Filme mira nazismo e também a cientologia

O que explicaria, de certa forma, a união do diretor Singer e Cruise para o projeto

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

Em sua biografia não autorizada do astro Tom Cruise, publicada no começo do ano passado nos EUA, Andrew Marton arrisca-se a comentar a importância de um filme que ainda estava em preparação, justamente Operação Valquíria. O filme que trouxe Tom Cruise ao Brasil integra um projeto que, segundo Marton, ultrapassa o cinema. Tom Cruise, ele destaca, é o garoto-propaganda da cientologia e a igreja criada por L. Ron Hubbard tem justamente na Alemanha um dos seus mais elevados índices de resistência no mundo. Processos, alegações críticas de toda ordem, os alemães parecem detestar a cientologia. Colocar Tom Cruise no papel de um herói da nova Alemanha - o coronel Claus von Stauffenberg, que orquestrou a tentativa de assassinato do Fuhrer para devolver ao povo alemão a sua integridade - obedeceria a uma operação de marketing milimetricamente executada. Veja o trailer de Operação ValquíriaMera coincidência, ou não, Valquíria apresenta similaridades que merecem ser destacadas, mas não espere grande coisa de suas qualidades cinematográficas. Qualquer espectador acostumado com a 2ª Guerra Mundial através do próprio cinema sabe que Hitler não foi morto num atentado. Logicamente, é um tanto estranho que o diretor Singer invista numa narrativa de suspense ao contar fatos cujo desfecho é de conhecimento público.Não que isso seja impossível, mas outros filmes que seguem a mesma linha dramática - A Águia Pousou, de John Sturges, sobre uma tentativa de assassinato de Winston Churchill por um comando alemão, e Topázio, de Alfred Hitchcock, sobre a crise dos mísseis de Cuba - também não deram muito certo, embora assinados por cineastas de competência acima de suspeita no território da ação (e do suspense). Singer trabalha no registro dos dias, das horas e dos minutos para colocar o espectador diante da inexorabilidade do tempo que se escoa, contra o herói e seus aliados.Neste sentido, a estrutura dramática de Operação Valquíria fica um tanto tênue, mas existem aspectos interessantes a considerar. Stauffenberg age movido por sua consciência, mesmo sabendo que está arriscando sua família e sua honra. Para ser um herói, ele sabe que precisa ser antipatriótico. Para Singer, judeu e homossexual, diretor de filmes de X-Men e Superman, como para Cruise, este é o aspecto interessante. O diretor pode estar querendo lançar a pá de cal sobre o patriotismo que a era George W. Bush usou como avatar para tudo o que de ruim ocorreu com os EUA (e o mundo) no pós-11 de Setembro. E há a questão do juramento.No filme, todos os alemães são sujeitos a um juramento que reconhece a infalibilidade do Fuhrer. Talvez seja uma tentativa de compreensão do que realmente ocorreu na Alemanha, criando uma massa de conformistas que aceitou passivamente todos os excessos do nacional-socialismo, incluindo a aberração que foi o Holocausto. O juramento que é preciso quebrar vira a essência de Valquíria. Considerando-se que a cientologia também exige fidelidade irrestrita de seus adeptos, talvez seja esse o ponto que fez com que Cruise e Singer, mesmo com objetivos aparentemente opostos, tenham se lançado ao projeto. Uma discussão parecida está em outros filmes recentes, como O Menino do Pijama Listrado e O Bom Homem. Valquíria não chega apenas mais tarde. A escolha narrativa também pode não ser a mais apropriada, mas é óbvio que o filme levanta questões relevantes - sobre o nazismo e, mais veladamente, sobre a cientologia. ServiçoOperação Valquíria (Valkyrie, EUA/Ale. 2008, 123 min.) - Drama. Dir. Bryan Singer. 14 anos. Cotação: Bom

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