Festa latina em Berlim

Com a vitória da peruana Claudia Llosa, festival celebra força do cinema sul-americano

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

16 de fevereiro de 2009 | 00h00

Foi uma bela festa latina, com direito a discurso em quíchua e até a um inesperado pedido de socorro - "Quero minha mãe!" Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Berlim celebrou a força do cinema sul-americano. No ano passado, o vencedor do Urso de Ouro foi o filme brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha. Neste ano, houve uma dupla - ou quádrupla, ou quíntupla - vitória das cinematografias de Latino América. Os dois filmes latinos da competição - o peruano La Teta Asustada, de Claudia Llosa, e o uruguaio Gigante, de Adrián Biniez - ganharam cinco prêmios. O drama uruguaio ganhou o prêmio de melhor filme de diretor estreante, o Alfred Bauer - que contempla uma obra inovadora, dividido com Tatarak, do veterano Andrzej Wajda - e também dividiu um terceiro prêmio, o Urso de Prata relativo ao Grande Prêmio do júri (e, desta vez, o outro agraciado foi o alemão Alle Anderen/Everyone Else, de Maren Ade).SOCORROClaudia somou ao seu Urso de Ouro de melhor filme o prêmio da Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. É raro que um mesmo filme consiga ganhar os prêmios do júri e da crítica. Como a diretora peruana estava se sentindo, perguntou-lhe o repórter do Estado? "Como você acha? Estou assim (e Claudia fez um gesto de quem escancara um sorriso)." Sua felicidade era compartilhada por Adrián Biniez. Ao subir pela terceira vez ao palco do Berlinale Palast, o palácio do festival, o jovem diretor já não sabia mais a quem agradecer. Atarantado, fez um gesto de quem pede socorro e clamou por sua mãe. A plateia quase veio abaixo. Claudia, emocionada, dedicou seu prêmio ao Peru - e a atriz Magaly Solier aumentou a dose de emoção, fazendo em quíchua, a língua falada por 70% da população peruana, predominantemente indígena, um discurso que ninguém entendeu, mas parecia singularmente verdadeiro.Podem-se discutir as escolhas do júri presidido pela atriz Tilda Swinton, mas não faltaram coerência nem conceito à premiação. Foi o que o repórter teve oportunidade de dizer à própria Tilda, num breve encontro no aeroporto. "Nosso grupo era heterogêneo, mas acreditava no diálogo. Não houve diferença que não pudéssemos resolver conversando. E as grandes decisões foram unânimes", ela disse. O júri fez uma clara opção pelos novos talentos e pelo cinema mais independente. Mais que um reconhecimento a um grande veterano, o prêmio para Wajda contemplou um autor capaz de tudo arriscar, até mesmo substituindo sua habitual opção pela História (e pela política) por um relato mais intimista, ainda por cima marcado pela ousadia estética, na maneira como constrói sua narrativa nas bordas da ficção e do documentário (e até como intervém diretamente no relato). Os prêmios de interpretação - merecidos - foram para o ator do Mali Sotigui Kouyaté, pelo filme London River, de Rachid Bouchareb, e para a alemã Birgit Minichmayr, de Alle Anderen. Todo ano o festival apresenta um drama sobre a ruptura de um casal. O deste ano, Alle Anderen, não foi muito melhor do que o do ano passado, ou do anterior, mas o elenco é fantástico, já havia assinalado o repórter do Estado. O júri premiou Birgit, como talvez pudesse ter premiado seu parceiro, Lars Eidinger. O prêmio para Kouyaté foi outra unanimidade e o longo agradecimento do ator, que contou histórias de sua África natal, completou a emoção dos vitoriosos latinos. O melhor diretor foi o iraniano Asghar Farhadi, de Darbareye Elly (About Elly), e ele ficou tanto mais feliz porque seu filme, recentemente, ganhou o prêmio do público no Festival de Teerã. O júri atribuiu um prêmio de roteiro - para The Messenger, de Oren Moverman - e outro à melhor contribuição artística - para o tratamento sonoro de Katalin Varga, que o inglês Peter Strickland realizou na Romênia.Apesar de superpremiado, o filme uruguaio recebeu algumas críticas negativas. O diretor Biniez investiga o voyeurismo sem a complexidade de Alfred Hitchcock em Janela Indiscreta ou Kryzstof Kieslowski em Não Amarás, mas o que muitos consideraram defeito - a extrema simplicidade, confundida com ingenuidade - é, no fundo, sua maior qualidade. O filme peruano trabalha de forma quase documentária temas, ou situações, que mais parecem pertencer ao domínio do realismo mágico - a heroína adquiriu pelo leite materno (a teta assustada do título) o medo do estupro e, para se preservar, introduz na vagina uma batata que encontra terreno propício para deitar raízes. Restrições à parte, a celebração da latinidade, pela Berlinale de 2009, faz história destacando duas cinematografias que produzem pouco, e nunca haviam sido premiadas pelo festival alemão. Claudia Llosa espera que seu Urso de Ouro seja um estímulo para o surgimento de mais diretoras na América Latina. Premiados MELHOR FILME: La Teta Asustada, de Claudia Llosa, Peru MELHOR DIREÇÃO: Asghar Farhadi, por Darbareye Elly (About Elly), Irã GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: Gigante, de Adrián Biniez, Uruguai, e Alle Anderen (Everyone Else), de Maren Ade, Alemanha MELHOR ATOR: Sotigui Kouyate, por London River, de Rachid Bouchareb, França/Argélia/Inglaterra MELHOR ATRIZ: Birgit Minichmayr, por Everyone Else, Alemanha PRÊMIO ALFRED BAUER: Gigante, de Adrián Biniez, Uruguai, e Tatarak, de Andrzej Wajda, Polônia MELHOR FILME DE DIRETOR ESTREANTE: Gigante, de Adrián Biniez, Uruguai PRÊMIO DA CRÍTICA: La Teta Asustada, dirigido por Claudia Llosa, Peru"FILMO PARA COLOCAR NOSSA DIVERSIDADE E CARA NAS TELAS"MULHERES: Em rápida conversa na sexta, no Berlinale Palast, com a diretora Claudia Llosa, premiada no dia seguinte por La Teta Asustada, o repórter do Estado perguntou se o prêmio para Tropa de Elite em 2008 e o fato de duas cinematografias sem tradição na Berlinale integrarem a competição deste ano era um signo positivo. "Há interesse grande e profundo respeito pela nossa diversidade. O reconhecimento é importante", disse Claudia. E no sábado, após a premiação, ela afirmava: "Espero que minha vitória estimule o surgimento de mais mulheres diretoras na América Latina." E mais:Seu filme trata do medo feminino do abuso e da violência. De onde veio a ideia da ?teta assustada??De um livro que me impressionou muito, sobre mulheres indígenas vítimas de violência pela guerrilha. Por que você filma?Para expressar nossa diversidade e colocar nossa cara (de latinos) nas telas.Algum parentesco com o cineasta Luis Llosa e com o escritor Mario Vargas Llosa?Sim, mas distante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.