Marcos Arcoverde/Estadão/Amanda Perobelli / Estadão/TEATRO VIVO/Wilton Junior/Estadão
Fernando Meirelles, Rodrigo Santoro, Denise Fraga e Gilberto Gil se reúnem com psicólogos, psiquiatras e psicanalistas para falar sobre saúde mental e cultura Marcos Arcoverde/Estadão/Amanda Perobelli / Estadão/TEATRO VIVO/Wilton Junior/Estadão

Festival discute saúde mental a partir da arte

Fernando Meirelles, Rodrigo Santoro, Denise Fraga, Gilberto Gil, psicólogos e filósofos falam sobre emoções

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 10h00

Quando assistimos a um filme, uma peça de teatro, contemplamos uma pintura ou uma bela canção, não paramos para refletir de que maneira a arte mexe com as nossas emoções. A indústria cultural tem papel importante na construção do nosso ser. Tem influência nos nossos ideais românticos, nos deixa de bom humor, nos motiva e, em alguns momentos, também nos causa medo e insegurança. Ela mexe com o mais profundo dos nossos sonhos e desejos, por vezes, de maneira inconsciente.

A Semana Cultural Psi, festival gratuito que ocorre entre os dias 19 e 22 de outubro, pretende vasculhar os mistérios da mente através da arte e conseguiu reunir importantes nomes da cena cultural, como o cineasta Fernando Meirelles, os atores Rodrigo Santoro e Denise Fraga e o cantor Gilberto Gil. A cada dia, um artista diferente conversa com um psicólogo, psiquiatra ou psicanalista fazendo uma conexão da sua obra sobre um aspecto da mente humana. 

O evento foi idealizado pela Relações Simplificadas, consultoria de desenvolvimento humano criada em 2016 pela publicitária e palhaça Nina Ramos e o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira. “Uma cultura onde falar sobre temas como o nosso bem-estar psíquico, saúde mental e o equilíbrio emocional é algo tão normal quanto falar sobre a saúde do corpo. Por outro lado, o festival abordará a arte como a ponte para essa aproximação. Ela favorece a derrubada de tabus e o acesso a esses assuntos que são de interesse de toda a sociedade, pois existe uma urgência em falarmos sobre isso”, ressalta o psicólogo. 

 


A saúde mental é um dos temas mais preocupantes da atualidade. Em 2018, a Organização Mundial da Saúde  (OMS) estimava que, em 2020, a depressão seria a doença mais incapacitante do planeta. Com o novo coronavírus, especialistas ainda tentam avaliar os impactos emocionais da pandemia na vida das pessoas. 

“Acreditamos que a pandemia acelerou o processo de apropriação da indústria cultural dos temas da psicologia e da psicanálise. Isso pode representar uma oportunidade para a construção de uma cultura que aceite melhor as estranhezas e mistérios do nosso funcionamento mental. Se soubermos aproveitar a oportunidade, seremos capazes de construir uma sociedade mais tolerante, empática e capaz de superar os tabus e preconceitos que ainda rondam os campos dos conhecimentos e cuidados da mente”, avalia Francisco Nogueira.

Todas as conversas do evento, que tem apoio da Unibes Cultural e patrocínio da AmorSaúde, acontecerão às 18h, pela internet. O psiquiatra e psicanalista Joel Birman conversa com o cineasta Fernando Meirelles no dia 19 de outubro, o filósofo Vladmir Safatle recebe o ator Rodrigo Santoro no dia 18, a psicanalista Maria Homem e a atriz Denise Fraga se encontram na quarta, 21, e, no dia seguinte, a psicanalista Vera Iaconelli encerra o evento com o cantor Gilberto Gil. 

A relação entre Psicologia e cultura sofreu transformações ao longo das últimas décadas. Francisco Nogueira, sócio da consultoria Relações Simplificadas, lembra da escola de Frankfurt que, em síntese, entende a cultura como algo que é submetido à lógica da mercadoria. A Semana Cultural Psi, na visão do psicanalista, vai pelo caminho contrário e busca resgatar a potência transformadora da arte, capaz de promover a autonomia do sujeito. “A arte deixa de obedecer à lógica de mercado para promover o retorno do investimento libidinal feito nela pelo sujeito através de reflexões sobre o seu mundo interno e do autoconhecimento. A Semana da Cultura Psi busca cumprir a função histórica de converter o imanente potencial de crescimento humano que a indústria cultural subtrai da obra de arte e vertê-lo de volta para o público, tornando a força transformadora da arte em algo visível e soberano na vida das pessoas”, conclui.

