Fatos, fotos e tormentos do Rio de d. João VI

Com textos de Adriano Belisário e Guilherme Amado, Ponha-se na Rua reúne curiosidades e imagens de 200 anos e de hoje

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2008 | 00h00

O Rio de Janeiro que d. João e sua corte conheceram 200 anos atrás estava mais para terra de ninguém do que para paraíso tropical. A fim de coibir os freqüentes assaltos e assassinatos que atormentavam a cidade, foi criada a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia, comandada por um coronel português. Seu assistente brasileiro era o temível major Vidigal - que nos foi apresentado por Manuel Antônio de Almeida em seu Memórias de Um Sargento de Milícias. Mais sobre este e outros personagens da época descobrimos nas páginas de Ponha-se na Rua - Fatos e Curiosidades no Rio de Janeiro de D. João VI (Editora Luminatti), livro que será lançado hoje à noite, no Rio.Patrocinada pela prefeitura, a publicação integra a série que pega carona nas comemorações do bicentenário da vinda da família real portuguesa. Tem fotos de Ricardo Siqueira, autor de projeto, e textos de Adriano Belisário e Guilherme Amado. Os três jornalistas deram prioridade às estórias que permeiam a História, pouco ou já bem conhecidas dos brasileiros. "Não é um livro de descobertas. É um conjunto de casos interessantes", explica Belisário.O major Vidigal, que mais tarde daria nome ao Morro do Vidigal, favela da zona sul (as terras pertenceram a ele), é lembrado por sua astúcia. Para se aproximar de seus alvos, criminosos e malandros em geral, ele freqüentava rodas de capoeira. Era respeitado e ainda mais cruel e linha-dura do que o chefe, o intendente-geral da Polícia, Paulo Fernandes Viana, nomeado por d. João. "Ele sabia das práticas e se aproveitava disso", lembra Adriano Belisário, que, com os colegas, usou como referência livros que retratam este início de século 19.Entre os "fatos e curiosidades", eles destacaram a prática do "ponha-se na rua": o desalojamento de famílias para que suas casas fossem usadas por membros da corte recém-chegados (as residências eram pintadas com as iniciais P.R., de príncipe regente, daí o popular "ponha-se na rua"). E a vinda de 20 caixas repletas de plantas retiradas do jardim de uma colônia francesa no Caribe, que deram origem às primeiras espécies cultivadas no terreno do Jardim Botânico do Rio.As majestosas palmeiras imperiais, que embelezam o parque - sua aléia principal é composta por mais de cem delas -, também foram "roubadas", como relata o livro: são originárias da América Central e das Antilhas e a primeira delas foi d. João VI quem plantou. A beleza da árvore era tamanha que suas sementes eram ?levadas? por escravos à noite. Eles as vendiam ilegalmente. Foi assim que as palmeiras se multiplicaram pela cidade, todas "filhas" daquela primeira palmeira imperial.Em Ponha-se na Rua, Ricardo Siqueira, autor de outros oito livros, contrapôs imagens do Rio oitocentista (do acervo do Arquivo Nacional) e fotografias atuais. Por meio do recurso, compara-se a mesma aléia de palmeiras, então e hoje. Da mesma forma, a Quinta da Boa Vista, residência de d. João quando de sua chegada à cidade (cedida pelo proprietário, um comerciante de escravos); o Paço Imperial, antigo Paço Real, usado por ele para despachar; a movimentada Rua Direita, atual Primeiro de Março.O protagonista de toda essa história, João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança, o aparvalhado e medroso d. João, é lembrado também como o responsável por uma série de mudanças no Rio, a nova sede do Império - além, é claro, como notório devorador de coxas de frango.

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