Ferozes e dignos, índios para francês ver

Obra de Ferdinand Denis relembra festa realizada em Rouen com nativos brasileiros como ''''atração''''

Lilia Moritz Schwarcz, O Estadao de S.Paulo

02 Fevereiro 2008 | 00h00

O Brasil estava definitivamente em voga na França do século 16. É certo que, até os anos 1815, a entrada de franceses esteve impedida ou, pelo menos, muito limitada. Mas tal proibição não evitou que chegassem marinheiros, religiosos, comandantes ou meros curiosos, que legaram relatos e cartas que correram a pátria deles de ponta a ponta. E tais descrições acabaram por compor um conjunto articulado, em que um relato dialogava com outro, sem existir autoria certa. Acreditava-se que em meio às regiões perdidas da América portuguesa poderia se localizar o Paraíso Terrestre, com sua primavera eterna, seus campos férteis e suas fontes da juventude. No entanto, divulgava-se, também, a idéia de que essa poderia ser uma terra inóspita, habitada por homens estranhos e monstros disformes. E se monstros continuaram existindo, ao menos nos desenhos e nos mapas da época, acabaram associados às práticas de canibalismo e antropofagia, as quais motivaram acaloradas discussões filosófico-religiosas acerca da verdadeira índole dos gentios. Essa literatura proliferaria nos séculos 16 e 17 com os primeiros viajantes que adentravam, efetivamente, nesse Novo Mundo. A descoberta da América passava a ser considerada o feito mais grandioso da história moderna ocidental, ao mesmo tempo em que o imaginário migrava - entre encantado e assustado - do Oriente misterioso para o Ocidente tropical. Por isso, as narrativas de viagem aliaram realidade com muita invenção e variaram quando se tratava de avaliar os homens, ou sua natureza. A literatura de viagem deixada pelos franceses acerca do Brasil, mais particularmente sobre as experiências na França Antártica e na França Equinocial, geraria ainda mais polêmica. A partir dos relatos de Jean de Léry, André Thévet, Yves d''''Évreux e Claude d''''Abbeville, os primeiros franceses a descrever a terra e os homens desse continente, um mundo recente era apresentado e definido a partir da idéia da ''''diferença'''' e da curiosidade que surgia de parte a parte. O importante é que, por meio de tais narrativas, a descoberta da colônia passava a se inscrever dentro de uma história propriamente francesa. Seria, por exemplo, entre os franceses que se desvinculariam noções como canibalismo e antropofagia. A distinção semântica é crucial, e da discussão do século 16 é que surgirá a exaltação do índio brasileiro, mais evidente no século 18. A diferença é que o termo ''''canibal'''' se referia àqueles que se alimentavam de carne humana, enquanto que os ''''antropófagos'''', representados pelos índios tupis, eram definidos como os que comiam por vingança. A vingança é que levava à antropofagia e não o contrário, e seria essa uma das grandes novidades da literatura francesa seiscentista. A França tentou por duas vezes realizar uma implantação colonial no Brasil. O primeiro projeto, a França Antártica, foi empreendido por Nicolas Durand de Villegaignon, que desembarcou no Rio de Janeiro em 1555. Tal governo não foi, porém, tranqüilo, e após uma série de rebeliões o próprio comandante Villegaignon é obrigado a pedir reforços, encomendando um contingente de partidários da fé reformada. Em 1557 desembarcam 14 huguenotes na ilha, sem que os conflitos fossem, porém, contornados. Dentre os religiosos estavam André Thevet, que no futuro próximo se transformaria em cosmógrafo do rei, e Jean de Lery, que legaria o relato mais referenciado sobre os ''''selvagens brasileiros''''. A partir dessas e de outras publicações, a colônia portuguesa começaria a ser conhecida como o paraíso terreal - com seu ar temperado tendendo mais ao calor, o sol que se aproximava de Zenith e a terra sempre dadivosa. Não obstante, ''''suas gentes'''' eram em tudo opostas às benesses da natureza: praticavam a guerra e possuíam costumes ''''aberrantes'''', como a nudez, a poligamia e a antropofagia. Na França humanista vingaria, pois, a discussão sobre as semelhanças e as dessemelhanças entre os seres humanos. Que os índios eram humanos, não se discutia mais, desde a bula de Paulo III decretada em 1534. No entanto, a medida servia menos para dissipar as dúvidas a respeito do assunto e muito mais para garantir a jurisdição da Igreja sob vasta parcela do Globo. Mas o caso é que ''''se descobria uma nova humanidade'''', e a representação dos indígenas brasileiros permaneceria em alta no imaginário francês. Fato que corrobora tal afirmação é o evento narrado em 1850 pelo estudioso Ferdinand Denis; um viajante que provinha de família ilustrada francesa, e que esteve no Brasil pela primeira vez em 1816, convertendo-se num estudioso do local. Denis reproduz e comenta um documento de 1550/1,que narra os rituais realizados em homenagem e diante do rei Henrique II e de sua esposa, a rainha Catarina de Médicis. Eis aí um dos grandes documentos oitocentistas, muito raro de ser encontrado, e que agora ganha edição bilíngüe, com direito à reprodução de uma ilustração que originalmente acompanhava a obra - Figure des Bresilienes -; considerada a primeira representação de índios brasileiros feita in loco. Denis é dono de uma extensa bibliografia sobre o Brasil. Contudo, a mais saborosa é sem dúvida essa pequena obra, publicada numa nova edição brasileira; versão erudita e que inclui notas e traduções explicativas. Uma Festa Brasileira Celebrada em Rouen em 1550 (Usina de Idéias, 236 págs., R$ 55, com prefácio, tradução do tupi e notas de Eduardo de Almeida