Fascínio e loucura nos relatos de Paul Theroux

Prosa observadora, inconformismo e experiências em viagens estruturam O Safári da Estrela Negra e A Costa do Mosquito

, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O escritor Paul Theroux é um americano que preferiu, durante uma época, viver na Inglaterra, onde, acreditava, observava melhor seus conterrâneos. Passou, porém, a juventude cruzando continentes, período em que alternou atividades bem distintas, como professor universitário em Cingapura e ativista político em Uganda. Tal experiência permitiu-lhe desenvolver uma carreira literária que tanto flerta com o texto banhado pelo turismo como pela narrativa meticulosa e observadora.

No primeiro time, figura O Safári da Estrela Negra (480 páginas, R$ 59,90) enquanto no outro está a nova versão em português de A Costa do Mosquito (456 páginas, R$ 59,90), ambos traduzidos por Paulo Afonso e lançados pela mesma casa editorial, mas sob selos diferentes, o que reforça a diferenciação nos gêneros - O Safári vem com o carimbo da Objetiva, enquanto A Costa traz o da Alfaguara.

Relato de uma viagem entre o Cairo e a Cidade do Cabo, percorrendo o Rio Nilo pelo Egito, Sudão, Etiópia, Quênia e Uganda até terminar na África do Sul, O Safári da Estrela Negra comprova a escassa disposição de Theroux em se debruçar sobre grandes cidades, vistas por ele como enormes formigueiros de problemas insolúveis. Assim, sua narrativa aposta no antigo sonho de que a salvação do homem está em viver longe das aglomerações.

Apesar da tentativa de não cair na armadilha do lugar-comum, evitando exaltar pontos turísticos mas buscando aproximação com a população local, Theroux não consegue esconder sua condição de estrangeiro. Fluente em línguas africanas, o escritor, hoje com 68 anos, reproduz conversas com populares, como um motorista de táxi, mas é justamente nessas atitudes que desponta sua indisfarçável condição de "representante do Primeiro Mundo".

Como foi publicado em 2002, o livro desatualizou-se especialmente por conta das grandes transformações que aconteceram na África, um continente cada vez mais voraz na busca da modernidade, graças à presença de estrangeiros. O que se sobressai é o extrato de O Safári da Estrela Negra, resumido na valorização dos conceitos culturais tradicionais, componentes históricos ameaçados de extinção.

Paul Theroux sai-se melhor como escritor em A Costa do Mosquito, publicado em 1981 e levado ao cinema cinco anos depois, com direção de Peter Weir e Harrison Ford encabeçando o elenco. Ele vive Allie Fox, inventor de aparelhos estranhos e sem nenhuma utilidade, um homem inconformado com a vida de consumo e sedentarismo dos Estados Unidos. Como precisa sustentar a família - e seus inventos não lhe rendem um níquel sequer -, Fox faz serviços avulsos para um fazendeiro local.

Em busca de uma sociedade perfeita, ele decide reunir a família (mulher, dois meninos e pequenas filhas gêmeas) e trocar seu país pela selva de Honduras, na América Central - novamente, o antigo sonho de uma terra mais promissora. A aventura é narrada por Charlie, o filho mais velho, que se revela incrédulo e, ao mesmo tempo, admirador da determinação do pai em se estabelecer na mata, onde constrói casas e vive da agricultura, além de dedicar-se às suas invencionices. Lá, Fox constrói o que considera sua obra-prima, a máquina Fat Boy, que visa ao Bem mas só obtém o Mal.

Assim como em O Safári da Estrela, Theroux aproveita aqui para criticar e combater os missionários, transformando Allie Fox em um perfeito educador de índios, cujo método valoriza o respeito do homem pela natureza sem abandonar o uso da razão.

Novamente, o escritor oferece vivas descrições da floresta, quase a transformando em um personagem atuante. Afinal, a invasão da família Fox é combatida pelo ar sufocante e pelo labirinto verde em que se transformam suas áreas mais espessas. E também pelo pântano, que engole as esperanças humanas.

Objeto de culto, a natureza revela-se um poderoso inimigo de Allie Fox, vitimado por um colapso físico e moral - sua crescente loucura é uma ameaça à família que julgava proteger. Com isso, o mito do pai dilui-se diante do olhar dos filhos, perdidos nas terras desoladas de Honduras. "Fui enganado", diz Charlie a certa altura. Todos da família foram. E mais ainda Allie Fox que, afundado em sua loucura, continua mentindo para si mesmo.

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