Festival que aposta na radicalidade

Filmes tocam em temas incômodos e usam opções narrativas perturbadoras

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

25 Março 2009 | 00h00

Basta uma olhada rápida no perfil do É Tudo Verdade deste ano para concluir que a aposta da curadoria foi na radicalidade dos participantes. Por exemplo, no filme de abertura, Cartas ao Presidente, Petr Lom revela de maneira incisiva os mecanismos do populismo no Irã contemporâneo. No caso, o presidente Ahmadinejad estimula a população a escrever-lhe cartas, contando seus problemas, como se fosse lê-las pessoalmente. O filme acompanha o processo, em que as cartas são classificadas, lidas e respondidas por estudantes lotados no palácio presidencial. Vale essa ilusão do "contato pessoal", da democracia direta, que constitui a característica por excelência do populismo. O filme se constrói a partir de entrevistas feitas com iranianos - uma opção que exclui as explicações em off e leva à abertura de interpretações. Outro exemplo é O Equilibrista, de James March, vencedor do Oscar de documentário de 2009. O filme, realizado com imagens captadas em várias épocas, reconstrói a trajetória de Philippe Petit, um mestre da corda bamba, que se notabilizou em seu país por ter andado entre as torres da Catedral de Notre-Dame. Mas esse feito parece café pequeno comparado ao que viria depois: Petit conseguiu estender sua corda entre os dois prédios do World Trade Center e percorreu o caminho do vão livre oito vezes, para pasmo dos nova-iorquinos. A façanha teve caráter de uma operação de guerra, com o prédio sendo invadido à noite para que o equipamento fosse montado. Petit gosta dos desafios radicais. Estranha quando lhe perguntam "por que você faz isso?", pois a resposta lhe parece óbvia: é para provar-se. Lembra a do alpinista que primeiro escalou o Everest. Por que arriscou-se tanto? "Ora, porque a montanha estava lá", respondeu. Há, nesse francês, alguma coisa de Werner Herzog, o cineasta de Aguirre, a Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo. Esse impulso em direção à proeza, o risco que flerta com a morte. O filme todo se desenvolve como um thriller, envolvente ao extremo. Entre os participantes nacionais, o recorte provocativo também se impõe. É o caso de Corumbiara, de Vincent Carelli, relato pouco convencional do massacre dos índios numa gleba em Rondônia, nos anos 1980. Carelli e sua equipe saíram atrás de índios remanescentes, registrando a busca com sua câmera, inclusive o encontro com alguns raros sobreviventes, que falavam uma linguagem desconhecida. As imagens eram para registro próprio e ele nem havia pensado em delas fazer um documentário. Este surge a posteriori. E tem o tom da história se fazendo à vista do espectador, com fluência, montando o quebra-cabeças de etnias perdidas - e que escapam da extinção por milagre. Junto com Terra Vermelha, de Marco Bechis, e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, este Corumbiara coloca a questão indígena em patamar diferente, sem as ilusões do bom-mocismo rousseauniano ou o facilitário das narrativas lineares. Em outra chave, não menos contundente, aparece Garapa, o esperado documentário de José Padilha. Rodado inteiramente em preto-e-branco, o filme baseia-se numa frase de Josué de Castro, autor do clássico Geografia da Fome. Existem, segundo Josué, duas maneiras de uma pessoa morrer de fome: ou não comer nada, ou alimentar-se de maneira constante com nutrientes inadequados. A partir dessa premissa, Padilha segue o cotidiano de três famílias cearenses, à beira da desnutrição apesar dos programas como o Fome Zero. Sobrevivem, mas no limite. As imagens são incômodas ao extremo. No preto-e-branco granulado, vê-se gente lutando pela vida no dia a dia, em condições precárias, mulheres tentando criar fieiras de filhos em meio à falta absoluta de saneamento básico e ainda tendo de enfrentar o alcoolismo dos maridos. Segundo dados da ONU, nada menos de 11 milhões de brasileiros vivem nessas condições. Esse é o drama atual. Já Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, volta aos anos 70 para tocar em tema complicado - a colaboração de empresários paulistas com a polícia e o exército na repressão aos contestadores do regime. A figura exemplar é o dinamarquês Henning Albert Boilesen (1916- 1971), que imigrou para o Brasil, tornou-se presidente do grupo Ultragás e foi executado por militantes de esquerda por sua participação na Operação Bandeirantes. O personagem é flagrado em sua complexidade e toda uma época de violência e radicalismo político lhe serve como moldura. Um dos mais contundentes documentários sobre os chamados anos de chumbo no Brasil.

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