Filme recupera o lado transgressor do Velho Guerreiro

Para Nelson Hoineff, diretor de Alô, Alô, Terezinha, o desbocado Chacrinha não teria espaço na televisão atual

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

15 de janeiro de 2008 | 00h00

Certa vez, numa sala de aula do curso universitário de Comunicação Social do qual é professor, o diretor de televisão e cinema Nelson Hoineff mencionou Fellini. Deparou-se com caras de espanto - ninguém sabia quem era o mestre italiano. ''''E Glauber Rocha, vocês conhecem?'''' Somente dois alunos levantaram a mão. Assombrado, Hoineff continuou: ''''Alguém aqui já ouviu falar do Chacrinha?'''' A turma toda logo se manifestou.Para Hoineff, o fato de jovens de 21 ou 22 anos, que ainda usavam fraldas quando o Velho Guerreiro morreu, não terem dúvidas na hora de apontar quem ele foi é prova inequívoca da incrível força de seu poder de comunicação. ''''É como se ele estivesse vivo, vinte anos depois de sua morte'''', diz o documentarista, que está em fase de montagem de seu documentário Alô, Alô, Terezinha.A idéia é lançá-lo entre junho e julho (Chacrinha morreu a 30 de junho de 88, de parada cardíaca). ''''Não queria nada biográfico: a casa em que nasceu, a escola em que estudou'''', conta o documentarista. ''''Quero mostrar o insólito, o lado transgressor, politicamente incorreto, o sujeito que debochava do gay, do feio, do nordestino, do cara que se vestia mal. Hoje, não haveria lugar na TV para o estilo dele, porque está tudo pasteurizado.''''O diretor, que já conseguiu pequenos aportes, de Furnas, do Banco do Nordeste e do governo do Recife, ainda tentará o patrocínio da Petrobrás. Na busca por explorar a personalidade e a influência do apresentador-palhaço - descrito por Nelson Rodrigues como ''''a gigantesca vitória do pé-rapado nacional'''' -, Hoineff reuniu mais de 160 horas de gravações, entre imagens de arquivo (de TVs e arquivos públicos) e depoimentos gravados.São relatos de chacretes (mais de 30 foram entrevistadas, de diferentes gerações), ex-calouros (localizados graças a anúncios em rádios locais e jornais, além de comunidades no Orkut), familiares, integrantes da equipe do programa e artistas (a lista é longuíssima: Gilberto Gil, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto, Ney Matogrosso, Alcione, Beth Carvalho.)Cada um tem uma trajetória curiosa para contar. As chacretes - que, para Chacrinha tinham que ser ''''boazudas, ter coxões e peitos grandes, porque homem só gosta de magra para casar'''' - relembram com ternura o ''''patrão'''' paternal, generoso, que as levava para churrascarias, as protegia dos ''''espertinhos'''', estabelecia regras rígidas para namoros e até casamentos. No filme, vemos que hoje elas têm vidas bem distintas: viraram atrizes, cantoras, donas de casa, e até... religiosas. Uma delas, evangélica, é filmada ao fazer uma espécie de culto em sua casa.Os artistas e colegas de trabalho falam do Abelardo Barbosa centralizador, que determinava exatamente como queria que seu programa saísse. O homem que dizia, categoricamente: ''''Eu sei o que o povo precisa para se divertir''''. Já os calouros lembram dias de glórias, mas também de vexames - quem não se lembra do temido Troféu Abacaxi?Na memória de Wilson Roberto Bauermann Estevam, de 51 anos, só ficaram momentos de extrema felicidade. Ele cantou no programa em 1976 (ainda na TV Record de São Paulo), por várias vezes, e nunca foi buzinado. ''''Fui o melhor calouro exportação do ano e ganhei lá meu primeiro carro, um Fusca zero. Lembro que uma vez fui cantar e não fui muito bem. Quando passei pelo Chacrinha, o agradeci por mais uma oportunidade. Na semana seguinte, ele mandou me chamar e fui escolhido como o melhor do programa'''', conta. ''''Tenho o maior orgulho de ter sido um calouro do Chacrinha''''.

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