Filme retrata uma relação delicada

Do Começo ao Fim, que Aluízio Abranches concluiu na semana passada, mostra o relacionamento entre dois irmãos

Ubiratan Brasil, RIO, O Estadao de S.Paulo

05 de novembro de 2008 | 00h00

O clima de tranqüilidade dentro da casa contrasta com a tempestade que cai lá fora. O mundo desabando em raios e trovões parece não incomodar o diretor Aluízio Abranches que, naquela tarde de outubro, observa os atores Julia Lemmertz, Louise Cardoso e Fábio Assunção se acomodarem em uma mesa de jantar. Juntos, também os garotos Gabriel Kaufmann e Lucas Cotrim, que vivem os pivôs de Do Começo ao Fim, novo longa de Abranches cujas filmagens terminaram na semana passada, depois de locações no Rio e em Buenos Aires.A cena, acompanhada pelo Estado, retrata um trivial almoço em família, em que a forte presença da mãe (Julia Lemmertz) já prepara o espectador para o tipo de relacionamento pouco usual que vai marcar a convivência entre os dois irmãos (Gabriel e Lucas). "Fiquei quatro anos cuidando dessa história, tomando todas as precauções para que nenhum detalhe se transformasse em um exagero", conta o cineasta, autor de obras como Um Copo de Cólera e As Três Marias.Tamanho cuidado, de fato, é bem vindo - Do Começo ao Fim trata de um tema delicado. Gabriel e Lucas interpretam Thomás e Francisco, dois garotos que têm a mesma mãe, Julieta (Julia, atriz com presença constante nos filmes de Abranches), mas pais distintos. Juntos, os irmãos desenvolvem um carinho muito particular que logo se transforma em amor.O relacionamento diferenciado, aliás, é revelado de uma forma delicada - Thomás nasce com os olhos fechados e assim permanece durante várias semanas. "Mas a mãe não se preocupa", conta Abranches, autor do roteiro. "Para ela, quando quiser, Thomás abrirá os olhos. É assim, nos primeiros dias de vida, que ele aprende o que é livre-arbítrio." E, quando decide finalmente descobrir o mundo que o cerca, Thomás abre os olhos e mira direto em Francisco, seu irmão de 6 anos.A naturalidade com que se desenvolve o relacionamento entre os dois irmãos é permitida graças à presença de Julieta, que se transforma no eixo do filme. Abranches costuma descrevê-la com uma mulher com outra materialidade. "Sua personalidade se encaixa bem em uma frase de Bernard Shaw, que dizia: ?Algumas pessoas olham para o mundo e perguntam ?por quê?? Eu penso em coisas que nunca existiram e me questiono ?por que não??."O mesmo clima de tranqüilidade é transmitido pelo elenco que, segundo o diretor, compreendeu o espírito da história. A ponto de se tornar rotineiro o fato de, a cada dia de filmagem, os atores contribuírem com sugestões, seja um acréscimo no diálogo ou algum gesto logo incorporado na história. "Eles entenderam que o filme não é uma fábula, mas o retrato de uma família que incorpora uma novidade."A preparação para a filmagem, no entanto, não foi fácil. Abranches conta que, logo depois do primeiro dia de trabalho, passou quase duas horas conversando com seu analista. "Eu precisava me sentir plenamente seguro em conduzir a história, pois só assim teria a certeza de lidar bem com a trama." O cineasta determinou o terceiro dia de filmagem como um marco - se terminasse bem, o restante fluiria tranqüilamente.Iniciada em 20 de setembro, a produção de Do Começo ao Fim seguiu conforme o previsto. "Foi realmente essencial o elenco entender a paixão daqueles meninos sem preconceito, como algo que acontece entre dois rapazes de bem com a vida", comenta Julia Lemmertz, intrigada com o roteiro na primeira leitura. "Aos poucos, percebi que o filme não ostenta um sentimento de culpa, mas também não deixa de apresentá-lo."As cenas que poderão provocar mais polêmica mostram os irmãos já adolescentes, interpretados por Rafael Cardoso (Thomás) e João Gabriel Vasconcellos (Francisco). Com a desinibição de dois amantes, eles trocam carinhos e beijos, consumindo uma paixão. As imagens foram assistidas pelo ator Marco Nanini que, ao lado de Fernando Libonati, comanda a Pequena Central, produtora do filme. Trata-se da primeira investida cinematográfica da dupla, habituada a trabalhar junto no teatro. "Buscamos produções pequenas mas que acrescentem, que encontrem um lugar destacado em meio aos filmes em exibição", conta Libonati, revelando ainda um investimento de R$ 800 mil. Um dinheiro bem empregado, segundo Nanini. "Vi as primeiras imagens rodadas por Aluízio e fiquei satisfeito: são fortes, mas recheadas de carinho", avaliou.Uma aposta que confirma tanto a essência libertária da Pequena Central como o talento de Abranches para cuidar de temas delicados .

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