Filarmônica de Minas já tem sonoridade própria

E comprova que em breve estará entre as melhores do País

Lauro Machado Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

O mais importante, na apresentação de sábado da Filarmônica de Minas Gerais, na Sala São Paulo, foi avaliar o rendimento que, no espaço de um ano e meio, o regente Fábio Mechetti pôde obter de seus músicos. E constatar que a OFMG desenvolveu uma sonoridade própria, sobretudo nas cordas; ainda há trabalho a fazer no setor dos metais, mas as madeiras são capazes de resultados gratificantes. E, mais do que isso, o senso de estilo de Mechetti fez o romantismo da abertura do Oberon, de Weber, com que o programa se iniciou, soar diferenciado do depurado classicismo da Sinfonia nº 5 em si bemol maior D. 485 na qual, ao lado da presença mozartiana, afirma-se de modo inequívoco a voz de Franz Schubert. Estavam presentes aquelas qualidades de clareza na articulação, espinhosas de conseguir e necessárias à realização de uma peça que apresenta riscos estilísticos muito particulares.

Depois da graça juvenil do Allegro, iniciado com uma daquelas melodias que aderem à mente desde a primeira vez que a ouvimos, a OFMG plasmou, com muito cuidado, os diálogos entre as cordas e as madeiras do Andante con moto, cujo fôlego já faz pressentir o Schubert ousado das últimas sinfonias. A melhor surpresa foi o nítido aroma telúrico austríaco que Mechetti e a OFMG imprimiram ao Menuetto, em cujo vigor, às vezes agressivo, fizeram sentir de que modo, em breve, Schubert será um grande modelo para Bruckner. E na alegria controlada do Allegro vivace, destacou-se o modo como, no desenvolvimento, Mechetti fez as cordas e sopros dialogarem, antes do impulso irresistível da reexposição e coda.

Na segunda parte, acompanhando Antonio Menezes, a orquestra de Minas Gerais interpretou Don Quixote, de Richard Strauss. E ali cabe registrar em que medida a concepção de Mechetti deu à OFMG segurança para formar uma precisa moldura à declamação do solista. E isso ficou claro desde a longa introdução, na qual Strauss sugere como Don Alonzo perdeu o juízo lendo romances de cavalaria, que precede a entrada do solista, enunciando o tema do Cavaleiro da Triste Figura. Aqui, é um prazer apontar o nível da participação do spalla das violas (Sancho Pança), que se mostrou à altura do violoncelo do Quixote.

Talvez ainda falte repensar aspectos da segunda variação, em que Quixote investe contra um rebanho de carneiros, vendo nela o exército do imperador Alifanfaron. Mas foi ótimo o episódio, na quarta variação, em que o cavaleiro vê, numa procissão de penitentes, um bando de ladrões de estrada: a oposição do hino litúrgico com a sugestão, nas cordas, da reação dos penitentes ao ataque inesperado foi muito bem construída.

A serenidade com que Mechetti deixa o cantabile da linha melódica ser desenhado (já percebida em Schubert) teve resultados especiais em Strauss: por exemplo no episódio lírico da quinta variação (a evocação de Dulcineia), belíssimo nas mãos de Menezes. E a prova de que a OFMG está à altura de enfrentar uma página como Don Quixote veio nos turbilhões cromáticos das cordas, nos glissando das harpas e flautas que, nas variações 7 e 8, pintam a cavalgada no ar e a desastrada travessia de um rio agitado, num "barco encantado" que, na verdade, não passa de uma frágil canoa.

No último episódio, em que Quixote reflete sobre suas aventuras e prepara-se para a reconciliação consigo mesmo na morte, as figuras nas cordas, a cadência da clarineta souberam envolver o canto do violoncelo, a que Menezes conferiu uma suprema emoção. E quando a OFMG uniu-se a ele, no extra, para tocar o final das Variações Rococó, de Tchaikóvski, foi animador pensar que, na capital do segundo Estado brasileiro, está surgindo uma orquestra que, em breve, poderá ombrear-se às mais importantes do País.

O cronista Arnaldo Jabor excepcionalmente não escreve hoje neste espaço

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