Filho desenvolve e amplia ideia do pai

E produz diagnóstico sobre o País ainda mais desolador do que o original feito por Sérgio Buarque de Holanda

Thiago Lima Nicodemo, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Em 1967, em pleno acirramento do regime ditatorial no Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) proferiu uma conferência na Escola Superior de Guerra, intitulada Elementos Básicos da Nacionalidade: o Homem. Ao contrário do que sugere o título, em vez de estabelecer traços característicos da identidade nacional, em um ato de coragem, se propôs a discutir a questão da democracia no Brasil. Para ele, o povo sempre esteve fora dos processos decisórios em detrimento de uma elite que executava mudanças em seu benefício próprio. A perspectiva de modernização e democratização da sociedade brasileira esteve presente ao longo de todo o seu percurso intelectual, pelo menos, desde sua primeira e mais conhecida obra, Raízes do Brasil (1936), mas percebendo a gravidade da situação política, o intelectual foi categórico como poucas vezes havia sido. No mesmo ano, seu filho, Chico Buarque escrevia a peça Roda Viva que casualmente representava uma guinada de sua obra em direção ao engajamento político, causando reações violentas. Não é casual que, no mesmo ano, pai e filho tenham reforçado seu posicionamento político contra a ditadura. Ambos compreendiam que o autoritarismo político era profundamente arraigado no processo de formação do Brasil e o povo só poderia ser integrado no processo decisório se fossem reformuladas as bases patrimonialistas de nossa sociedade. Se o pai desenvolveu essa preocupação em obras historiográficas, como Visão do Paraíso (1958) e Da Monarquia à República (1972), e não seria demais admitir que essa posição crítica também acompanha Chico Buarque por toda sua obra, ganhando contornos próprios.Em Leite Derramado, Chico deixa transparecer alguns traços evidentes da crítica social de seu pai. O livro se enquadra no mesmo esteio de obras anteriores como Estorvo ou Benjamim, marcados segundo José Miguel Wisnik por "observações obsedantes e corrosivas, cujo giro vicioso parece engolfar toda inocência social perdida, toda evanescência lírica e toda chance de identificação coletiva, empurrando-as para um horizonte sem saída e salvação". Assim como em Benjamim, sua nova obra se constitui por uma reconstituição em flash-back da experiência individual vivida. Diante da iminência da morte, os protagonistas buscam o sentido da vida. Leite Derramado trata de um senhor centenário, condenado à morte em um leito de um hospital precário no Rio, que conta sua história oscilando entre lampejos de consciência no presente e reconstituição de imagens no passado.Eulálio Assumpção, o protagonista, vem de uma nobre estirpe de funcionários do Estado. Seu trisavô aportou com a família real em 1808, seu bisavô foi barão, o avô político influente e comensal de d. Pedro II, seu pai, senador da República Velha, ele, nada construiu. Ao longo da narrativa essas origens são constantemente rememoradas e, o que marca essa volta ao passado, é um profundo ressentimento. Eulálio viveu todo o século 20 e sua história foi a história da ruína dos bens familiares, ele parece pouco ter trabalhado, e quando o fez, foi pela força das suas relações de família. A caracterização da personagem lembra em muito análises de Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, pois esse afã de "títulos honoríficos" e "prosperidade sem custo", uma forte repulsa ao trabalho, são traços presentes desde nossos colonizadores deita raízes profundas em uma sociedade de base agrária. Em alguma medida, na psicologia de Eulálio Assumpção pode-se identificar fortes traços do que Sérgio Buarque definiu como "cordialidade"; a hipertrofia das relações, privadas e familiares sobre o bem público e a racionalidade burocrática, que caracterizam os traços históricos de nossa sociedade desde os senhores de engenho. Não por acaso o protagonista se queixa constantemente no hospital de não ser reconhecido por quem é.Com a morte de Eulálio poderíamos pensar ingenuamente no fim do homem cordial, o que finalmente abriria caminho para a justiça e a democracia. Sérgio Buarque em sua obra de estreia chegou a cogitar que com o processo de urbanização, os laços sociais ligados ao modelo patriarcal desaparecessem aos poucos. Não é esse panorama que nos oferece o romance de Chico Buarque. Seu personagem principal, em uma passagem altamente irônica, chega a desfilar drogado, fumando um charuto cubano e bebendo um vinho francês pela periferia do Rio (págs. 86-88). Na verdade, o que a obra produz é uma profunda sensação de inadequação. Eulálio não é uma espécie em extinção, mas sim uma metáfora da incapacidade de compreender o mundo à nossa volta. Chico desenha, deste modo, a intensificação do esvaziamento da dimensão política e social na contemporaneidade. Assim, em alguma medida, o filho desenvolve o aparato crítico pensado pelo pai, e produz um novo diagnóstico sobre a realidade brasileira tão lúcido que se torna bem mais desolador que o original. Thiago Lima Nicodemo, historiador, é autor de Urdidura do Vivido, sobre a obra de Sérgio Buarque de Holanda

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