JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Festival Videobrasil ganha sede e aborda diáspora e migração na mostra de 2015

Exposição 'Memórias Inapagáveis' será montada no Malba, de Buenos Aires

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Dezembro 2014 | 03h00

Montada para comemorar os 30 anos do Festival Videobrasil, a exposição Memórias Inapagáveis, que terminou em novembro, no Sesc Pompeia, será montada no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) em junho de 2015 pelo novo curador da instituição argentina, o historiador e crítico espanhol Agustín Pérez Rubio. Ele, que também assina a curadoria da mostra, reuniu alguns dos mais atuantes videomakers, entre os quais os libaneses Akram Zaatari e Walid Raad, o marroquino Bouchra Khalili e o chinês Liu Wei, selecionados entre mais de 3 mil obras do acervo da Associação Cultural Videobrasil, que ganha, em outubro do próximo ano, sua sede definitiva, na Vila Leopoldina, em São Paulo. Ela vai permitir aos pesquisadores maior conforto para ver e analisar obras antológicas em vídeo realizadas por nomes hoje consagrados como Bill Viola, Nam June Paik, Gary Hill e William Kentridge, para citar apenas quatro que ficaram conhecidos no Brasil graças ao festival.

A mostra Memórias Inapagáveis é uma seta que sinaliza a opção da Associação Videobrasil de privilegiar não a própria história interna, mas a visão geopolítica do Sul, incluindo regiões fora do circuito do mercado de arte, como África e Oriente Médio. Rubio, ao selecionar nomes como o da dupla africana Mwangi Hutter – formada pelos artistas Ingrid Mwangi e Robert Hutter –, não os escolheu em função da consagração dos dois em bienais como as de Veneza e São Paulo, mas “para colocar em evidência o caráter essencialmente político e geográfico que encontramos nessa coleção”.

Criadora e diretora do festival, Solange Farkas confirma esse compromisso com as “histórias renegadas” de povos africanos e latinos. Nas 18 obras da exposição, produzidas nos últimos 30 anos, o foco é justamente a construção da memória de países arrasados pelo colonizador, que passaram ou passam por conflitos. Rubio foi o primeiro curador estrangeiro convidado pelo Videobrasil a se debruçar sobre seu acervo e selecionar narrativas visuais sobre colonialismo, racismo e demandas históricas de etnias segregadas, incluindo aí populações indígenas representadas em vídeos como A Arca de Z’oé, que o cineasta francês Vincent Carelli e a antropóloga de origem chinesa Dominique Gallois, radicada em São Paulo, realizaram há pouco mais de 20 anos.

Num momento em que o mercado de arte tenta transformar o vídeo em fetiche, estabelecendo regras para sua comercialização, uma mostra que “tira da escuridão e do esquecimento” esses povos, como enfatiza o curador Rubio, funciona como um antídoto à uniformização da linguagem imposta pelas leis do comércio. A curadora do Videobrasil, Solange Farkas, assume, nesse contexto, o papel de “olheira” que vai buscar nas regiões mais distantes realizadores capazes de transformar a memória social num projeto artístico sobre a amnésia histórica. Foi assim que ela descobriu no Líbano Akram Zaatari. Também revelou o jovem africano Bakary Diallo (1979-2014), do Mali, morto num acidente aéreo quando estava a caminho de uma residência no Brasil, patrocinada pelo Videobrasil.

Nos 30 anos de existência do festival, alguns parceiros têm garantido apoio constante ao Videobrasil, como o Sesc e a empresa Electra Cinema e Vídeo, tanto para a montagem da mostra como para publicações relacionadas ao acervo, arquivo e ensaios encomendados. Uma delas é o Cadernos Videobrasil, que chega ao décimo número, lançado no último dia 17, com a primeira curadoria estrangeira. Quem assina a edição é Elvira Dyangani Ose, curadora da próxima edição da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Gotemburgo (em 2015). A edição reúne sete ensaios sobre a massiva descolonização da África entre as décadas de 1950 e 1970.

Para o festival do próximo ano, que deve ser realizado na sede própria do Videobrasil, a diretora Solange Farkas reforça essa aposta no continente africano. Foram mais de 3 mil inscrições para participar da mostra, representando 170 países. Um dos convidados é o artista Abdoulayê Konatê, do Mali, que vem pela primeira vez ao Brasil mostrar seus imensos painéis baseados em matrizes têxteis. Questões como a relação dos artistas do Sul com o cotidiano e a situação política de seus países serão discutidas no projeto Observatório do Sul, que será criado também no próximo ano, espécie de fórum de debates sobre geopolítica que, junto à plataforma digital do Videobrasil, criada há dois anos, dará visibilidade ao histórico acervo da instituição, já usado pelas universidades.

Esse esforço educacional é parte da estratégia do Videobrasil para conquistar novos espectadores. “Precisamos de políticas públicas para incentivar os realizadores de vídeo do Sul, pois, do contrário, não vamos sair desse lugar de precariedade”, observa Solange Farkas. Sem o glamour de bienais internacionais como Veneza, mas com competência e coragem, ela se aventura pelas mais remotas regiões do globo atrás de nomes que depois esse circuito vai aproveitar. Akram Zaatari é apenas uma prova dessa vocação de caça-talentos no meio do nada.

Próxima edição tem prêmio de R$ 75 mil 

O festival Videobrasil vai conceder em 2015 um prêmio no valor de R$ 75 mil e nove outros prêmios de residência artística, com duração de dois meses, em instituições parceiras ao redor do mundo. Além disso, a comissão curadora vai selecionar quatro projetos para produção, oferecendo a cada um R$ 30 mil. Todos os premiados receberão troféus criados por Tunga, Rosângela Rennó, Erika Verzutti e Carmela Gross. O festival ajudou a divulgar a obra de artistas como Akram Zaatari (Líbano), Eder Santos (Brasil) e Gregg Smith (África do Sul), entre outros. / A.G.F.

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