Ferréz leva a periferia de São Paulo a Berlim

Escritor revela surpresa por andar em uma cidade onde a criminalidade não está na ordem do dia

Marcio Damasceno, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2018 | 00h00

Apesar de já ter estado antes na Europa, o escritor e compositor de hip hop paulistano Ferréz está chocado ao ver, em Berlim, o que é andar numa cidade grande onde a criminalidade não está na ordem do dia. ''''Isso aqui é outra realidade, você vê as motos de noite, uma hora da manhã, todas soltas na rua, e ninguém rouba'''', comentou Ferréz, em entrevista ao Estado. ''''E isso choca muito, é muito diferente. Você entra na loja, come e paga, porque tem ética, ninguém te segue, ninguém fica te olhando, ninguém fica em cima de você para nada.''''Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz, autor dos romances Capão Pecado e Manual Prático do Ódio, foi o único representante brasileiro no Festival Internacional de Literatura de Berlim, encerrado domingo. Um momento numa sessão de leitura de que ele participou mostra bem o quando sua vivência na cidade tem mexido com esse cronista do cotidiano da periferia urbana. Após a ler passagens de seu livro Ninguém é Inocente em São Paulo, Ferréz teve de enxugar os olhos ao responder à pergunta da apresentadora do evento sobre o que ele gostaria de mudar no Brasil. ''''Só queria que a situação do povo melhorasse'''', murmurou com voz embargada, antes de levantar seus óculos de lentes amareladas para passar os dedos na vista úmida.Ele, que costuma dizer não conseguir desvincular realidade de literatura, experimenta na capital alemã um contraste grande para quem passou a vida no subúrbio de Capão Redondo. ''''Quando você fica num hotel da hora, come uma comida boa e vê os lugares todos organizados, a polícia te cumprimentando, aí você vê que é outro mundo e começa a pensar que tudo podia ser assim'''', disse Ferréz. ''''A gente queria que a nossa vida fosse assim também. Mas não é. E comparar as duas realidades é muito duro. Tanta coisa errada que a gente vive começa a passar pela cabeça que, na hora de uma pergunta dessas, você fica emocionado'''', explicou. ''''Eu só queria ver o povo melhor mesmo. Sei que é meio clichê, todo mundo fala isso, mas é de coração mesmo.''''Em seu blog na internet, num último comentário antes de ''''cruzar o Atlântico'''', Ferréz mostrava preocupação em enfrentar as platéias européias. ''''Programado pra falar, pra dar respostas, mas na verdade com muitas perguntas na cabeça, mas uma coisa pode apostar, vou lembrar de todos que nunca vão ter essa chance de falar, e vou fazer o meu melhor'''', escreveu.Mais do que a literatura de um país, ele veio representar aqueles que raramente têm voz, os moradores dos bairros pobres das grandes cidades. O convite para participar de um evento internacional seria, na opinião do escritor, sinal de uma inversão de valores no mundo da literatura, conforme disse pouco antes de começar a leitura de seus textos. ''''Parece mais um milagre que qualquer outra coisa. Ou está todo mundo louco, ou a máscara está caindo e as pessoas começaram a se dar conta de que a periferia também tem voz'''', teorizou Ferréz.Filho de um motorista e de uma empregada doméstica que pintava poesias em pano de prato e de quem, segundo afirma, herdou o gosto pelas letras, Ferréz trabalhou em padaria, vendeu camisa, vassoura, mas nunca se afastou dos livros. Seu amor pela leitura o ajudou a abrir horizontes e seria hoje um exemplo para muitas crianças da favela. ''''As mães dizem para seus filhos lerem, para, quando crescerem, poderem ser que nem eu.'''' Mas nem sempre é assim. Muitas vezes seu apego aos textos ainda é encarado com desconfiança pelos vizinhos. ''''Nunca parei de ler'''', disse ao público berlinense. ''''Mas lá na periferia, muita gente acha que quem anda com livro debaixo do braço ou é professor ou evangélico ou gay.''''

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