Feminino/Masculino: fim anunciado

Os dois projetos, que marcaram a dança no Centro Cultural São Paulo, fazem sua lamentável despedida neste fim de semana

, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

Acabou. Depois de 16 anos contínuos de inestimáveis serviços prestados à dança contemporânea, nos quais firmou-se como a sua principal estratégia de sobrevivência em São Paulo, os projetos Feminino e o Masculino na Dança vão desaparecer. Esse é um dos saldos da passagem de Lara Pinheiro pelo Núcleo de Curadoria de Dança do Centro Cultural São Paulo. Ela reconhece, em texto assinado, que "foram mostras emblemáticas no cenário da dança de São Paulo, que revelaram e incentivaram criadores de danças de diversas vertentes, propiciando espaço permanente de reflexão". O mesmo texto informa, com pertinência, sobre "a necessidade de uma atualização no discurso conceitual dos projetos da área da dança em uníssono com as reformulações gerais iniciadas com a nova gestão do CCSP desde 2005". Mas, infelizmente, não anuncia como esse outro "discurso conceitual" será traduzido em programação de dança. Assim, paira a ameaça de que o encerramento dessa tradição, implantada pela gestão de Marcos Bragato no Centro Cultural, possa se converter em perda grave para a área. À feição de um réquiem, o último Feminino/Masculino na Dança acontecerá amanhã (domingo). Foram dois programas diferentes, cada um durando duas semanas, misturando três obras da década de 90 (Buscando Lilith, de Holly Cavrell, 1996; Pressa, de Cristian Duarte, 1998; e Película da Retina, de João Andreazzi, 1993) com três obras dos anos 2000 (Irregularidades Coerentes/Outro Lugar, de Ângela Nolf, 2008; Parabéns, de Alexandre Tripiciano, 2006; e Querida Senhora M., de Juliana Moraes, 2002).A discussão sobre remontagem/revisão/recriação/revisitação de obras vem animando o cenário da dança nos últimos anos. Os seis trabalhos que foram mostrados se tornaram uma espécie de manifestação didática dos diversos modos de tratar essa questão. Comecemos pelas três obras dos anos 90. Holly Cavrell (em seu Buscando Lilith) fez mais do mesmo, mantendo o entendimento de personagem criado há 13 anos para três outros corpos. Já João Andreazzi aproveitou a ocasião para mostrar novamente Película da Retina e a transformou em mais uma etapa da construção daquilo que ele vem solidamente desenvolvendo com seu grupo, a Cia. Corpos Nômades. Eles se dedicam à ?coreodramaturgrafia?: uma escrita única para abrigar movimento, palavra, objetos e imagem. Com delicada maestria, transfigurou os elementos que constituíam o solo original em uma obra para três intérpretes, ressignificando o que já lá existia, mas naquele estado de latência que caberia ao tempo depois revelar. As asas, que eram explícitas, se tornam cicatrizes - a melhor metáfora para sintetizar essa bem sucedida operação que foi empreendida.Cristian Duarte foi em outra direção. Convidou Leandro Berton não para tomar seu lugar no solo Pressa, mas para, juntos, descobrirem se existia mesmo algum lugar a ser retomado. O novo nome, Revisor em Série, que só se revela ao final e para aqueles que aceitam o convite para descobri-lo, é uma das eficientes escolhas da dupla, que tem instigantes sintonias de movimentação que poderiam continuar a ser exploradas. Quando nos mostra o que hoje corresponde ao que naquela ocasião (1998) lhe atraía, Cristian Duarte nos propõe pensar sobre o que significa se aproximar de um original. A eficiência do resultado deve ser dividida com a qualidade da dança de Leandro Berton, que parece completamente sintonizada com o inteligente interesse em rever idéias e não cenas montadas.As obras dos anos 2000, pela proximidade temporal, enfrentam demandas diferentes. É com sua movimentação de agora que Juliana Moraes resolve a versão 2009 de Querida Senhora M. (2002). Não à toa, trocou o figurino, como que nos informando de que tudo está lá, no seu corpo. Alexandre Tripiciano segue uma direção semelhante, pois é também no seu corpo que tudo acontece - e muito bem, aliás. Mas ele também aproveitou a ocasião para definir melhor o que lhe instiga a compor. Um outro caminho foi o de Ângela Nolfi que, sabiamente, preferiu continuar a trabalhar as texturas da sua composição, uma vez que as intérpretes são as mesmas, e a obra é muito recente, pois estreou no ano passado. A excelente proposta de discutir revisão/recriação/remontagem que estruturou este último Feminino/Masculino precisa ser urgentemente adotada pelo Centro Cultural em relação a estes dois programas "originais", para que seja possível encenar a sua continuidade, um espaço que a dança não pode perder em São Paulo.

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