Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Festival NaLata reúne 15 artistas em murais em São Paulo e quer entrar no calendário da cidade

Obras chamam atenção por preencher o espaço urbano do Largo da Batata, em Pinheiros, não só com arte, mas também com reflexões

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2020 | 16h00

Quem passar pela região do Largo da Batata nos próximos dias, semanas e meses vai poder usufruir de uma nova galeria de arte a céu aberto: o NaLata Festival Internacional de Arte Urbana reuniu 15 artistas na pintura de murais em nove prédios e dutos de metrô na área, em obras que chamam atenção por preencher o espaço urbano de uma região de São Paulo não só com arte, mas também com reflexões sobre a sociedade e sobre o momento fora do comum pelo qual ela atravessa.

A curadoria é do agente cultural Luan Cardoso, que convidou os artistas brasileiros Alex Senna, Enivo, Evol, Marcelo Eco, Mari Mats, Mateus Bailon, Pri Barbosa e Rafael Sliks, e as muralistas Gleo (Colômbia) e Paola Delfin (México). Também estão ali, por meio de um concurso para novos talentos, os artistas Selon, Thiago Nevs, Pixote Mushi, Fe Ikehara e Serifa.

São 3.689m² de arte, segundo a produção, e a ideia é que o evento entre no calendário cultural da cidade. Planejado para abril num formato diferente, com mais convidados internacionais, o NaLata também se adaptou às condições da pandemia, com uma reformulação para chegar ao resultado atual. 

Para o curador, a resposta do público – e da cidade – foi especial. “Um momento muito forte foi quando percebemos motoboys passando pelos locais e buzinando, como sinal de apoio”, conta Cardoso. No processo de reformulação, ele diz ter entendido com sua equipe que o melhor a fazer, no momento, seria colocar arte na vida das pessoas. “Pensamos que estamos todos em casa… mas não é assim, há muita gente na rua, trabalhando, vivendo pela pandemia. Houve um momento de pensar no coletivo.”

A curadoria envolveu algumas escolhas – uma delas, permanecer na região também pelos próximos anos. “Poucos projetos envolvem tanta responsabilidade quanto pintar um prédio inteiro numa cidade como São Paulo”, afirma o curador. “Trata-se de um contato com o artista, porque afinal é uma pintura que será vista pela minha avó, pelo cara jovem, por quem é mais de direita e mais de esquerda. As pessoas moram ali, é uma diversidade, então, procuro mostrar a importância de o artista ponderar. Quando acontece esse embate, é lindo.”

Para o artista Alex Senna, de 38 anos, a responsabilidade é, de fato, uma questão, mesmo com mais de 15 murais dessa envergadura espalhados pelo mundo. Ele pintou o mural na Rua Artur de Azevedo, 985, em um parceria com o poeta Marcelo Ariel, que fez o texto.

As figuras, no traço típico do artista, retratam crianças tomando conta uma das outras. “A responsabilidade de pintar algo tão grande na cidade é enorme.” Ele diz que, quando recebeu o convite, ficou em dúvida sobre o que poderia retratar. “Não ia sair de casa só para fazer uma coisa decorativa. Ao mesmo tempo, não queria fazer algo pesado, que deixasse a gente para baixo.”

Para a artista visual Pri Barbosa, de 30 anos, esse foi o primeiro grande mural em um prédio. “Há muitos desafios: um deles é o medo de altura”, ri. “Mas também questões muito técnicas, de proporções e volumes.” Ela criou o mural Granada, na Rua dos Pinheiros, 1.474. “Escolhi fazer uma mulher que representasse diversas outras. É um corpo não padrão, baseado no meu próprio, e optei por pintar uma manifestante, que tem delicadeza também.”

O NaLata foi produzido pela agência InHaus e já programa sua próxima edição, em 2021.

Veja outras fotos das pinturas do NaLata Festival 2020 em São Paulo:

Pinturas em São Paulo buscam face humana da cidade, diz Baixo Ribeiro

O ambiente urbano – e de concreto por toda parte – de São Paulo é suporte de trabalho para artistas há décadas. Um dos aspectos que diferencia a capital de outras metrópoles é o seu crescimento concentrado no tempo, e desajustado. “São Paulo é uma cidade de asfalto, muros e guaritas”, explica o curador especializado em arte urbana, Baixo Ribeiro. “Se não fosse o graffiti (e outras artes), os pedestres só veriam elementos visuais agressivos na paisagem da cidade, como grades, pontas de lança, concertinas e câmeras de vigilância. Talvez seja essa agressividade visual urbana que tenha inspirado nossos artistas a amaciar a paisagem, criar canais de diálogo com os passantes e tornar a cidade mais humana”, opina. Ribeiro explica que a Lei Cidade Limpa, em vigor desde 2007, também abriu espaço para a criação. “A verdadeira identidade de São Paulo é a sua arte urbana.”

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