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Nova exposição traz 35 telas raras feitas por Candido Portinari

Obras foram pintadas entre os anos 1931 e 1944

Antônio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2015 | 09h46

No recém-lançado livro Paris, Capital da Modernidade (Boitempo Editorial), o geógrafo britânico David Harvey diz que “um dos mitos da modernidade é que ela constitui uma ruptura radical com o passado”. Harvey usa a palavra mito justamente por não acreditar nessa ruptura. Em outras palavras, a ideia de Paris como capital da modernidade já estava embutida no projeto de demolição da cidade pelo urbanista e barão Georges-Eugène Hausmann, que, apesar disso, não rompe radicalmente com o passado parisiense.

Quando se pensa na temporada que o pintor brasileiro Candido Portinari (1903-1962) passou em Paris, entre 1929 a 1931, fica mais fácil entender a natureza binária de sua pintura, ou melhor, o conflito entre sua vocação acadêmica e o espírito que o empurrou para a modernidade. A reverência aos mestres, antigos e modernos, o paralisou - a ponto de deixar a pintura de lado para visitar museus e galerias parisienses - até voltar ao Brasil, em 1931, já contaminado pela modernidade. Isso fica claro na exposição Portinari e a Poética da Modernidade Brasileira, que a Galeria Almeida & Dale abre na quinta, 18.

Não por outra razão, lembra Denise Mattar, curadora da mostra, que reúne 35 telas raras de Portinari, o escritor Mário de Andrade ficou deslumbrado com as pinturas que o artista de Brodósqui exibiu no salão organizado em 1931 pelo urbanista Lúcio Costa, então diretor da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Portinari compareceu com 17 obras, entre elas o retrato do poeta Manuel Bandeira e a tela O Violinista, que Mário classificou de “admirável”. Desapontado com outros modernistas do salão (incluindo Tarsila do Amaral), o autor de Macunaíma criticaria, dois anos mais tarde, o “diletantismo estético, tipicamente burguês, em que persistimos”. A partir daquele momento, os modernistas assumem a crítica e passam a se ocupar dos problemas sociais. Portinari, em 1934, pinta sua primeira tela com essa temática. Muitos anos mais tarde, Mário chamaria o pintor de “escudo da causa do modernismo contra o academismo”.

Isso não encerrou a discussão que colocou Portinari num movimento pendular entre sua brasilidade sincera e a ligação umbilical com a pintura italiana - afinal, tratava-se de um descendente de camponeses vindos da Itália, que se estabeleceram numa fazenda de café perto de Brodósqui. O próprio Portinari, a respeito, dizia que, apesar de ter o sangue da gente de Florença, se sentia como um caipira. Esse conflito teria provocado, segundo a crítica, uma certa incoerência de estilo que colocaria em dúvida a modernidade de Portinari - o que seu amigo e biógrafo Antonio Callado considerava uma bobagem. Para ele, não havia conflito entre o conservador clássico e o inovador moderno. Era da natureza dual de Portinari essa oscilação.

Também por isso a curadora da mostra escolheu 1931 como o ponto de partida da exposição, que vai até 1944, ano da Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte e da ascensão internacional do pintor - ele ganha uma individual em Washington e a revista Time reproduz na capa sua tela Morro, hoje no acervo do MoMA. Da mesma década, a mostra paulistana traz pinturas em que Portinari revela igual intenção de se dedicar aos despossuídos, pintando cenas dos morros cariocas e reminiscências do meio rural de Brodósqui, especialmente crianças empinando pipas, além de espantalhos, enterros e carcaças de animais. Um quadro da época é a pintura As Moças de Arcozelo (1940), lírica obra expressionista com três moças em roupas domingueiras sentadas à beira da estrada. A paisagem de Arcozelo, cidade fluminense, é apenas sugerida em leves traços, destacando-se à esquerda um baú de folha de flandres pintado de azul. Mas a grande surpresa para o visitante é o óleo sobre madeira Flora e Fauna Brasileira (1934), ano em que Portinari defende que a pintura moderna “tende francamente para a pintura mural”, como a dos mexicanos. Essa é a prova mais evidente.

