Fazer nas coxas?

Sobre aparadores foram dispostas as sobremesas mineiras e Angela Gutierrez explicou cada uma, feitas com frutas vindas da fazenda, como o marmelo dulcíssimo, a banana, a laranja da terra, o figo, ou o queijo, musse delicada, igualmente preparado na fazenda. Ela apontou para um prato e segui maravilhado com o olhar guloso e concêntrico: goiabada quente com sorvete de queijo. Inesperado e inusitado, não há por que resistir. Não há como! Mesmo que os médicos digam que a taxa de glicemia está subindo perigosamente. Nunca se sabe quando voltarei a essa casa do bairro Cidade Jardim, espaçosa, mineiríssima nas pedras, nos coqueiros, no jeito de ser, povoada por centenas de santos barrocos, apenas parte da coleção particular de Angela, um ser à parte neste mundo.Próxima à cabeceira da mesa há uma Santa Ceia, de Mestre Ataide. Come-se aos pés de um Guignard, um Portinari. Pequenos prazeres que a literatura me dá com frequência, porque estou aberto a esses convites, a essas viagens. Sigo pelo Brasil, em uma busca que não sei qual é, ou talvez seja querer um sentido para a literatura e a vida, cada noite, diante de um público diferente. Duas semanas atrás, convidado por um escritor mineiro, de fina lavra, José Eduardo Gonçalves, me vi às 6 da tarde a caminho do Museu de Artes e Ofícios, enquanto uma tempestade torrencial despencava e eu pensava que não teria ninguém na plateia.São riscos que corremos e, enquanto esperava, percorri o Museu que Angela Gutierrez, obstinada, montou, peça por peça, ao longo de décadas. Um gene herdado de seu pai, Flávio, que aliás dá nome ao Instituto Cultural, que ela desenvolveu misticamente e com paixão prossegue. Aqui se faz uma viagem através de 2.300 peças e não vejam nenhum trocadilho pelo fato de o museu estar na estação ferroviária, por onde passa o metrô de superfície e os trens da Rede Vitória Minas. Sendo que algumas composições (termo de ferroviário) levam passageiros e carga, outras, apenas cargas. O museu se espalha por andares e andares, salas extensas como eram as antigas salas das estações, restauradas belamente. Devem ver como foram descobertos afrescos nos tetos, escondidos debaixo de camadas de tinta grosseira, colocadas pela ignorância do poder público.Caminhei entre velhas ferramentas (algumas familiares na bancada de meu avô paterno, José) de carpinteiros, ferreiros, funileiros, ourives, tecelões. Os ofícios se sucedem: transporte, ambulantes, comércio, energias, mineração, fogo, madeira, cerâmica, lapidação, couro, fio e tecido, alimentos. Como era difícil a vida antiga, mas o homem criava, inventava, se desenvolvia, toda a base da tecnologia está ali. Não conheço outro museu semelhante no Brasil ou no mundo. Quando pensei que haviam se passado 20 minutos, tinham se escoado duas horas.E as pequenas sutilezas? Diante de telhas antiquíssimas, Fátima Dias, que me acompanhava, acentuou com um sorriso: "Aqui você tem a origem da expressão fazer nas coxas!" Como? Fazer nas coxas? "Olhe aí. As telhas primitivas eram moldadas nas coxas do escravos. Colocava-se o barro sobre a coxa e eram dados os arremates. Claro, as alturas dos homens eram variáveis e as coxas tinham grossuras diversas, então cada telha acabava saindo com um tamanho. Quando colocadas no telhado, resultavam interstícios pelos quais a água penetrava. Daí a expressão fazer nas coxas para algo malfeita." A língua se faz e refaz no cotidiano.Se você tem tempo e paciência, reserve o dia para percorrer com vagar estas salas. Deparei com um fogão a lenha imenso, montado com pedras grossas sobre um estrado de madeira pesado, sólido. Angela era pequena quando seu pai - que fuçava por toda parte e a ensinava a olhar para os quintais, a fim de recuperar utensílios, objetos - levou-a a uma fazenda antiquíssima. Lá estava o fogão, abandonado. A menina, com tinta e pincel, marcou pedra a pedra com um número. O fogão foi transportado para a fazenda dos Gutierrez, onde permaneceu esquecido. Um dia, o pai já falecido, Angela lembrou-se do fogão e foi buscá-lo. Remontá-lo deu um trabalho insano, os números tinham desaparecido. Dá a sensação de um fogão industrial para hotel ou uma grande cozinha, com suas pedras enormes. Você pode deitar-se diante do fogo e aquecer-se no inverno, cabe quase um colchão.A chuva passou, o saguão da estação encheu de gente, é um programa que se chama O Ofício da Palavra, organizado e moderado pelo José Eduardo, escritores ali vão conversar sobre seu trabalho uma vez por mês. Abri o programa deste ano. Enquanto falava, um trem parou na plataforma e fiquei ouvindo o resfolegar da locomotiva, outro som de infância. Hoje, pode-se até pensar em efeito especial. Não é. De repente, descendo de onde estão há anos, vi sentados na plateia meu pai e meus tios, todos ferroviários. Sorriam. Pareciam felizes.A emoção continuou com a professora Marilia Ávila Carvalho, que me contou ter percorrido Berlim com meu livro O Verde Violentou o Muro. Aos amigos alemães, não berlinenses, ela ia mostrando e descrevendo visões, prédios, paisagens. Até que os germânicos, intrigados, perguntaram: "Mas quando você morou aqui? Conhece tudo!" Ela sorriu e não revelou o segredo. Mas disse a mim. Nesse momento senti que a palavra da gente sempre chega a um lugar, bate em alguém que precisa dela, a compreende e recolhe.

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