Filme de Herzog passa a sensação de coisa refeita

Cineasta mostra em Veneza Bad Lieutenant, que ele não gosta que digam, mas é remake de Vício Frenético, de Abel Ferrara

Luiz Zanin Oricchio, ENVIADO ESPECIAL VENEZA, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

O cineasta Werner Herzog não gosta quando lhe dizem que fez um remake. Acontece que Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans é mesmo refilmagem de Vício Frenético (1992), de Abel Ferrara, que tinha Harvey Keitel como protagonista. Agora, quem ocupa o posto, as insígnias e vícios do policial é Nicolas Cage. A ambientação muda para New Orleans que, entende o diretor, nas condições em que ficou após o furacão Katrina, em agosto de 2005, seria uma perfeita locação para o caos.

Herzog, autor de Aguirre, Kaspar Hauser e Fitzcarraldo, disse que o filme reflete seu interesse pelos Estados Unidos, onde mora com a mulher. Com todas as suas contradições e também com toda a sua capacidade de reconstrução. No entanto, o que ele aponta mesmo é para a corrupção que se instala no centro do sistema policial, isto é, num aparelho de Estado, e o faz com toda a dureza, mesmo que, por um momento, pareça ter encontrado uma espécie de happy end.

Quem também estava na entrevista, além do diretor e de Cage, era a beldade Eva Mendes, que interpreta a prostituta Frankie com quem Terence McDonagh, personagem de Cage, mantém caso prolongado. E tumultuado, porque vivem drogados e enroscados, um com o outro e com o mundo de maneira geral. "Nem levei um segundo para aceitar o papel", conta a bela. "Acho Frankie uma mulher cheia de contradições e inseguranças, e tudo isso representou um desafio", diz.

De fato, todos os personagens são conflitados e ambivalentes. Herzog é grande diretor e por isso o filme tem algumas sequências muito boas. Mas não escapa à sensação de coisa refeita. E também não consegue segurar a tendência de Cage para a superinterpretação, que beira o grotesco e a caricatura embora tenha força em alguns momentos. O próprio Cage conta como a orientação lhe foi passada pelo diretor: "Ele queria que eu andasse com um ombro sempre acima do outro, nunca nivelados; a cabeça e os olhos adiante do corpo, como uma girafa." Por aí se pode imaginar. Mas é verdade que a presença física de Cage produz sensação de desequilíbrio - e é isso mesmo que se quer expressar.

Dois outros filmes foram exibidos no segundo dia de competição. O chinês Lei Wangzi (Príncipe das Lágrimas), de Yonfan, relembra, em tom de novelão, o período de repressão política em Taiwan, quando qualquer suspeito de ideias comunistas corria risco de vida.

Lourdes, da austríaca Jessica Hausner, vai ao santuário francês para analisar, com sutileza, a indústria da fé montada para explorar a esperança alheia. O uso de uma história singular, pontuada de ironia e distanciamento crítico, diz em favor do filme. "Quis mesmo colocar essa distância, de modo a induzir algum tipo de reflexão. Em Lourdes senti muito respeito pelas pessoas e sua esperança. Ao mesmo tempo, fiquei chocada com o mercado da fé", disse.

BRASILEIROS

Walter Salles recebeu ontem o Prêmio Robert Bresson numa calorenta e bonita cerimônia no Hotel Excelsior. Walter lembrou de sua carreira e sua vida de cinéfilo, inclusive citando uma passagem quando estudava num colégio jesuíta na França e foi advertido por haver assistido a um filme "subversivo" como If. "Mas filmar é o direito de sonhar e também de viajar", disse.

O primeiro concorrente brasileiro da Mostra Horizontes, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, foi apresentado ontem, para boa plateia. A dupla deu entrevista coletiva, também prestigiada por público razoável. "Com esse filme queríamos não apenas contar uma história de amor, como é feito desde os gregos, mas também discutir a linguagem do cinema", disse Gomes.

EVOLUÇÃO DA LINGUAGEM VISUAL

A arte japonesa, o impressionismo e Degas marcaram o maior dos ilustradores da belle époque, Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). Filho de conde, cresceu com as pernas atrofiadas por um acidente. Ele deixou apenas 31 cartazes, entre eles este Rainha da Alegria (1892), que define um estilo de ilustração jornalística ao retratar frequentadores de cabarés parisienses.

O russo Kasimir Maliévitch (1878-1935) criou um estilo pictórico de formas e cores primárias chamado suprematismo. Ele acreditava que o efeito perceptivo delas era a essência da experiência artística. Na capa do livro Pervyl Tsikl Ieltsii, do futurista Nikolai Punin, desenhada em 1920, ele usa uma composição suprematista combinada com elementos tipográficos.

O norte-americano Milton Glaser, que completou 80 anos em junho, fez este cartaz (1967) para um disco de Bob Dylan, em plena ebulição da arte pop. Com ele começa uma abordagem mais conceitual da ilustração (o Push Pin style), substituindo a linguagem narrativa dos anos 1950. Gleiser criou a campanha I Love New York.

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