Fábula do sapo e do tucano - Parte 2

Depois do primeiro mandato, a fábula continua *- Por que me odeias, oh, sapo barbudo? - perguntou o tucano. - Achas que eu sujo a água que bebes no rio do Poder?O sapo barbudo respondeu:- Eu é que pergunto por que você me despreza, com seu bico de doutor? Só porque eu vim da caatinga, porque não pude estudar e vendi picolé na rua? Ou porque tenho um poder mais alto que qualquer tucano?O tucano replicou:- Não, caro sapo, eu até te invejava: foste um súbito símbolo irrompendo no mundo universitário. O jovem sindicalista com a barba negra e gestos épicos diante da massa de metalúrgicos nas greves do ABC fizeram a crítica-prática dos ideológicos idiotas. Nós, da USP, nunca tínhamos visto um operário real. Conhecíamos faxineiros de nossas casas, entregadores de pizzas, mas tu despontaste como uma estatua leninista a preencher os sonhos infantis de intelectuais paulistas. Trêmulos professores, te amamos como uma alegoria viva, foice e martelo na mão com o dedo decepado. Eras a primeira novidade da esquerda pós-64. Algumas professoras da USP se entregaram a ti, sugando tua energia sexo-política. Estivemos juntos nos palanques contra a ditadura, lembras?O diálogo do sapo com o tucano, na beira do rio, era ouvido com ansiedade pela ''baixa bicharada'' da floresta: toupeiras, cachorros-do-mato, ratões-de-Campos, cobras criadas, aranhas fisiológicas, baratas leprosas, botos-tucuxi, vermes evangélicos.O sapo barbudo insistiu:- Não; você me menospreza, me subestima...- Não! - redargüiu o tucano -, nós até criamos um Partido inspirados por ti. Tu renovastes a esquerda do país no fim dos anos 70, criando uma política prática, de resultados. Aprendemos com tua ''ignorância sábia'' e fundamos o tucanário do PSDB. Infelizmente, surgiram os urubus-leninistas, nostálgicos de revolução, e invadiram teu partido, para te usar e chegar ao Poder...Um murmúrio percorreu a ''baixa-bicharada'' que ouvia em suspense:''Nada disso! Benditos sejam nossos líderes marxo-urubus, que emprestaram um charme utópico a nossos interesses sindicais e pelegos!'' - ganiu um cachorro-do-mato.- Nos últimos 25 anos, essa cáfila de bolchevistas - inflamou-se o tucano - transformou tua inteligência instintiva em boçalidades ideológicas e tua PT-toca abrigou todos os asnos da velha esquerda.Nesta época, achávamos que, com o fim da ditadura, o Brasil estaria salvo, mas um bichinho mudou nosso destino - um micróbio enfiou-se na barriga de Tancredo, a sutil raposa mineira eleita nas ''indiretas'' depois dos anos-gorilas e matou-o na hora da posse.Quem subiu foi outra raposa, nordestina, bigoduda, que levou o país até 50 por cento de inflação ao mês, lembras-te?Depois, veio o lobo com pele de cordeiro, ou melhor, um abutre com cara de águia cercado de carcarás e calangos da caatinga, que fez tanta maracutaia que acabou expulso do cerrado do Planalto.Em seu lugar, ''vicejou'' um jeca-tatu que teve, por acaso, o mérito de me lançar para presidir a zorra da floresta - enfunou-se o tucanão vaidoso.- E você me derrotou, eu que queria reinar havia duas décadas...- Sim, venci; mas esperava o teu apoio, sapinho, pois sabíamos que nossa dupla podia ser um sucesso. Mas, teus urubus-leninistas massacraram-me por oito anos, aliando-se até com os vermes mais sujos para me infernizar... Foram contra o Plano Real , contra a Responsabilidade Fiscal, contra tudo.- É - desculpou-se o sapo-presidente -, meus conselheiros, os urubus Dirceu e Berzoini, me convenceram de que, segundo Mao Tsé-tung, você era o ''inimigo principal''!- E agora... sapo ingrato, tudo que dá errado em teu governo, tu pões a culpa em mim, na tal ''herança maldita'', dando ouvido a antas rancorosas. Tu preferes te aliar com a pior das lacraias do que a mim. Queres que eu morra com a boca cheia de formigas, esquecendo do tempo em que distribuíamos panfletos na porta da Volks... Mas, agora que tu te livrastes dos parasitas que te sugavam, com a ajuda do ex-elefante Roberto Jefferson, tu podes fazer as reformas que não deixaram. Se enxugares o Estado, se diminuíres os gastos públicos, privatizares estatais de ladrões, tu virarás o melhor, o sapo-rei desta floresta tropical!O sapo sufocou um soluço emocionado.- Tem razão; vamos nos unir então, companheiro tucano, conosco ninguém pode!- Isto, irmão sapo! Unidos, consertaremos esta bosta! Não precisaremos nos aliar às minhocas corruptas e bichos-severinos que infestam a Câmara.E vamos logo, pois o dragão da Inflação, o boitatá de olhos de fogo, já ronda a floresta!Um frêmito de pavor eriçou a bicharada:''Se eles se unirem estamos fu...dos ! Vamos perder nossos buracos, nossas tocas dentro do Governo'' - uivaram sanguessugas, bugios, gambás, furões e morcegos.''Esta aliança é a morte da bicharada!'', grunhiu uma toupeira para um gafanhoto-de-rondônia.Um macaco-pelego subiu no galho e berrou:''E nós? Vai nos desempregar, nos despedir, sapo-rei?''Não admitiremos!'' - ecoaram aranhas-cutistas e piranhas-burocráticas.E a cambada de bestas encheu a floresta com zurros, vagidos, arrotos, ronqueiras e bramidos.Neste momento, uma hiena salvou tudo. Começou a gargalhar, uivando de ironia, interrompendo o interlúdio afetivo que despontava entre o sapo e o tucano.- Vai governar como, hein ''cumpanheiro'' sapo? Como ? Sem nós você não é ninguém! Você já obedeceu aos ''genoínos urubus'', mas ainda precisa de nós, a pelegada da pesada!Aí, o sapo engasgou, coaxou amarelo e ficou ''cururu'' na beira do rio.- É... dr. Tucano... infelizmente, tenho de atender aos 100 mil cupins que estão nas frestas do Estado...- E tem mais - gargalhou a hiena -, é melhor logo um terceiro mandato para garantir toda a bicharada!!Ouvindo isso, o sapo inchou de cobiça e coaxou alto, vaidoso:''É isso aí, cumpanheiros do mato! Digam à bicharada toda que eu fico!!''Cabisbaixo, o tucano voou para longe e a arraia miúda, a escória da selva celebrou sua continuidade no ''pudê''.Foi um triunfo de uivos, grasnidos, cacarejos, ululações em coro:''Rato, pato, gato,viva o terceiro mandato!''Foi aí que veio o dragão da Inflação e comeu todo mundo. E acabou-se a estória.* - A primeira versão foi publicada no primeiro mandato.

O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2008 | 00h00

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