Willie J. Allen Jr./Orlando Sentinel via AP
Willie J. Allen Jr./Orlando Sentinel via AP

FBI apreende obras de mostra de Basquiat em museu após autenticidade ser contestada

Museu de Arte de Orlando e proprietários alegam que as 25 pinturas são genuínas; departamento de investigação detectou indícios de que material foi produzido anos após a morte do artista norte-americano

Brett Sokol e Matt Stevens, The New York Times

25 de junho de 2022 | 16h01

O Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos [FBI] fez uma batida no Museu de Arte de Orlando, na Flórida, na sexta-feira, 24, apreendendo 25 obras que faziam parte de uma mostra sobre a vida e o trabalho de Jean-Michel Basquiat, informou o museu. 

Uma declaração juramentada foi preenchida para assegurar o mandado de busca colocou em questão a origem da história da coleção, que vem sendo descrita por seus donos e pelo museu, e notou que há razão para duvidar da autenticidade das obras.

O The New York Times já havia noticiado que a equipe de crimes de arte do FBI vinha investigando a autenticidade de 25 pinturas que o museu dizia terem sido criadas por Basquiat, e ficaram em exposição por três meses. 

Um porta-voz do museu disse na sexta, 24, que atendeu ao pedido do FBI para acessar a exposição Heroes & Monsters e que a exposição agora está em posse do FBI.

"É importante destacar que ainda não fomos levados a acreditar que o museu foi ou seja alvo de qualquer investigação", disse a assessora, Emilia Bourmas-Fry, em um posicionamento por e-mail. "Continuamos vendo nosso envolvimento puramente como uma testemunha do fato".

A exposição de Basquiat estava programada para fechar na quinta-feira, 23, e as obras estavam programadas para serem exibidas na Itália em seguida. Funcionários do museu disseram que vão continuar a cooperar com as autoridades.

Um porta-voz do FBI confirmou que um mandado de busca federal foi executado na sexta-feira, 24, no museu, e disse que a investigação pela equipe de crimes de arte está em andamento.

O mandado de busca não confidencial, ao qual o Times teve acesso, foi assinado por um juiz na quinta-feira, 23. O documento de 41 páginas foi emitido com base em dois possíveis crimes que podem ter ocorrido: conspiração e fraude. Nos documentos, o FBI diz que está investigando a exibição e tentativa de venda de 25 pinturas, e diz que a investigação revelou, entre outras coisas, "falsas informações relacionadas aos alegados proprietários anteriores das obras".

Autoridades também dizem que sua investigação tem revelado "tentativas de se vender as pinturas usando falsa proveniência, e registros bancários mostram possível solicitação de investimento em obras de arte que não é autêntico".

As pinturas na mostra Heroes & Monsters: Jean-Michel Basquiat foram, segundo seus proprietários e o museu, recuperadas de uma unidade de armazenamento de Los Angeles em 2012. A maioria dos trabalhos era inédito e jamais tinham sido vistos antes da abertura da exposição, em fevereiro de 2022. 

Uma reportagem do New York Times no último mês levantou questões sobre sua autenticidade. Foi constatado que uma das obras de arte foi pintada na parte de trás de uma caixa de papelão trazendo a instrução "alinhe a parte de cima da etiqueta de envios da FedEx aqui", com uma tipografia que um designer que trabalhou para a FedEx alegou não ter sido utilizada até 1994 - seis anos após a morte de Basquiat. 

A declaração juramentada para o mandado de busca, que foi assinada por Elizabeth Rivas, agente especial do FBI, nota que "informação forense indica que o papelão em que uma das pinturas foi feitas contém uma tipografia criada em 1994, após Basquiat ter morrido, colocando em questão a autenticidade de ao menos uma peça".

Os donos das pinturas, e o diretor e CEO do museu de Orlando, Aaron De Groft, têm mantido a versão de que as obras são genuínas. Nenhum retornou imediatamente ao pedido por comentário sobre a apreensão das pinturas.

De Groft e os proprietários disseram que as obras, feitas em peças de papelão recuperado, foram feitas por Basquiat no fim de 1982, quando ele estava vivendo e trabalhando em um estúdio sob a casa do negociante de arte Larry Gagosian e se preparando para uma mostra na galeria Gagosian. Eles dizem que Basquiat vendeu suas obras por US$ 5 mil para Tahd Mumford, um já falecido roteirista de TV, que colocou-as em uma unidade de armazenamento e aparentemente esqueceu-se delas por 30 anos - até que o conteúdo das unidades foram apreendidos por não-pagamento de aluguel e leiloados em 2012 (Gagosian disse que ele "acha a circunstância da história altamente improvável").

Na justificativa para o mandado de busca, Rivas declarou que ela entrevistou Mumford em 2014 e descobriu que "Mumford nunca comprou artes de Basquiat e não estava ciente de quaisquer obras de Basquiat em seu cofre".

Mumford também contou a Rivas que um dos dos proprietários das obras lhe teria "pressionado a assinar documentos", dizendo que ele tinha possuído a coleção, o que ajudaria a estabelecer a autenticidade das pinturas, até mesmo oferecendo-o, em um e-mail, a lhe destinar o valor de "10% de participação na receita líquida".

O documento diz que, em 2017, um ano antes de sua morte, Mumford assinou uma declaração na presença de agentes federais afirmando que "em nenhum momento dos anos 1980 ou qualquer outra época me encontrei com Jean-Michel Basquiat, e em momento algum adquiri ou comprei quaisquer de suas pinturas".

As pinturas foram compradas por cerca de US$ 15 mil por William Force, um vendedor de artes e antiguidades, e Leo Mangan, um vendedor aposentado. Pierce O'Donnell, um advogado, posteriormente teve interesse em seis das 25 obras e contratou diversos especialistas que disseram que as obras aparentavam ser genuínas.

Um desses especialistas contratados, que foi identificado no documento apenas como "Expert-2", disse ao FBI que o trabalho dela foi descaracterizado pelos proprietários das obras. Jordana Moore Saggese, uma professora associada de arte na Universidade de Maryland confirmou em e-mail que ela era a "Expert-2". Após ter recebido US$ 60 mil por eu trabalho, diz a declaração juramentada, Saggese posteriormente contatou o museu para pedir que seu nome não fosse associado de forma alguma à mostra. O documento diz que o diretor do museu, De Groft, respondeu-a por e-mail: "Você quer que nós divulguemos que você recebeu US$ 60 mil para escrever isso? Ok, então. Cale a boca. Você pegou o dinheiro. Pare de se fazer de santa". De Groft, ainda insistindo que as pinturas são genuínas, então ameaçou compartilhar os detalhes daquele pagamento com seu empregador: "Faça suas coisas acadêmicas e fique na sua área delimitada".

 

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