Festa boa, com Harper e Matthews

Apesar do trânsito pesado, eles levaram 23 mil pessoas à Chácara do Jockey

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

30 de setembro de 2008 | 00h00

O Festival About Us, que nasceu sob o intuito de promover a sustentabilidade ambiental, não previu o excesso de veículos que tentavam alcançar a Chácara do Jockey por volta das 16 horas de domingo, meia hora antes do 4º show do evento ter início, o de Vanessa da Mata. De nada adiantou incentivar o público a sair de casa com sua bicicleta (um "comboio" até foi marcado para sair da USP às 12 horas e enfrentar 7,9 km). O que se viu foi um caótico trânsito, daqueles bem conhecidos pelos paulistanos às 18 horas de uma sexta-feira qualquer, logo no início da Avenida Francisco Morato. E para se chegar até a altura do número 5.100 dessa via nem uma soneca com direito a um sonho colorido faria o caminho ficar mais curto.Vencida essa parte, um novo desafio era imposto ao público que pagou, no mínimo, R$ 70 para a pista com a meia-entrada (e desembolsou até R$ 500 para a área vip): o de estacionar o carro. Não há infra-estrutura no local para abrigar tamanho número de veículos - e olha que eles ainda chegavam lotados de turminhas. Quem conseguiu estacionar no local "oficial" e levou pelo menos três amigos de carona ainda ganhou a vantagem de pagar apenas 30% do valor do estacionamento (R$ 30). Ontem, no site do festival, uma dezena de pessoas ensaiava um coro de "quero o meu dinheiro de volta" por meio de mensagens ali postadas, justamente por esse estresse sofrido.A redenção foi finalmente alcançada ao chegar à imensa arena verde da Chácara, onde o palco principal estava montado. Um clima paz e amor pairava sobre a galera, que levou cangas para se estender no gramado e curtir um dia meio instável, mas sem chuva. Espaços dedicados a amostragens de reciclagem foram um tanto ignorados.Por volta das 17 horas, quando Vanessa da Mata cantarolava História de Uma Gata, de Chico Buarque, primeiro ponto alto de seu show, os adolescentes que ainda estavam por lá atrás de algum rastro do NXZero, que se apresentou às 14 horas, começavam a deixar o evento. A caráter, vestindo uma longa saia florida, Vanessa entoou suas canções que grudam como chiclete e se não nos empurram para um lado e para o outro, involuntariamente, obrigam-nos pelo menos a bater o pezinho, como é o caso de Ai, Ai, Ai. "Porque nesta vida as pessoas se dividem em dois tipos: as que gostam de tomar chuva e as que não gostam. Eu sou do tipo que gosta", fez uma breve e elucidativa introdução à canção.Mas se enganou quem correu para ver o show de Vanessa da Mata achando que seria nele que Ben Harper, finalmente, se encontraria ao vivo com ela para juntos embalarem Boa Sorte. O músico californiano reservou para a última parte de sua apresentação esse encontro. "Quero chamar ao palco agora uma das melhores cantoras do mundo, minha amiga Vanessa da ?Mara?", carregando no sotaque americano. "Vamos fazer um espetáculo maravilhoso pra esse cara, gente!", disse ela, animada. O duo mostrou um bom entrosamento diante da platéia já estimada em 23 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar. Ben fez um show honesto, mas sem grandes emoções. Cantou vários de seus hits, entre eles Fight Outta You, do disco Lifeline de 2007, With My Own Two Hands e Diamonds on the Inside, do álbum homônimo de 2003, e Whipping Boy, do disco Welcome to the Cruel World, de 2000.Dave Matthews entrou na seqüência com o triplo da energia dedicada por Harper, botando para quebrar com Two Step. Fez questão de alongar todas as suas canções com solos de seus excelentes músicos - destaque para o baterista Carter Beauford que era todo sorrisos quando não estava fazendo bolas com seu chiclete. A cada intervalo, Dave fazia questão de dizer que estava muito feliz por tocar em São Paulo. No Twitter do vocalista sul-africano, ele teceu elogios a Seu Jorge e sua banda e, quando voltou ao seu hotel, tarde da noite, ainda teve fôlego para deixar um registro sobre sua passagem na capital: "Eu me diverti muito esta noite. Sou sortudo. Queria dançar a noite inteira. Mas tenho de ir para a cama. Que cidade."Dave também preparou uma jam mais para o fim de seu show, um pouco menos previsível do que a de Harper com Vanessa. Primeiro convidou o percussionista do americano, Leon Mobley, para tocar com sua banda Drive In, Drive Out. Depois, chamou ao palco Harper para juntos tirarem All Along the Watchtower, clássica de Bob Dylan popularizada por Jimi Hendrix - Harper com uma slide guitar, Dave com seu violão. O auge de todo o festival seria notado se o público resolvesse falar menos e escutar mais. No backstage, Dave disse sentir a presença constante de seu amigo LeRoi Moore, morto em junho num acidente de carro, e garantiu não ser hipócrita quando o assunto é sustentabilidade ambiental. "Repare o tanto de energia que eu gasto nos meus shows. Quem sou eu para dizer a alguém que economize?"

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