Michel Dantas
Michel Dantas

Exposição 'Terra em Transe' retrata o Brasil em 600 fotos

Mostra no Parque do Ibirapuera tem curadoria de Diógenes Moura

Simonetta Persichetti, Especial para o Estadão

01 de outubro de 2021 | 05h00

Seiscentas imagens, 60 fotógrafos. Uma linha do tempo que se inicia no começo do século 20 e chega até o mundo pandêmico do século 21. Assim é a exposição Terra em Transe, com curadoria de Diógenes Moura, que o Museu Afro Brasil e o Fotofestival Solar apresentam no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Literalmente inspirada no filme de mesmo título que foi rodado por Glauber Rocha (1939-1981) em 1967, a mostra analisa a situação nacional num contexto sociopolítico. É o Brasil que se apresenta à nossa frente, tocando em temas como violência, paixão, meio ambiente. Imagens que nos contam uma história do País como se estivéssemos folheando um livro. 

A exposição foi inicialmente montada e apresentada em Fortaleza, em 2018, no espaço Dragão do Mar, por ocasião do surgimento do FotoFestival Solar.

Prevista para chegar a São Paulo em 2020, a mostra foi adiada até agora por conta da pandemia. “É um desejo antigo do museu exibir aqui Terra em Transe, que discute temas viscerais do Brasil, trazendo à tona retratos das injustiças sociais, raciais e políticas do País”, afirma Emanoel Araujo, diretor curador do Museu Afro Brasil.

Do final de 2018 até hoje, o País mudou e tais mudanças precisaram ser incorporadas a essa grande história que é contada pela ótica do curador: “Ficamos isolados em nossas casas”, comenta Diógenes Moura, em conversa por telefone. “Aproveitei esse tempo para pensar em como ampliar a exposição e, durante seis meses, selecionei mais de 1.200 imagens que saíram nos jornais falando da pandemia. Tivemos também Brumadinho, as queimadas do Pantanal, da Amazônia, temas que não podiam ficar de fora da exposição, o olhar das ruas também precisava ser atualizado.” 

Foi assim que a exposição passou de 450 para 600 fotografias de profissionais de todo o Brasil que, com seu olhar apurado, ajudam a conhecer e compreender, segundo uma estética documental, o Brasil. E se em 2018 ocorreu o grande desastre que foi o incêndio do Museu Nacional, no Rio, nesta nova edição foi acrescentado o incêndio da Cinemateca. 

E, em 2018, se a exposição se ocupava com o desastre da cidade de Mariana, agora se soma a tragédia de Brumadinho, problema não apenas de saúde pública, mas também de descaso com o meio ambiente. A exposição firma-se assim como uma aposta no respeito pela cidadania. Segundo Moura, em citação no texto da exposição, é assim desde o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos; desde os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, desde, enfim, de Carandiru, de Hector Babenco. É assim por dentro de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

São imagens que retratam momentos específicos e marcantes. Fotos diante das quais não é possível não refletir, ou não se envolver, acredita Moura. “Pensei na exposição como se fosse uma grande obra literária.” Dessa forma, cada foto e cada temática despontam como se fossem páginas. A criação de uma ideia de Brasil pela imagem. “A exposição é o resultado de minha experiência como curador, como escritor, como alguém que desde cedo aprendeu a olhar para este país. Quis fazer uma grande exposição de um Brasil que vivi e experimentei. Um Brasil que eu frequento”, comenta Moura. 

 

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