Portinari foi um grande retratista, como provam as duas pinturas reproduzidas à direita, a maior sendo de Paul, um dos filhos do pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982), e a menor, um autorretrato do artista, que ele presenteou ao seu médico em 1956, ano em que conclui os painéis Guerra e Paz, cada um medindo 14 x 10 metros, realizados a óleo sobre compensado naval durante nove meses e doados um ano depois à ONU sem a presença do autor - por causa de seu envolvimento com o Partido Comunista, ele sequer foi convidado para a cerimônia em Nova York.

Não foi a primeira nem a última injustiça contra Portinari. A despeito da defesa de Mário de Andrade, que certificou o papel do artista como líder do movimento moderno, ele tampouco foi convidado por Niemeyer para executar uma obra que fosse em Brasília, levando para o túmulo essa mágoa. Vale lembrar que a própria pintura contribuiu para sua morte. Portinari morreu intoxicado com o chumbo das tintas, o que torna ainda mais trágico o autorretrato amarelo de Nápoles da mostra (uma das cores mais tóxicas).

Há alguns retratos antológicos na exposição organizada por Denise Mattar para a Galeria Almeida & Dale, que vem promovendo retrospectivas com os principais nomes do modernismo brasileiro (Volpi, Guignard, Bonadei). A curadora aponta dois retratos da uruguaia Maria Victoria Martinelli, com quem ele foi casado por 30 anos, pintados em 1933 e 1934, em que a jovem esposa parece uma figura hierática saída dos quadros de Modigliani, como observa a curadora. De fato, a ausência dos olhos no último quadro sugere que a passagem por Paris quatro anos antes contaminara Portinari com o vírus da modernidade, assim como Modigliani fora influenciado antes pelo romeno Brancusi e as máscaras da arte africana.

Separada por módulos, a exposição divide a pintura social de Portinari entre a visão idealizada das favelas cariocas nos anos 1930 e a posterior - e mais vigorosa - crítica à miséria, dos anos 1940 em diante. Não há na mostra nenhum exemplo das pinturas monocromáticas em que Portinari emula o estilo de Picasso após ver Guernica em Nova York, em 1942, quando ainda podia entrar nos EUA - esses exemplos podem ser vistos no Masp, em cujo acervo figuram telas gigantescas do pintor, entre elas a têmpera Último Baluarte (1942), que Portinari admitia ser picassiana.

Em contrapartida, é possível identificar a ressonância de outros modernistas brasileiros como Di Cavalcanti nas figuras volumosas da tela Mulher e Criança (1936). “Portinari foi, acima de tudo, um experimentador”, diz a curadora, justificando a observação ao passar diante da pequena tela Duas Mulheres, que usa areia misturada ao óleo em sua composição. Do mesmo ano é uma tela de semelhantes dimensões em que as figuras são apenas esboçadas pelo desenho, como em algumas obras de Picasso.

Os pés, os grandes pés de Portinari, que também remetem aos pés agigantados de Picasso, podem ser vistos em raros esboços que ele fez para o Ministério da Educação em afresco, técnica pouco usada no Brasil naquela época. O crítico Mário Pedrosa, anos mais tarde, diria que esse não era um eco retardado do muralismo mexicano, mas um sinal de amadurecimento da técnica e da estética de Portinari. Ninguém duvida.

CANDIDO PORTINARI - PINTOR

Nascido em Brodósqui em 1903, Portinari (no autorretrato ao lado, de 1956) é um dos principais nomes do modernismo. Filho de imigrantes italianos, começou como decorador de igrejas e ganhou sala especial na 1ª. Bienal de São Paulo, em 1951. Morreu em 1962, intoxicado pelas tintas.

PORTINARI E A POÉTICA DA MODERNIDADE 

Galeria Almeida & Dale. R. Caconde, 152, 3887-7130. 2ª a 6ª, 10h/18h; sáb., 10h/14h. Abre 5ª, 19h.

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