Ficção e realidade, cada vez mais próximas

Produção brasileira não foi brilhante, mas aponta tendência de união de gêneros como fenômeno a ser observado

, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Não se pode dizer que tenha sido um ano particularmente brilhante para o cinema brasileiro. Mesmo assim, garimpando entre os quase 70 lançamentos, podem-se destacar um par de ótimos filmes e algumas tendências esboçadas para o futuro. Tendência principal: continua grande o número de documentários, o que deve ainda aumentar devido à facilidade das novas tecnologias. A média baixa de público é um limite para esse tipo de cinema. Mas a fronteira cada vez mais tênue entre ficção e documentário parece se aprofundar nos anos vindouros, o que virá a complicar a separação muito clara de "gêneros", divisão que alguns teóricos, como Jean-Claude Bernardet, consideram obsoleta como o Ford Bigode. Naquele que é um dos principais, senão o mais importante lançamento deste ano, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, essa abolição de fronteiras é a marca mesma da linguagem cinematográfica adotada. O que dizer desse índio perdido depois do massacre de sua aldeia, que interpreta a si mesmo, reencontra o filho depois de anos e convive com os personagens reais como os sertanistas que o acolheram? Realidade? Ficção? Ou ambas entrelaçadas e formando um terceiro termo ainda não definível? O que importa é que a história, se não é verdadeira no sentido convencional, produz um "efeito de verdade" de grande impacto. E isso basta. Junto com outro lançamento, Terra Vermelha, de Marco Bechis, este uma co-produção ítalo-brasileira, Serras da Desordem põe a temática indígena em outro patamar, livrando-a do discurso bem-intencionado, porém inócuo, do bon sauvage herdado de Rousseau. Podemos amar os índios, e respeitá-los em sua especificidade, não porque sejam melhores do que nós ou devam ser romanticamente idealizados. É porque, em sua diferença radical, nos apontam, em silêncio, aquilo que falta e falha em nossa própria civilização. No ano do centenário de Claude Lévi-Strauss, já era tempo de o cinema chegar a essa maturidade. Chegou. O outro grande lançamento do ano é Linha de Passe, de Daniela Thomas e Walter Salles, ficção que, sintomaticamente, tem origem em dois documentários; um sobre jogadores de futebol em início de carreira, outro sobre os evangélicos. Deles, sai a história ficcional da doméstica (Sandra Corveloni) que tenta manter unidos e longe da criminalidade filhos de casamentos diferentes. Pelo trabalho, Sandra ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, proeza que só havia sido conseguida por outra atriz brasileira, Fernanda Torres com Eu Sei que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor. Com Linha de Passe, Daniela & Walter fazem um filme ao mesmo tempo agudo e sem concessões do ponto de vista social como amoroso para com seus personagens. Incontornável em qualquer retrospectiva, Meu Nome não É Johnny, de Mauro Lima, é o único grande sucesso nacional de bilheteria em 2008, com seus 2.115.000 ingressos vendidos. Ocupa o 7º posto nos "Dez Mais" do ano, o único brasileiro a entrar na lista - os outros nove são produções norte-americanas, com Batman, O Cavaleiro das Trevas como líder. Com perdão do verbo, Johnny é baseado em personagem real, João Estrella, usuário de classe média que se tornou traficante para sustentar o próprio vício, foi preso e recuperou-se. No entanto, o filme não adota um tom moralista de campanha antidrogas. Rápido, incorpora a vertigem em sua linguagem e conta com a atuação empolgante de Selton Mello. Aliás, o ator lançou este ano Feliz Natal, sua primeira direção de longa-metragem. Um belo filme sobre a disfunção familiar, que Selton tende a entender como fenômeno mais geral do que particular, algo como que inscrito no modo de funcionamento da nossa sociedade. Com uma bela interpretação de Darlene Glória e o retorno à cena de Paulo Guarnieri, Feliz Natal recebeu algumas restrições críticas por seus "clichês de cinema de arte". Seja, mas, visto sem preconceitos, o filme revela que o ator consagrado é também cineasta promissor, intenso e ligado nas questões da linguagem cinematográfica. Da mesma forma que seu colega Matheus Nachtergaele, que estréia ano que vem com seu A Festa da Menina Morta. De qualquer forma, Feliz Natal faz parte de um grupo de "filmes pequenos" do ponto de vista comercial, mas que enriquecem qualquer cinematografia. São os casos de Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald, Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, Meu Nome É Dindi, de Bruno Safadi, Deserto Feliz, de Paulo Caldas, Andarilho, de Cao Guimarães. Filmes especiais, que devem ser vistos com cuidado e pedem ao público (e à crítica, sim senhor) certa abertura de espírito e - por que não? - um pouco de inteligência sensível. Que o público menos informado esteja pronto para receber mais do mesmo, entende-se, até mesmo pela dinâmica da indústria cultural, se perdoarem a expressão em desuso. Que a crítica ande pelo caminho obtuso do mercado, já fica bem mais difícil de compreender. Isso não quer dizer que não se possa fazer filmes de qualidade para um público mais amplo. O próprio Johnny é exemplo disso. Assim como é o bonito Chega de Saudade, de Laís Bodansky, feito para emocionar e nem por isso menos digno, pelo contrário. Acontece que, muitas vezes, o filme de qualidade para o público acaba escorregando num desnecessário grotesco como foi o caso de Estômago, de Marcos Jorge, salvo pela atuação de um ator extraordinário, João Miguel. Carlos Reichenbach, que é diretor de culto, também tentou conquistar o público com uma obra mais assimilável que de hábito, Falsa Loura, mas não obteve sucesso. Também foi o caso de Guilherme de Almeida Prado com seu Onde Andará Dulce Veiga?, baseado em texto de Caio Fernando Abreu. Os caminhos que levam ao público continuam misteriosos, embora os produtores recusem-se a discutir essa questão, como se o retorno de bilheteria tivesse de ser desconsiderado em produção subsidiada como a brasileira. Deve-se registrar também que 2008 foi o ano da volta de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ao longa-metragem. Seu Encarnação do Demônio, vencedor do Festival de Paulínia, foi produzido com recursos fartos, equipe técnica de ponta e muita badalação. Filme de momentos fortes, mas também meio fashion, sem o humor e a precariedade que eram suas marcas registradas, acabou por se mostrar limitado. Lançado com grandiloqüência por uma das majors americanas, passou despercebido pelo público. O que não diz nada sobre a qualidade de um filme. Mas diz alguma coisa a quem sustenta que Mojica faz o grande cinema popular de terror no Brasil.

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