Você pode conferir a programação completa do festival no site. A transmissão será ao vivo pelos canais do YouTube do Relações Simplificadas e pelo YouTube e Facebook da Unibes Cultural

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Museus americanos adotam técnicas de arteterapia para ajudar público à distância

Em tempos de pandemia, Queens Museum e outras instituições nos EUA oferecem programas a distância para ajudar a resistir em tempos difíceis

Zachary Small, The New York Times

19 de junho de 2020 | 05h00

Quando o instrutor lhe pediu para descrever sua vida em duas palavras, Walter Enriquez escolheu com cuidado: medo e violência. Ele passou décadas trabalhando como policial no Peru durante os dias mais sangrentos de conflito armado entre forças do governo e guerrilheiros que mataram quase 70 mil pessoas. Mas ele disse que nada poderia tê-lo preparado para o extremo isolamento e solidão que vêm com a quarentena. Tendo perdido um punhado de amigos e vizinhos devido à pandemia do novo coronavírus, o aposentado de 75 anos se voltou para os programas de arteterapia oferecidos pelo Queens Museum em Nova York para melhorar sua saúde mental.

“Não podemos sair e aproveitar nossas vidas como antes”, disse Enriquez. “Mas a arte nos ajuda a capturar o passado e reviver experiências positivas para superar a dor e a tristeza.”

Toda quinta-feira, ele espera pacientemente no computador pelo início da aula. Por 30 minutos, ele mexe com lápis de cor, canetas e papéis na mesa dentro do apartamento de sua filha em Richmond Hill, Queens. E com essas ferramentas, ele cria cenas de sua vida com base em orientações de seu instrutor: retratos de sua mãe e amigos; imagens de Goya que lembram demônios de pesadelos representando doenças que, quando reproduzidas no papel, parecem menos ameaçadoras.

Os participantes compartilham suas criações por meio do Zoom, usando desenhos e poesias (também parte das aulas) para discutir a vida antes e depois da pandemia. Como milhares de outros nova-iorquinos mais velhos, Enriquez aprendeu recentemente a usar a internet para se conectar com o mundo exterior. La Ventanita, uma das iniciativas do museu em resposta à pandemia de covid-19, oferece a ele a chance de socializar com outros falantes de espanhol por meio de aulas de arte guiadas sobre autoexpressão.

“Antes do programa, eu me sentia muito sozinho, agora eu posso aprender a produzir arte”, disse ele, acrescentando que o programa fez renascer sua aspiração infantil de se tornar poeta por meio das instruções semanais que pedem para ele criar poesia com base em sua juventude.

Embora os psicólogos reconheçam há muito tempo os benefícios da arteterapia, que décadas de pesquisas científicas sugerem que podem melhorar o humor e reduzir a dor, poucos museus americanos dedicaram recursos para a criação de programas com esse enfoque. Mas as demandas de um público em luto estão agora obrigando instituições culturais em todo o país a criar iniciativas conscientes do trauma que colocam suas coleções de arte e educadores na vanguarda de uma crise de saúde mental criada pela pandemia e pelos protestos mundiais contra a brutalidade policial e racismo após a morte de George Floyd.

E diante de projeções de receita em queda, os líderes do setor dizem que não ficariam surpresos se os museus se voltassem para a arteterapia como uma nova fonte de receita ou outras oportunidades de financiamento. “A arteterapia geralmente é financiada pelas seguradoras”, disse Dina Schapiro, presidente assistente do Departamento de Terapia de Artes Criativas do Instituto Pratt. “Você já tem frequentadores entrando em museus e pagando uma taxa. Seria especialmente bom para pessoas que são resistentes aos locais tradicionais de terapia como um consultório.”

Embora não planeje cobrar por esses programas, o Metropolitan Museum of Art está procurando começar a realizar iniciativas baseadas em arteterapia. “Estamos nos adaptando a uma nova realidade e estudando como podemos usar a história da arte para refletir sobre experiências compartilhadas de isolamento e trauma”, disse Rebecca McGinnis, coordenadora de educação para acessibilidade do museu.

O Metropolitan Museum of Art planeja reabrir como um espaço seguro para os nova-iorquinos da mesma maneira que fez após os ataques terroristas de 11 de setembro. Os curadores estão começando a pensar em como as exposições podem ser organizadas de modo sensível e evitando desencadear mais dor nos visitantes. Rebecca também preparou uma lista de obras de arte que podem ajudar os visitantes a acalmar suas ansiedades após a pandemia, incluindo cenas de tranquilidade doméstica como The Laundress (1863), de Honoré Daumier; representações de resiliência como Street Story Quilt (1985), de Faith Ringgold, e memoriais aos mortos.

No Museu de Arte Rubin, os funcionários começaram a fazer perguntas semelhantes à sua própria coleção de objetos tibetanos e nepaleses perfeitamente adequados para a arte da autocontemplação. Por enquanto, o museu planeja reiniciar seu podcast de meditação e direcionar alguns de seus programas de aprendizado para os afetados pela covid-19 com obras de arte pensativas, como uma estátua dourada da deusa hindu Durga no século 13.

