Fascínio incólume por Francis Bacon

Museu do Prado em Madri apresenta em seu moderno edifício anexo ampla retrospectiva do pintor irlandês, com 78 obras

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2009 | 00h00

Na Guernica de Picasso, a grande tela em preto, branco e cinza que é a grande atração do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri, figuras humanas e animais estão representados com suas bocas abertas, gritando na composição inspirada nos horrores da guerra, no bombardeio alemão à cidade espanhola homônima à obra. No mesmo museu, um vídeo de 1950 de Alain Resnais e Robert Hessens sobre a famosa tela criada em 1937 por Picasso esmiúça seus elementos, criando ritmo entre a imagem e um texto - "A besta quer sangue", diz uma forte passagem. Todo esse contexto cai como luva para também se pensar nos temas viscerais das telas do pintor irlandês Francis Bacon (1909- 1992), coincidentemente, homenageado agora com grande retrospectiva até 19 de abril no Museu do Prado, na capital espanhola. Bocas abertas, assim como a mistura do animal e do humano, figuram em suas obras tal como na tela de Picasso, mas Bacon vai além do tema literal da guerra: ele promove a deformação da figura para tratar de horrores que vão da escala micro a macro - o homem sofre em rotação ao redor de si mesmo na redoma do quadrilátero de seu quarto solitário, assim vemos nas representações de tantas telas do pintor.Este é o centenário de nascimento de Francis Bacon, que morreu em 28 de abril de 1992 em Madri, dois motivos para apresentar suas criações de forma tão ampla na cidade, numa exposição com 78 obras entre pinturas, desenhos, fotografias e documentos. Filas se formam para ver a mostra, abrigada no moderno edifício anexo do Prado, projetado pelo arquiteto espanhol Rafael Moneo e inaugurado em 2007. Como afirmam os curadores Matthew Gale e Chris Stephens, Bacon, que viu sua consagração em vida, esperava ser esquecido, mas a fascinação que ele exerce se mantêm ainda e sempre "incólume". No mesmo Museu do Prado, onde a exposição foi aberta em 3 de fevereiro - antes passou pela Tate de Londres e ainda seguirá para o Metropolitan Museum de Nova York -, Francis Bacon viu obras de artistas que influenciariam para sua pintura. Basta citar apenas a trinca Velázquez, Goya e El Greco.A exposição, com curadoria de Gale, Stephens e de Manuela Mena, começa com o tríptico Três Estudos para Figuras ao Pé de Uma Crucificação (1944), no qual, sobre fundo laranja, as figuras grotescas e deformadas são como animais com boca humana (mas a obra mais antiga da mostra é uma pintura de 1933). A retrospectiva termina com a segunda versão do tríptico, criada em 1988, agora com fundo vermelho denso, o que forma, assim, uma visão circular sobre a produção do pintor, sempre imerso em crises e depressões.A crucificação, o grito, o isolamento e a deformação da figura são recorrentes na sua densa obra, mas é possível também ver raridades na exposição, como o colorido Estudo para Retrato de Van Gogh (1957) e outras composições também cheias de cores, influenciadas pela África, já que a mãe do artista lá viveu. Mas é certo que a grande fascinação se dá mesmo pelo conjunto recorrente e o diálogo com as influências do artista, não apenas tiradas da história da arte como do gênero fotográfico e do cinema. Exemplos maiores são as imagens sobre a 2ª Guerra, as fotos sequenciais do século 19 sobre o movimento feitas por Eadweard Muybridge e o fotograma do filme O Encouraçado Potemkin (1927), de Eisenstein, que congela a imagem da mulher que grita após ver o carrinho de seu bebê se desprender de suas mãos e descer pela longa escadaria.Nas pinturas de Bacon - geralmente retratos e autorretratos de grandes formatos e em trípticos - há passagens sempre intrigantes. Como as versões feitas a partir da tela Papa Inocêncio X (1650), de Velázquez: o olhar sisudo do cardeal se transforma na obra do irlandês em figura plena de agonia. Ou o tema tradicional da crucificação transposto para suas telas a partir da imagem da carne pendurada nos açougues - "nessa distorção, você passa a perceber a vulnerabilidade do corpo", disse o artista em 1966 em uma das famosas entrevistas que concedeu durante vários anos ao crítico David Sylvester (editadas em livro pela Cosac Naify). A repórter viajou a convite do Centro Oficial de Turismo Espanhol

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