Fala o jardineiro de Jean Becker

Jean-Pierre Darroussin comenta suas conversas com Daniel Auteuil no longa em exibição na cidade

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2008 | 00h00

Com quase 2 milhões de espectadores (exatamente 1.757.684), o Brasil ocupa a décima posição na lista dos melhores mercados do cinema francês em todo o mundo, precedido por Rússia, EUA, Alemanha, México, Espanha, Itália, Inglaterra, Bélgica e Polônia. Para fortalecer - e ampliar - a presença do cinema da França no mundo, a Unifrance (a Ancine deles) realizou em Paris, no fim de semana, um encontro com jornalistas de todo o mundo. Foi possível assistir a novos filmes e fazer entrevistas com atores e diretores. Na suíte do Hotel Intercontinental, em frente à Opéra, Jean-Pierre Darroussin impressiona-se ao saber que o Brasil, além de ser um bom mercado para o cinema francês, ainda favorece o cinema de autor. Astérix, aqui, faz menos sucesso do que Os Amantes Constantes, de Philippe Garrell. ''''Ah, mais c''''est formidable ça'''' (Isso é maravilhoso)'''', ele exclama.São dois os temas da conversa com Darroussin. Um deles é, claro, o sucesso de Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker, no qual ele faz justamente o ''''jardinier''''. O outro é o filme de Robert Guédiguian que representará a França no Festival de Berlim, em fevereiro. Lady Jane pertence ao gênero policial e é interpretado por atores que há muito tempo são fiéis a Guédiguian - sua mulher, Ariane Ascaride, e também Darroussin e Gérard Meylan. ''''São 35 anos de convivência'''', Darroussin conta. ''''Conheci Ariane no Conservatório. Robert já era seu namorado e a acompanhava. Naquela época, ele não pensava no teatro nem no cinema. Isso veio bem depois.''''Robert tem o que se pode chamar de sua trupe. ''''Vez por outra ocorre de ele fazer um filme sem seus atores, mas a equipe técnica é sempre a mesma'''', diz Darroussin. ''''No caso de O Último Mitterrand, fomos nós que o incentivamos a buscar outros atores. Nem Ariane nem eu tínhamos physique du rôle para fazer Mitterrand ou a primeira-dama. O personagem tinha a cara de Michel Bouquet e ele tinha o temperamento para criá-lo na tela.'''' De todos os seus filmes com Guédiguian, Darroussin tem um carinho especial por A Cidade Está Tranqüila. ''''É sua obra-prima.'''' Mas ele gosta de Lady Jane, que conta a história de uma mulher cujo filho é seqüestrado e morto. Segue-se uma trama de vingança, envolvendo dois amigos da personagem de Ariane Ascaride e, como ela, com origem no submundo de Marselha.''''Não é só um filme noir pelo gênero, ou estilo. É noir (sombrio) por sua análise dos personagens. Seu tempo está terminando e eles sabem disso.'''' No final, há um provérbio armênio que fala na vingança como uma força destrutiva. Guédiguian fez recentemente Armênia, que ainda está em cartaz no Reserva Cultural. Essa consciência de ser armênio é uma coisa que Guédiguian passa com freqüência no set de seus filmes? ''''Começou há pouco, quando ele foi homenageado na Armênia e terminou redescobrindo suas origens. Se você tivesse me feito esta pergunta há cinco ou seis anos, eu diria que não.''''Ao contrário de sua experiência com Guédigian, Darroussin é um neófito no cinema de Jean Becker, filho do lendário Jacques Becker e ele próprio diretor de um filme cultuado, Verão Assassino, do começo dos anos 80, com Isabelle Adjani. Darroussin foi chamado a fazer Conversas quando o ator que seria o jardineiro - Jacques Villeret, este sim, um assíduo de Becker -, morreu às vésperas do início da filmagem. ''''No começo, foi difícil'''', ele admite. ''''Jean já tinha uma camaradagem antiga com Jacques. Para todos os efeitos, eu era o estranho no ninho, fazendo um papel que parecia sob medida para o outro. Tivemos uma primeira semana complicada, mas, quando consegui vestir a pele do personagem, a equipe toda me assimilou. Fiquei mais à vontade com Daniel (Auteuil, que faz o pintor) e, a partir daí, a coisa deslanchou.''''Darroussin concorda com a definição do repórter, de que Conversas é um filme de ator. ''''O próprio Jean (Becker) dizia isso durante a filmagem. Seu papel tinha de ser o mais discreto possível. Ele queria que toda a força estivesse nos diálogos e na interpretação.'''' É um filme bonito, sobre relações, sobre troca e aprendizado. Muito justamente, interpretar, para Jean-Pierre Darroussin, é um contínuo aprendizado. Ele descobre novas coisas, sobre si e o mundo, a cada personagem. Descobriu mais ainda ao realizar Le Pressentiment, em 2006. O filme ganhou o prêmio da critica francesa para melhor obra de diretor estreante. ''''Sempre quis dirigir. Como deu certo, espero fazer mais filmes, mas nunca desistindo da interpretação.''''Serviço Conversas com Meu Jar-dineiro (Dialogue avec Mon Jardinier, França/2007, 109 min.) - Comédia dramática. Dir. Jean Becker. 10 anos.Espaço Unibanco 5 - 14 h, 16h10, 19h50, 22 horas

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