Faladores faz da queda dos corpos um gesto artístico

Obra de Mário Nascimento revela inquietação investigativa

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Faladores, a mais nova obra de Mário Nascimento com a sua companhia, participou do recente Festival Panorama de Dança, no Rio, depois de estrear no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e encerrar uma temporada de sucesso no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte. Nela, Mário Nascimento e seus oito excelentes intérpretes avançam na construção de um vocabulário que se torna cada vez mais autoral.Os corpos caem sempre, e nesse constante cair, de repente, a vermelhidão do linóleo sobre o qual eles dançam ganha outro sentido. Os recortes que a iluminação vai fazendo colaboram para tonalizar as roupas e os gestos, promovendo um certo efeito visual que nos leva a perceber que o chão está ocupando um outro papel. Que o chão se espacializou e invadiu a verticalidade. E que, por isso, os corpos caem, mas não como interrupção dos movimentos. O chão não é um lugar de repouso. Os corpos caem porque cair é somente mais um dos seus gestos. Cair se equivale a estar de pé.Os pas-de-deux constituem uma boa oportunidade para se ver como um corpo passa a ser o chão do outro, um corpo-lugar-de impulso-e-chegada. Um corpo-chão em várias perspectivas: mais para baixo, tombado mais para um lado, depois para o outro, mais para cima.Faladores não trabalha com os 90º entre horizontal e vertical como parâmetro na sua busca do cair e do pendurar. Porque os corpos também se penduram uns nos outros e, a todo momento, se montam com desencaixes de braços, troncos, pernas e quadris. Como as articulações entre eles buscam evitar a vertical, vai surgindo um padrão de ocupação do espaço que ecoa o da vermelhidão que vai escapando do chão.André Rosa, Daphne Chequer, Joana Wanner, José Villaça, Mariel Godoy, Marco Túlio Ornellas, Rosa Antuña e Thaïs França, cada um deles contribui de um modo particular na construção desse vocabulário, que já vinha do trânsito entre lutas marciais, dança de rua, música e teatro. Agora, a ele agregaram a oralidade. Os oito criaram uma língua própria, o "momoês", estimulados pelos estudos que fizeram de Paul Zumthor (1915-1985), referência central nas pesquisas das poéticas da voz, e de Yoshi Oida, que tem um trecho de seu livro incluído no espetáculo.Os figurinos merecem uma atenção especial porque justamente desmontam, de uma maneira bastante original, a premissa de que a dança depende de um figurino especialmente desenhado. Em Faladores, a roupa da grife Elvira Matilde, que está no palco, também pode estar na platéia. A companhia foi a uma de suas lojas e lá escolheu o que iria usar em cena. Com esse gesto, nos levou a refletir não somente sobre o que representam os figurinos na dança, mas também, a buscar uma relação entre o figurino especialmente criado e a ação cotidiana de comprar o que se vê na vitrine, tendo como meta fazer da roupa um traço da nossa singularidade.Os dez anos de percurso da Cia. Mário Nascimento são pautados pela colaboração com o músico Fábio Cardia, autor da trilha de Faladores, assim como de todas as outras obras do repertório, formado por O Rebento (2007), Do Ritmo ao Caos (2005), Escambo (2002), Trovador (2000) e Escapada (1998). Na relação entre música e dança que vem construindo, a música vem se materializando em cena cada vez mais. Não apenas por conta da presença do compositor, mas porque ela vem buscando inventar formas de se fazer visível nos corpos. Ampliar para a exploração da oralidade, nesse contexto, então, passa a fazer todo um sentido evolutivo. E demonstra que o percurso coerente e consistente de Mário Nascimento na dança brasileira se pauta por uma saudável e permanente inquietação investigativa. Ela é o motor propulsor do seu jeito de inventar essa dança que carrega a sua assinatura.

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