Adotando outra abordagem, o Museu de Arte de Cincinnati, em Ohio, planeja treinar mais de 100 docentes voluntários em técnicas de arteterapia que os ajudarão a receber visitantes quando o museu reabrir.

O fato de os museus levarem a arteterapia mais a sério do que nunca se deve em grande parte a um programa no Museu de Belas Artes de Montreal que permite que os médicos prescrevam acesso gratuito a suas galerias. O museu também foi um dos primeiros na América do Norte a contratar um arteterapeuta em tempo integral em 2017.

Stephen Legari, que assumiu o cargo, normalmente atende cerca de 1,2 mil participantes a cada ano, mas as demandas por seus serviços aumentam à medida que Montreal – o epicentro do surto do novo coronavírus no Canadá – reabriu estabelecimentos. “Durante a quarentena, você está olhando as mesmas coisas em seu apartamento todos os dias”, explicou. “A repetição está diminuindo sua capacidade de concentração. Por outro lado, museus são lugares de encantamento, beleza e admiração.”

Katerine Caron ingressou no programa de arteterapia há cerca de três anos. Durante grande parte de sua vida, a escritora de 52 anos lidou com danos neurológicos e traumas graves depois de ser atropelada por um carro em alta velocidade enquanto passeava com seus filhos pela rua. Katerine aguarda ansiosamente as sessões de grupo de quarta-feira. Para ela, a terapia criou um espaço sem a pandemia para processar emoções difíceis. “Estou menos ansiosa e agitada”, disse. “Quando vejo obras de outros artistas, sei que não estou sozinha.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Análise: A arte muito visual de David Lynch busca a profundeza do inconsciente

Cineasta faz um cinema muito pessoal e voltado (de maneira geral) para um intimismo de ordem segunda

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 06h00

A eleição de melhor filme da década (anos 2010) da revista Cahiers du Cinéma, foi vencida por uma série de TV, Twin Peaks, o Retorno, de David Lynch. Ela já havia sido escolhida pela publicação francesa como “filme” do ano quando do seu lançamento em 2017. Isso só para registrar o inabalável prestígio de Lynch entre os cinéfilos. Quer dizer, entre gente que se afasta um tanto do cinema blockbuster e do gosto convencional, em busca de formas alternativas dessa arte. 

 

 

Para esse tipo de público, Lynch jamais é uma decepção. Faz um cinema muito pessoal e voltado (de maneira geral) para um intimismo de ordem segunda. Isto é, atento menos para a consciência que para os estratos mais profundos da mente. Viaja ao inconsciente que, segundo o pai da psicanálise, Freud, “pensa” mais por imagens que por palavras. Daí a psicanálise ser próxima a artistas mais visuais, como cedo descobriram os surrealistas. Para estes, o desafio era a mente libertar-se das amarras da racionalidade e também da moral burguesa. Lynch anda por esse caminho e não me parece errado chamá-lo de surrealista tardio. 

Há um documentário revelador sobre sua trajetória, David Lynch: a Vida de um Artista. Mostra como as artes plásticas se encontram na origem da estética de Lynch, que até hoje trabalha em seu estúdio, pintando e moldando. Isto é, “pensando” com as mãos. 

 

David Lynch: a Vida de um Artista

 

A prática com as artes visuais está na origem desse cineasta fascinado pela mente profunda, pelos mistérios do acaso e os limites da compreensão racional. Suas entrevistas são engraçadíssimas, com ele sempre se esquivando de “explicar” seus filmes. Que cada um os entenda como quiser – ou puder. 

Lynch saiu de sua pequena cidade de Missoula, em Montana, para uma bolsa de estudos no American filme Institute, que viabilizou seu primeiro e já surpreendente longa, Eraserhead (1977). Tudo o mais seria novidade. Do extraordinário O Homem Elefante (1980), à ficção científica Duna (1984) até o policial fantástico Veludo Azul (1986), que o transformou em diretor cult. Com a primeira série Twin Peaks (1990-1991) firmou sua imagem de outsider de grande sucesso. 

Com Coração Selvagem levou uma Palma de Ouro em Cannes, marca absoluta do “autor” em nível mundial. Não deixou de surpreender em filmes como Estrada Perdida (1997), Mullholand Drive: Cidade dos Sonhos (2001) e Império dos Sonhos (2006). 

Mesmo seu filme mais linear, Uma História Real (1999), provocou polêmica. A trama, em que um homem atravessa o país num veículo improvisado para se reconciliar com o irmão, despertou dúvidas. “Onde estaria a jogada de Lynch?”, os fãs se perguntavam. A resposta parece simples: às vezes a normalidade é mais estranha do que os sonhos. 

 

Eraserhead

 

O Homem Elefante

 

Duna

 

Veludo Azul

 

Twin Peaks

 

Coração Selvagem

 

A Estrada Perdida

 

Mullholand Drive: Cidade dos Sonhos

 

Império dos Sonhos

 

Uma História Real

 

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