Navarro) conta a história de uma curiosa comemoração em que os índios brasileiros figuraram como personagens principais. Para receber condignamente o casal reinante, a cidade de Rouen resolveu elaborar uma grande cerimônia. Não só recorreram a repertórios da antiguidade - construindo obeliscos, templos e arcos do triunfo -, como incluíram uma festa típica do Novo Mundo. Na procissão real destacavam-se os ''''bravos tupinambás''''; bravos nos dois sentidos: ferozes e dignos. Acredite-se ou não, índios tupinambás vieram à França simular um combate perto do Sena e à frente da nobreza local. Além do mais, misturaram jogos guerreiros com danças solenes e simularam aspectos de sua vida cotidiana caçando, fumando tabaco, assando carnes em grelhas e deitando-se em redes; tudo isso diante da estupefata corte de Henrique II. Esses ''''guerreiros indomáveis'''' eram, porém, e conforme ironizava Denis, muito ''''mais avançados socialmente do que supunham seus anfitriões''''. Sem saber, os franceses é que entravam no jogo daqueles que julgavam dominar e chamavam de ''''bárbaros''''. Afinal, para dar maior densidade à festa, os 50 indígenas brasileiros foram misturados a mais de 250 figurantes vestidos à ''''moda tupinambá'''': eram marinheiros normandos e bretões, além de prostitutas selecionadas nas vizinhanças. Os figurantes ganharam o centro da praça: seus corpos brilhavam com tanta pintura de urucu e nos braços traziam macacos, papagaios e bananas tropicais. As damas da corte também compareceram à festa, não vendo ''''qualquer mal na nudez ingênua dos brasileiros''''. Essa não seria, inclusive, a única vez que ''''os brasileiros'''' seriam convidados a participar de festas solenes. Ainda na França, na entrada e Carlos IX em 23 de março de 1564, os selvagens brasileiros estiveram presentes, assim como em Bourdezu, a 9 de abril de 1565, quando 300 homens se apresentaram representando 12 diferentes nações estrangeiras cativas: gregos, turcos, árabes, egípcios, etíopes e, também, selvagens brasileiros. Ferdinand Denis afirma que Montaigne se apoiou nos diálogos que estabeleceu com alguns índios que se radicaram no continente europeu após a festa de Rouen para desenvolver suas idéias sobre os canibais americanos. Por sinal, esses seriam transformados em modelos de justiça, em tudo opostos aos parâmetros europeus. Em seu famoso ensaio chamado Os Canibais, e datado de 1580, o filósofo, que escrevia tendo como sombra as guerras de religião que assolavam a Europa do século 16, encontrou mais lógica na maneira como os tupinambás realizavam a guerra do que nos hábitos ocidentais. Montaige usaria na sua reflexão, pois, de elementos coletados na festa de Rouen; esse teatro imaginário, que assim como os demais relatos seiscentistas misturava em doses semelhantes ficção com realidade. Os ''''selvagens brasileiros'''' chamaram atenção dos franceses pela semelhança, mas sobremaneira pela diferença que representavam, e a festa de Rouen prova o fascínio dessas imagens do Novo Mundo. Era a vida guerreira dos indígenas que virava um simulacro da verdade e vice-versa. A alteridade humana sacudia a imaginação de lado a lado, e enquanto os europeus indagavam pela alma dos indígenas e os levavam à Europa para espetáculos e deleito da ''''civilização'''', já os indígenas afundavam os brancos em lagos com o objetivo de saber se tinham corpo ou não. Como bem revelam os ensaios de Montaigne, menos do que o ''''outro'''', era a própria Europa que acabava colocada em perspectiva: ''''Mas, voltando ao assunto, não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não pratica em sua terra...'''' O encontro da América pelos franceses representou, pois, um período de contemplação mútua, uma moeda de duas e muitas faces, com cada um dos povos achando engraçado ou incompreensível o que se praticava pelos outros. Por sinal, a relação da colônia com a França seria constante. Se em 1555 ocorreu a experiência da França Antártica, logo em 1610 os franceses invadiriam novamente o Brasil. Dessa vez entraram em São Luís no Maranhão e realizaram, por breve tempo, o projeto da França Equinocial. O importante é que se ambos os projetos fracassaram, já o índio brasileiro faria parte do novo arcabouço simbólico, reconhecido no ''''bom selvagem'''' de Rousseau. Quem diria que seriam os tupinambás que acabariam, por caminhos tortos, a alimentar o imaginário da própria Revolução Francesa. Aí estão os rastros inesperados da famosa Festa de Rouen, tão bem descrita por Ferdinand Denis, e recuperada já na época por filósofos da envergadura de Montaigne. O novo era, porém, novo demais para apontar um derradeiro ponto final. Não por acaso Montaigne, depois de ter feito muitos arrazoados sobre os costumes dos indígenas brasileiros, acaba por desabafar: ''''Tudo isso é, em verdade, interessante, mas, que diabo, essa gente não usa calça!'''' Até hoje, a literatura especializada discute o famoso desfecho do texto do filósofo, apostando ora na ironia ora na perplexidade, e não seremos nós a desempatar tal contenda. Em vez disso, vale a pena correr para dar uma olhada nesse pequeno porém revelador relato de Denis. No lugar de mulatas e blocos de carnaval foram os indígenas brasileiros que desfilaram na avenida, e fizeram sucesso. O canibalismo desde então virava teatro a representar a nossa identidade nacional: os brasileiros seriam todos tupis, com papagaios e bananas nas mãos. Lilia Moritz Schwarcz é prof. do Departamento de Antropologia e autora, entre outros, de As Barbas do Imperador e A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis

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