Filme faz belo tributo à arte do ator

Tempos de Paz, que se inspira em peça de Bosco Brasil, tem a marca da direção meticulosa e precisa de Daniel Filho

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

Dan Stulbach convive há muitos anos com Clauswitz. Ele primeiro ouviu do autor Bosco Brasil sua intenção de escrever a peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz. Incentivou-o a fazê-lo. Depois, criou o personagem, primeiro no palco, com Jairo Matos e, mais tarde, com Tony Ramos. Dan está agora no filme que estreia hoje, Tempos de Paz, dirigido por Daniel Filho. "Esta é um pouco a minha história porque sou filho de imigrantes poloneses e é muito a minha história por eu ser ator." Tony Ramos também destaca a importância da representação em Tempos de Paz. "Este filme é um belo tributo à arte do ator. Torço para que o público o entenda. Todo mundo sabe que eu gosto muito de fazer novela, teatro e cinema. Não discrimino nada. Outro dia fiz uma cena de Caminho das Índias sobre a qual os colegas ainda falam. Isso me emociona. Interpretar é dar vida aos mais variados personagens e eu gosto disso. Ser ator é uma profissão linda, mas exige dedicação, entrega, estudo, senão você é só uma celebridade que vai durar 48 horas e acabou." Assista ao trailer de Tempos de PazTempos de Paz estreou em Paulínia, encerrando o 2º Festival de Cinema. Com exceção de algumas externas, o filme passa-se todo em interiores, ou um interior - a sala para onde o imigrante polonês é levado para ser interrogado pelo chefe de polícia. Dan Stulbach versus Tony Ramos. O polonês, que se apresenta como agricultor, está fugindo da guerra na Europa e chega ao Brasil justamente neste dia em que o Estado Novo está começando a cair e a ditadura de Getúlio Vargas está soltando prisioneiros políticos. O personagem de Tony Ramos, Segismundo, está à espera de novas diretrizes para os tempos de paz, diante da inevitável derrota do nazi-fascismo. Mas Tony Ramos, um policial torturador, ainda tem o poder de definir se Dan ficará no Brasil ou terá de seguir adiante. Para isso, ele propõe ao outro um desafio. Dan terá de emocioná-lo, de arrancar-lhe lágrimas.Como fazer isso com um homem tão brutal? Mas a verdade é que Dan, seu personagem, não era agricultor na Europa. Ele era ator e agora vai depender disso, de sua arte, para alcançar a sonhada nacionalidade brasileira, ou não. Daniel Filho não é apenas diretor e produtor (por meio da Lereby, que também produz seu novo filme, sobre Chico Xavier). Daniel interpreta um papel decisivo - o do médico que foi torturado por Tony Ramos e teve suas mãos arrancadas e/ou torcidas em intermináveis sessões de torturas. No palco, o personagem é apenas referido no texto, como o professor de filosofia na Polônia. Ele agora ganha presença cênica - e poderosa.No estúdio, em Paulínia, quando o repórter visitou o set de As Vidas de Chico Xavier, Daniel Filho contou que Tempos de Paz foi um filme feito com muito amor e carinho. "Trabalhamos muito abaixo do nosso preço, porque era um filme que queríamos fazer, que sentíamos que precisava ser feito." Para baratear custos, Tempos de Paz foi feito com tecnologia digital. É nela que Daniel Filho localiza o futuro do cinema. "É bom poder fazer filmes menores como produção, filmes com poucos personagens, em ambientes reduzidos. Não vou dizer que queira fazer somente esse tipo de filmes, porque não seria verdade. Cada história determina seu tamanho e formato e eu gosto de contar histórias, as mais variadas. Esse é o formato exigido por essa histórias e eu me orgulho muito do que fizemos."Tony Ramos e Dan Stulbach tinham um conhecimento profundo do texto e isso ajudou, mesmo que Daniel Filho, trabalhando com o próprio Bosco Brasil como roteirista, tenha introduzido mudanças significativas. A maior mudança, Dan Stulbach, esclarece, foi de marcação. "Daniel é um diretor muito meticuloso. Ele trabalha com marcações muito precisas para a câmera e o ator. Você sabe, você já esteve num set do Daniel. Ele prepara a cena com diferentes posições da câmera, e lente. Testa o ator e, depois, quando filma, em geral o que vale é o primeiro take." O personagem do próprio Daniel teve suas mãos destruídas pelo de Tony Ramos. A grande cena de Dan, seu monólogo final, começa com uma exuberante gesticulação do ator. A câmera e, por meio dela, o olhar do espectador ficam ligados em Dan, na forma como ele move as mãos e apanha o público. "Isso é uma coisa que só o cinema pode fazer. No teatro, mesmo que a cena fosse exatamente a mesma, seria diferente." Tony conta que, na TV ou no cinema, não se preocupa com a posição da câmera nem com a lente que está sendo usada. "Não é por desprezo. Tenho de ter uma ideia mínima, porque, se estou sendo filmado muito de perto, não posso exagerar. Mas a técnica que me ocupa é outra. Minha função é dar vida ao personagem. É construí-lo como ser humano. Em nenhum momento pensei que tinha de ser crítico em relação à sua violência e brutalidade. Humanizá-lo dá mais força quando ele desaba. Era difícil fazer isso todo dia no palco. Foi difícil no cinema, mas gratificante."

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