate). Agradeceu parafraseando Xuxa - "Sou povo, sou povinho, sou careca e sou vencedor!" O Palácio dos Festivais veio abaixo.A seleção deste ano (leia análise no texto abaixo) foi irregular, mas teve alguns filmes bons (e até muito bons). Pelo quarto ano, a curadoria foi exercida por José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, que privilegiam o cinema de expressão pessoal, definição que preferem à de cinema autoral, sobre o cinema mais espetacular que antes fazia o glamour do tapete vermelho. As escolhas de ambos podem ser eventualmente discutidas e até contestadas, mas realizam na prática o que é um conceito teórico. São filmes que dialogam entre si, cabendo ao cinéfilo, ao crítico e ao "povo", tirar as ilações possíveis da seleção. Os filmes preferidos dos críticos, vencedores dos prêmios da categoria - Canção de Baal, de Helena Ignez, melhor longa nacional, e Gigante, do uruguaio Adrián Biniez, melhor longa latino -, não foram os favoritos do júri oficial. Para celebrar a diversidade, o festival instituiu mais dois júris, um formado por estudantes de cinema e outro por 12 leitores dos maiores jornais de todo o Brasil. O repórter viajou a convite da organização do festivalOs principais premiados LONGA BRASILEIRO:Melhor Filme: Corumbiara,de Vincent CarelliMelhor Diretor: Vincent Carelli, de Corumbiara, e PauloNascimento, de Em Teu NomeMelhor Ator: Leonardo Machado, por Em Teu NomeMelhor Atriz: Vivianne Pasmanter, por Quase Um Tango...Melhor Roteiro: Sérgio Silva,por Quase Um Tango...Melhor Fotografia: Katia Coelho, por Corpos CelestesPrêmio Especial do Júri: Em Teu Nome, de Paulo NascimentoPrêmio da Crítica: A Canção de Baal, de Helena IgnezMelhor Filme do Júri Popular: Corumbiara, de Vincent Carelli LONGA ESTRANGEIRO:Melhor Filme: La Teta Asustada, de Claudia LlosaMelhor Diretor: Claudia Llosa,de La Teta AsustadaMelhor Ator: Horacio Camandule, por Gigante, e Matías Maldonado, por NochebuenaMelhor Atriz: Magaly Solier, por La Teta AsustadaMelhor Roteiro: Adrián Biniez, por GigantePrêmio Especial do Júri: La Próxima Estación,de Fernando E. SolanasPrêmio da Crítica: Gigante,de Adrian BiniezMelhor Filme do Júri Popular: Lluvia, de Paula Hernández

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