Filme faz uma aposta total na emoção do futebol

Além disso, o ponto forte são os depoimentos dos oponentes da seleção

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

Como em geral acontece com os filmes de futebol, também 1958: O Ano Em Que o Mundo Conheceu o Brasil aposta muito na emoção. Poderia ser diferente? Quem sabe. Mas a importância simbólica de uma grande conquista talvez tenha repercussões pouco captáveis pelo puro intelecto, ou pelo distanciamento mais ortodoxo. Em especial se o assunto é futebol e se o país é o Brasil, onde esse esporte é praticado com paixão e seguido como uma seita. O culto cerimonial à seleção brasileira talvez hoje tenha esfriado um bocado, por uma série de razões que não cabe aqui discutir. Mas, até pelo menos os anos 1970, 1980, a seleção era uma febre, um fanatismo popular, uma religião laica à qual a nação toda se entregava. Esse clima é evocado no filme. A contextualização é leve, como o próprio diretor diz ter desejado. Mas, delicada que seja, deixa entrever o país que o Brasil era naquele final de década. Um país jovem, cheio de promessas e aspirações, tão inspirado quanto inseguro de suas forças. Não à toa, Asbeg invoca a figura de Nelson Rodrigues, esse oráculo das colunas esportivas que tentava arrancar, pela via do futebol, um país inteiro da sua sina de vira-latas. Nelson, citado através de seus textos prodigiosos, e encenado por um ator enquanto batia suas laudas à máquina, funciona às vezes como um doce corifeu, enunciando os perigos e as esperanças que rondavam os protagonistas da façanha histórica. Há um centro duro no filme, uma linha que serve de eixo e direção - os lances e gols da partida final, os 5 a 2 na Suécia. E, entre todos os lances, um, que se repete diversas vezes, porque é como a chave de ouro do soneto, o desfecho perfeito do drama. A bola é alçada para dentro da área sueca. Vemos quando ela parte do lado esquerdo. Acompanhamos a bola subindo e descendo de outro ângulo. Dois jogadores sobem para disputá-la e um terceiro - o goleiro sueco, Svensson - se adianta para interceptá-la . O jogador negro sobe mais alto e cabeceia para cima, encobrindo o goleiro. A bola entra mansamente no canto e o garoto de 17 anos, Pelé, cai desmaiado em campo. Fim do ato. Todos os acontecimentos anteriores, da preparação aos jogos, confluem para essa mágica partida final, o cair do pano da Copa de 1958. Mas é claro que a grande sacada, o diferencial, são os depoimentos dos oponentes do Brasil. Esse país que até hoje tanto necessita da aprovação externa, olha-se através dos olhos dos outros. E esse olhar não é sempre de aprovação. Não falta a dissonância, com os franceses acusando Vavá de ter provocado uma fratura no zagueiro Jonquet, obrigando-os a jogar com dez pelo resto da partida. Se procurarmos problemas no filme, os encontraremos sem dificuldade. Mas seria pura mesquinharia, diante de tantas coisas boas que ele evoca. Seria como mergulhar na piscina sem ver o azul da água, como disse o tão citado Nelson Rodrigues a um crítico que só se sentia feliz ao ver defeito em tudo. Serviço 1958 - O Ano Em Que o Mundo Descobriu o Brasil (Brasil/2008, 88 min.) - Documentário. Direção José Carlos Asbeg. Livre. Cotação: Bom

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.