Exposição 'Virei Viral' no Rio chega à sua segunda edição

Mostra faz reflexão sobre papel do homem na era digital

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 20h25

RIO - Um passarinho que se reconhece no espelho foi o ponto de partida para que o artista Anthony Marcellini iniciasse uma reflexão sobre como a autopercepção de cada indivíduo influencia o entendimento de seu papel social. O trabalho é parte da segunda edição da exposição Virei Viral, que ficará no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio, de 22 de outubro a 22 de dezembro.

Além de Marcellini, artistas brasileiros e estrangeiros apresentarão obras que discutem e fazem refletir sobre a relação entre individualidade e coletividade na era da internet.

A ideia nasceu em 2009, quando Marcellini, também professor e escritor, mudou-se para a Suécia. Lá, passou a analisar o comportamento de pássaros da espécie pega, muito comum no Hemisfério Norte, que parecem ter autoconsciência e interagir socialmente.

“Eu estudava sociologia e filosofia e comecei a usar o pássaro para pensar a relação entre autoconsciência, performance e o papel social dos seres humanos”, disse.

No ano seguinte, nasceu a obra Tornando-se Real (Becoming Real, em inglês) na qual, após observar o próprio reflexo e entender sua individualidade, o pássaro pensa sobre como sua identidade é formada pela percepção que os outros pássaros têm dele e de suas ações. Conclui que sua identidade pode se adaptar às influências externas - às interações pessoais, físicas, emocionais.

“A autoapresentação é mutável. Sempre que o indivíduo muda a forma como se apresenta, ele também modifica a forma como os outros reagem à sua presença. Assim, ele altera a própria compreensão de seu papel social pela forma como interage com os demais”, contou.

O pega é representado em uma série de desenhos “científicos”, uma escultura em que se reconhece no espelho e um livro. Para esta edição da Virei Viral, o autor escreveu um pequeno texto no qual o pássaro reflete sobre as experiências vividas nos últimos quatro anos e tenta compreender o poder das coisas “imperceptíveis” que, na verdade, influenciam seu comportamento.

Na era digital, as identidades mutáveis também se adaptam ao meio, seja virtual ou físico. 

Exposição individual. “O mundo virtual se tornou um espaço de exposição individual para uma multidão de desconhecidos. Ao concedermos informações particulares para o público on-line, nossa privacidade pode ser acessada por qualquer um”, avalia Marcellini.

O paradoxo da interação virtual, completa o artista, é que o indivíduo pode fingir ser e agir como outras pessoas. Para entender a construção da própria identidade e seu papel social, o indivíduo “precisa ter consciência das especificidades de cada meio e saber quem controla e usa nossas informações” em cada plataforma escolhida para essa interação, nas redes sociais ou mesmo nas relações pessoais.

“A principal questão dessa interação virtual é saber que escolhas fazer e descartar o que não é necessário. Não é porque temos acesso imediato às informações que elas serão boas para nós. Pelo contrário, aparentemente, o excesso de dados limita nosso potencial de comunicação, planejamento e observação e pode causar estresse, depressão e uma série de efeitos negativos.”

Para Marcellini, o ideal é manter o equilíbrio entre o virtual e o sensorial. “E lembrar que as tecnologias digitais e a internet são recursos incríveis, mas não deveriam substituir a interação física.”

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