Figura paterna é símbolo de interdição em filmes nacionais

Produções como Lavoura Arcaica e Abril Despedaçado colocam a revolta contra o patriarca no centro da trama

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

A questão do pai não é estranha ao cinema brasileiro contemporâneo. Pelo contrário, está presente em alguns dos melhores filmes dos últimos anos (todos disponíveis em DVD). O principal deles, possivelmente, é Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado na obra homônima de Raduan Nassar. Aqui, o pai é o chefe de clã da família tradicional libanesa, em confronto com o filho, André. O pai é vivido por Raul Cortez; o filho, por Selton Melo. A cena emblemática é o discurso de Cortez, à mesa, no qual o poder paterno se expressa na forma da lei, da ordem, da estabilidade na dificuldade.Trata-se de um poder contestado, como sabe quem viu o filme ou leu o livro. E, da mesma forma, a contestação ao pai está no cerne de Abril Despedaçado, de Walter Salles - este uma adaptação brasileira da obra do albanês Ismail Kadaré. O pai (José Dumont) é quem impõe a lei da vingança, que terá de ser quebrada para que o filho adulto (Rodrigo Santoro) sobreviva, mesmo que à custa do sacrifício do caçula (Ravi Lacerda).Em outro registro, Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, trata do abuso do poder paterno. O pai (Othon Bastos) funciona como a instância que reprime o filho (Rodrigo Santoro, mais uma vez), usuário de drogas. A violência assume a forma da internação em um manicômio, experiência real narrada em livro por Austregésilo Carrano. O pai castrador é também o personagem de A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr. Vivendo isolados, o pai (Lima Duarte) tenta impedir que a filha (Leandra Leal) se emancipe para o amor, isto é, para o encontro com o outro. A solução poética vem através de um "vento" dos mais simbólicos, seguindo o romance de Moacir C. Lopes. Na bela canção de Chico Buarque, feita para o filme, a narradora pede: "Pai/ Me deixa respirar o vento." Tudo está dito aí.

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