FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Exposição traz as raízes do abstracionismo de Kandinsky

Mostra dedicada ao artista russo e suas influências será inaugurada no CCBB de São Paulo; visitas devem ser agendadas

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2015 | 03h00

Entre manchas alaranjadas e azuis, “distinguem-se contornos de rochas e as figuras da princesa e do cavaleiro derrotando o dragão” – diz a legenda de São Jorge, uma das primeiras pinturas abstratas do russo Wassily Kandinsky, datada de 1911. Ao lado dela, vê-se também no quarto andar do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo uma têmpera sobre madeira do século 16 com a representação do santo que, antigamente, era tanto padroeiro dos príncipes russos como protetor dos pecuários e lavradores. “As cores da obra de Kandinsky são referenciais ao ícone”, afirma Evgenia Petrova, do Museu Estatal Russo de São Petersburgo. No início do século 20, quando o artista formulava a sua teoria da abstração, completa a curadora, ele voltava-se para a tradição pictórica de seu país.

Entretanto, não apenas os ícones bizantinos (pinturas de imagens sacras) influenciaram Kandinsky (1866-1944) em seu caminho para o abstracionismo. As fortes tonalidades e formas dos objetos de arte popular da Rússia podem ser reconhecidas em suas criações, assim como arcos, flechas e conceitos dos rituais xamânicos do norte da Mongólia atraíram o artista e “etnógrafo” que escreveu uma das mais importantes referências da história da arte do século 20, o livro Do Espiritual na Arte, de 1911. Há, ainda, a música (e o diálogo com o compositor austríaco Arnold Schönberg) como elemento primordial das experiências artísticas do russo, um dos fundadores do grupo O Cavaleiro Azul, em Munique, e professor da Bauhaus alemã. Todos esses temas e questões vão se desdobrando no percurso da exposição Kandinsky: Tudo Começa num Ponto, que será inaugurada na terça-feira, 7, para convidados, e na quarta-feira, 8, no CCBB paulistano.

“Normalmente, as exposições de Kandinsky são muito centradas em suas próprias obras. Essa o coloca dentro do contexto de suas influências”, explica Evgenia Petrova, que assina a curadoria da mostra com Joseph Kiblitsky. Funcionária há mais de 30 anos do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, ela diz que é a primeira vez que um conjunto significativo de obras da instituição, cujo acervo conta com cerca de 400 mil peças, fica tanto tempo fora de seu país.

Afinal, a apresentação de Kandinsky: Tudo Começa num Ponto em São Paulo, com mais de 150 trabalhos do artista e de seus contemporâneos (Pável Filónov, Aleksei Georgievich Jawlansky e Gabriele Münter, uma de suas mulheres), além de objetos da cultura russa (procedentes também de museus e coleções europeias), marca 11 meses de itinerâncias da exibição pelo Brasil – depois de passar por Brasília, Rio e Belo Horizonte, a exposição, já visitada por 900 mil pessoas, encerra sua temporada.

A exposição, projeto apresentado ao CCBB por Rodolfo de Athayde, diretor da Arte A Produções, e orçado em R$ 7 milhões, percorre a trajetória de Kandinsky entre o fim do século 19 e a década de 1920, quando o artista, que já havia vivido na Alemanha, decide, decepcionado com o regime socialista, deixar de vez a Rússia. “Depois de sua saída para a Europa e, sobretudo, depois de seu período na Bauhaus, seu estilo acabou sendo profundamente modificado”, afirma a curadora.

Das experiências iniciais do russo como pintor, destaque para suas paisagens figurativas – desde Igreja Vermelha, de 1901, até o óleo sobre cartão Murnau, Paisagem Estival, de 1909, composição pré-abstrata, feita com áreas de cores berrantes – e suas belas xilogravuras dos anos 1910. Das pinturas abstratas de Kandinsky, estão presentes o São Jorge, de 1911, e criações como Improvisação 11, de 1910, Crepuscular, de 1917, Quadro com Pontas e Dois Ovais, de 1919, e No Branco, de 1920 – este último, mais puro, e apresentado também em diálogo com o ícone bizantino São Nicolau com ‘A Vida dos Santos’, do século 17.

“A abstração muito específica de Kandinsky, repleta de narrativas, está diretamente relacionada com o que ele conta em Do Espiritual na Arte, no sentido de que é possível traduzir cada sentimento, cada pensamento através da composição e da cor”, diz Evgenia Petrova.

PRESTE ATENÇÃO...

1. Na geometria das formas e cores dos objetos populares russos do início do século 20, como os trenós infantis, brinquedos de madeira, entalhes decorativos e litografias que decoravam as casas de camponeses. Como conta a curadora Evgenia Petrova, Kandinsky era colecionador dessas peças.

2. Na transposição literal da forma geométrica de um detalhe da vestimenta de São Nicolau, representado como ícone pictórico do século 17, para a tela abstrata No Branco (1920), de Kandinsky.O mesmo tipo de referência acontece com a estética de peças e vestimentas xamânicas expostas.

3. Na vitrine que apresenta no subsolo do CCBB as cartas trocadas entre Kandinsky e o compositor austríaco Arnold Schönberg, também representado pelo Autorretrato Azul, de 1910.

4. Nas pinturas sobre vidro criadas por Kandinsky e pela artista Gabriele Münter, então sua mulher, no início dos anos 1910, na Alemanha.

5. Nas pinturas de Aleksei Georgievich e Pável itch Filónov, contemporâneos de Kandinsky

CCBB de São Paulo vai testar serviço de visitas agendadas

Para tentar solucionar o problema das constantes filas para as exposições do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, a instituição vai testar com a mostra de Kandinsky um novo serviço de visitas agendadas. O público terá de agendar sua ida à exposição por meio de um aplicativo para smartphones criado em parceria com a Ingresso Rápido – o código da visita, a ser apresentado na recepção do CCBB, também poderá ser acessado pela internet. “As filas têm sido utilizadas pela mídia como índice de sucesso, mas, para quem está do outro lado do balcão, isso é complicado”, diz o novo diretor da instituição, Tadeu Figueiró. Serão oferecidos horários para 11 sessões diárias, das 9h30 às 19h30, cada uma delas com capacidade para 300 pessoas. O visitante que chegar espontaneamente ao CCBB e desconhecer o procedimento, entretanto, será orientado por funcionários e terá de esperar por um código a ser entregue na bilheteria.

SERVIÇO:

KANDINSKY: TUDO COMEÇA NUM PONTO. Centro Cultural Banco do Brasil.R. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651/3652. 4ª a 2ª, 9 h/21 h. Grátis. Até 28/9. Abertura dia 8/7. 


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