Filme de Sally Potter sobre o mundo da moda decepciona

Rage, da diretora inglesa de Orlando, é uma obra pretensiosa

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

09 de fevereiro de 2009 | 00h00

Saturday Night and Sunday Morning - o título original de Tudo Começou num Sábado, de Karel Reisz, no começo dos anos 60, pode ser lembrado para refletir sobre o que ocorre num grande festival de cinema. Na sábado à noite, a Berlinale exibiu o filme de Sally Potter, Rage. A autora de obras experimentais como Orlando, adaptado do romance homônimo de Virginia Woolf, pode não ter visto Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, mas assimila algumas lições do grande documentarista brasileiro. Rage é um falso documentário que se constrói por meio de entrevistas com personagens do mundo da moda. A única coisa curiosa de Rage é que o filme trata de moda e se passa em Nova York sem mostrar desfiles nem a cidade.Sally explica: "Um filme sobre moda que se prenda aos figurinos corre o risco de ficar fora de moda antes mesmo de ser lançado." Os personagens, interpretados por Judi Dench, Steve Buscemi e Jude Law, entre outros atores - o último faz um travesti -, dão entrevistas para esse garoto que faz um ?making of? do desfile. Ocorre um assassinato. Todo o filme passa-se fora de quadro. É pretensioso e estilisticamente rebuscado. Passada a surpresa inicial, na terceira entrevista o conceito dramático e visual começa a repetir-se. Muito barulho por nada.Justamente, tudo ou nada. São limites tênues. Sally Potter, querendo abarcar o todo, não vai a lugar nenhum. O filme uruguaio Gigante, exibido ontem de manhã, faz o caminho rigorosamente inverso. Dirigido pelo argentino Adrian Biniez, o filme é tão pequeno que parece nada. O protagonista trabalha no sistema de segurança de uma firma. Interessa-se por uma das garotas da limpeza, a quem passa a espionar (e seguir). A câmera midiatiza o desejo e, ao mesmo tempo, estabelece uma distância entre o herói e essa mulher por quem se sente atraído, mas ele é tímido. Com tão pouco material dramático, Biniez fez um filme ótimo. Nada aqui vira uma espiral aberta para tudo. O espectador pode descobrir 1001 coisas, fazer 1001 leituras desse filme que mostra a força do cinema uruguaio. É um mistério que volta e meia desafia o público e a crítica presentes ao Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul. O Uruguai produz um ou dois filmes por ano. Quando participam da competição gramadense, esses filmes invariavelmente vencem. São pequenos, humanos, verdadeiros - e muito bem filmados.Mais de um diretor já explicou em Gramado que a força do cinema no país talvez tenha a ver com o fato de o Uruguai, ao contrário do Brasil, não ter uma televisão tão poderosa. Biniez e seus atores (Horácio Camandulle e Leonor Svarcas) honraram aqui o cinema latino-americano. Apenas um problema: o diretor, por sentir-se pressionado ou o quê, não fez uma defesa muito brilhante do próprio filme. As palavras faltavam-lhe. Pelo contrário, Leonor falava por toda a equipe, com uma capacidade de articulação notável. Ela explicou seu desafio - a personagem que interpreta vive, na maior parte do tempo, por meio dos olhos desse homem apaixonado. Com Gigante, o cinema latino-americano faz bonito na Berlinale. O próprio festival já engrenou e tem apresentado belos filmes concorrentes - o alemão Réquiem, de Hans-Christian Schmid, e o norte-americano In the Electric Mist, que o diretor francês Bertrand Tavernier rodou na Louisiana com Tommy Lee Jones. Hoje é o primeiro dia do Brasil na Berlinale de 2009. Vingança, de Paulo Pons, será exibido à noite no Panorama.

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