Expressão da consciência dilacerada

Em Os Sertões, Euclides da Cunha se divide entre as tropas e os canudenses

Walnice Nogueira Galvão, O Estadao de S.Paulo

10 Abril 2009 | 00h00

Pode-se considerar Os Sertões como a expressão da consciência dilacerada de Euclides da Cunha, ao perceber-se parte integrante do exército republicano em vias de massacrar o povo brasileiro em Canudos. Pouco antes, esse exército destronara o imperador e liquidara a escravidão. Em consequência de sua formação, que era a de engenheiro-militar, Euclides acredita no exército, na missão civilizadora dos militares, no progresso, na ciência, numa República de homens livres, na Revolução Francesa.Ele vê, a si e aos outros, fazendo um triste papel. Torna-se presa de oscilações, porque não se desliga inteiramente das crenças, nem do exército, embora já estivesse reformado. Verificamos que às vezes torce pelas tropas, às vezes pelos canudenses. O que já é um grande avanço, porque aprendeu a admirá-los, mesmo que a contragosto. Eram pessoas que tinham tudo para fazê-lo horrorizar-se, como todo o Brasil estava horrorizado, porque eram atrasadas, supersticiosas, beatas, milenaristas, messiânicas, analfabetas, mestiças, e só queriam rezar o dia inteiro. Coisas abomináveis para uma mentalidade progressista, republicana e laica. Canudos era um obstáculo no avanço triunfal da modernização.Foi um esforço tremendo, algo admirável: ser capaz de aprender a respeitar os canudenses, compreender o que estava se passando com eles. É por isso que a linguagem de Os Sertões a certa altura começa a se impregnar da visão dos vencidos. Euclides vai aderindo em parte ao ponto de vista deles, e começa a ver aquele mundo, o Belo Monte, que ele chama de Nova Jerusalém, como que reencantado pela fé.E exatamente porque é incapaz de tomar um e um só partido, seu livro fica muito mais interessante. O leitor acompanha o conflito e a tensão dentro dele. Não é só fora, na crônica da guerra, que há conflito e tensão: também dentro dele é convulsivo o esforço para aceder à compreensão. Quanto ao nível retórico, o livro é tão elaborado, tão sofisticado, mobiliza tantos conhecimentos... Fez sucesso, mas hoje eu me pergunto se Os Sertões não é daquelas grandes obras que todo mundo menciona, mas ninguém lê. Tenho a impressão de que é um pouco um fetiche, de exibição obrigatória na estante. Quando eu era criança, era assim: estava presente na biblioteca da casa de meus pais e de toda casa a que eu ia. Hoje já nem tanto, há um aparelho de televisão no lugar antes ocupado por Os Sertões.Vários fatores contribuem para essa dificuldade de aceitação. Trata-se de um discurso na clave que chamo de retórica do excesso, porque é grandiloquente e altissonante. Mesmo com o pano de fundo do parnasianismo, à época esse discurso já era um tanto arcaizante e retrógrado.Outro fator certamente é a mistura de estilos: naturalismo, parnasianismo e uma espécie de neorromantismo, ou resquícios do romantismo. Isso se verifica sobretudo, mas não só, na concepção do artista enquanto vate inspirado e visionário, defensor dos oprimidos, como Castro Alves a defender os escravos. Castro Alves também é excessivo - o que é um empenho romântico. Tudo isso coexiste com a preocupação científica do naturalismo a respeito do determinismo, casada ao parnasianismo das descrições. Do ponto de vista dos gêneros, é uma narrativa, um epos, mas de guerra. Esta, por natureza, se expressa no gênero dramático, que é o modo do conflito. Como narrativa de guerra, adjetivamente o livro desdobra recursos do gênero dramático; e substantivamente é um epos. Há ali dois gêneros literários, um brigando com o outro.Acrescente-se o que se pode chamar de "ambição enciclopédica", porque Euclides tende ao enciclopedismo e ao ensaísmo. De vez em quando detém a narrativa e elabora um pequeno ensaio sobre algum tema, sobre a gênese do mestiço, por exemplo. Trata-se de um livro de composição muito complexa, desigual, irregular: tanto mais fascinante. Por pouco o autor não se perdeu totalmente em meio aos materiais que mobilizou e aos recursos retóricos. Leu tantos livros que a síntese continuamente lhe escapa. Euclides faz paráfrases dos livros que leu, paráfrases que se contradizem e que se armam em antíteses. Não sabendo como solucionar o impasse, segue em frente. Mas a impossibilidade de chegar a uma síntese também pode ser sintoma do dilaceramento interno. Por isso Euclides trabalha com antinomias, paradoxos e antíteses o tempo todo. E aquela plebe ignara, apesar de tudo, tinha criado em Canudos uma organização social mais do que contestatária. Não era viável, não ia chegar longe, evidentemente, como de fato não chegou. Mas, de uma maneira ou de outra, conseguiu esboçar uma alternativa.Quem é que mandava no sertão? O fazendeiro, o vigário e o delegado de polícia: as autoridades eram essas. Os canudenses esquivaram-se às autoridades, substituindo-as por Antônio Conselheiro, que as reunia em si. Tiveram a ilusão de que aquilo poderia ser perene. Subtraíram-se durante algum tempo ao regime de propriedade, ao regime de trabalho e ao regime do simbólico. Era uma utopia, mas é notável que tenham conseguido atingir esse ponto. Talvez seja o que possa explicar a resistência ao assédio militar, ou seja, porque é que eles preferiram morrer lá dentro. Tinham algo pelo que morrer, era uma criação deles, coletiva, melhor do que seria a vida fora dali. Melhor do que era antes e certamente do que se tornou depois, para as mulheres e crianças sobreviventes, que voltaram a ser semiescravos. Para nós, em nosso tempo, o curioso é que, graças a esse livro rebarbativo, conseguimos entender melhor o que se passou. Walnice Nogueira Galvão é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autora, entre outros, de As Musas sob Assédio

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