Christophe Petit/ Tesson
Christophe Petit/ Tesson

Exposição sobre da Vinci, no Louvre, presta homenagem aos 500 anos de sua morte

Com 160 obras em exibição, museu faz retrospectiva da carreira de Leonardo, em uma ambiciosa exposição sobre a vida do artista

Farah Nayeri, The New York Times

23 de outubro de 2019 | 15h35

PARIS - Nenhum museu no mundo possui mais obras de Leonardo da Vinci do que o Louvre. São cinco pinturas – e a mais famosa delas é a Mona Lisa, que o artista da Renascença tinha com ele, juntamente com outras obras-primas, quando morreu na França, em 1519.

Para marcar o 500.º aniversário da morte de Leonardo, o Louvre inaugura na quinta-feira uma exposição retrospectiva com 160 obras de Da Vinci, que seguirá até 24 de fevereiro de 2020. Esta é uma das mais ambiciosas exposições de trabalhos do artista.

Na mostra estão oito pinturas de Leonardo (mais a Mona Lisa, que está no andar superior do museu, mas poderá ser vista agora na exposição). Há também 22 obras vindas de instituições como o Museu do Vaticano, Galeria Uffizi de Florença, a Royal Collection e a National Gallery da Grã-Bretanha, o Hermitage Museu de São Petersburgo e o Metropolitan Museum de Nova York. E entre os objetos de coleções privadas está o Codex Leicester, um conjunto de escritos científicos de propriedade de Bill Gates.

Assegurar os empréstimos das obras foi um processo complicado e por vezes cáustico. No final do ano passado os governos da França e da Itália, se desentenderam por causa do mestre da Renascença. A subsecretária da Cultura da Itália, na época Lucia Borgonzoni, questionou os planos de emprestar várias obras durante o ano do aniversário e acusou a França de tratar a Itália como um “supermercado” cultural. As duas partes retomaram as conversações depois disto e uma lista de obras do mestre vindas da Itália foi divulgada no mês passado.

Uma estrela na lista quase não veio ao Louvre: o famoso Homem Vitruviano, desenho icônico do artista mostrando a figura de um homem com braços e pernas estendidos, foi por breve período retido quando o grupo responsável pela sua herança, Italia Nostra, tentou impedir o empréstimo numa ação judicial impetrada no último minuto, alegando que a obra era muito frágil para viajar. O tribunal que analisou a ação decidiu o caso na semana passada e permitiu que o desenho ficasse à mostra por oito semanas.

O Louvre ainda aguarda outra obra: o Salvator Mundi, atribuída a Leonardo, vendida por US$450,3 milhões pela Christie’s em novembro de 2017. Esta foi uma das mais caras obras de arte vendidas em leilão. O comprador anônimo é um aliado próximo do príncipe da coroa saudita, Mohammed bin Salman, e pode ter adquirido a obra em seu nome.

Quanto à atribuição da obra, há dúvidas. Um dos dois curadores da mostra, Vincent Delieuvin, disse que a pintura ou era 100% de Leonardo, ou era dele apenas em parte (e o resto concluído por um dos seus alunos) ou inteiramente do aluno. O Louvre só determinará o nome do responsável quando ela chegar. “O quadro está danificado”, disse Louis Frank, o outro curador. “Grande parte dele foi perdida e depois restaurada.

Salvator Mundi é um fragmento e as dúvidas se centralizam nesse fragmento”, disse ele.

As obras expostas no Louvre ficarão agrupadas em quatro seções, revelando a progressão artística de Leonardo através das suas pinturas e desenhos, mas também cópias dos seus trabalhos feitas por outros artistas, visando oferecendo um apanhado útil da carreira artística do mestre. A missão é “dar uma imagem diferente do artista”, disse Delieuvin, contestando a percepção de que ele foi uma pessoa que “viveu uma vida dispersa, se aventurando na matemática, geometria, anatomia e de vez em quando pintando”. “Sua vida foi dedicada à busca da forma mais perfeita de pintura”, acrescentou ele.


Veja na galeria algumas das fotos da exposição de Leonardo da Vinci no Museu do Louvre:




Abaixo, estão os oito pontos altos da exposição com a trajetória de Leonardo como artista, e que mostram a amplitude e alcance dos seus talentos, explicados pelos próprios curadores:

Estudo de vestuário para uma figura sentada

Este primoroso estudo feito por Leonardo ainda jovem e de propriedade do Louvre, é um dos 11 que abrem a exposição. Está em exibição na mesma sala em que se encontra uma escultura de bronze que Leonardo conhecia bem e que, se acredita, inspirou sua obra: Cristo e São Tomé, de Andrea del Verrocchio, mestre de Leonardo na época. A escultura foi emprestada pela Igreja e Museu de Orsanmichele, de Florença. O objetivo é demonstrar que a relação de Leonardo com a escultura é “o primeiro tijolo na construção do seu universo artístico”, disse Frank. Segundo os curadores, foi neste momento que Leonardo fez uma transição da cultura para a pintura e fez da pintura sua vocação eterna.

 

Estudo para a Madona com cesto de frutas

Este desenho, que faz parte da coleção do Louvre, ilustra uma repentina mudança de estilo: da precisão de uma escultura dos desenhos de roupas, Leonardo mudou para uma forma de esboço impreciso e independente, se não desorganizado. As pernas do Cristo bebê, que agarra uma fruta do cesto e olha para a Virgem, são traçadas mais de uma vez, produzindo um resultado quase grosseiro. “Este é um artista que nunca terminava. Estava constantemente reformulando suas ideias”.

 

Retrato de um músico

Este é o único retrato de uma figura masculina feito por Leonardo e veio emprestado para a exposição das coleções da Biblioteca Amrosiana de Milão, de propriedade do Estado do Vaticano. Como a figura segura uma partitura, acreditou-se por um longo tempo que se tratava de um músico. Mas Delieuvin disse que imagens científicas recentes mostraram que a mão segurando a partitura não estava incluída inicialmente, de modo que a referência musical pode ser uma indicação da passagem do tempo e a natureza fugaz da existência. A pintura é “totalmente meditativa. É uma imagem de introspecção. A figura está perdida em pensamentos”.

 

São Jerônimo no Deserto

Este quadro é um empréstimo do Museu do Vaticano e um retrato inacabado do santo católico no deserto, envolto num lençol e de joelhos enquanto um leão ruge a seus pés. Segundo os curadores, a obra, que foi de propriedade da artista Angelica Kauffmann, é a ilustração perfeita de um dos temas chave para eles: de que Leonardo se permitiu ter a liberdade de deixar obras inacabadas. “Muitas das pinturas estão incompletas. Ele não é um artista interessado em produzir afresco aos quilômetros, pintar madonas e retratos sem fim. Ele deseja seguir no seu ritmo e pintar obras perfeitas”, disse Delieuvin.

 

La Belle Ferronnière

Esta beleza da Renascença é a figura feminina mais conhecida de Leonardo depois da Mona Lisa. E ao contrário da Mona Lisa, ela viaja. O Louvre a emprestou para a National Gallery de Londres para sua exposição de obras de da Vinci em 2011 e, mais recentemente, ela estava à mostra na inauguração do museu do Louvre de Abu Dhabi. Com a pintura desta mulher, que era ou a esposa ou a amante de Ludovico il Moro, Duque de Milão, Leonardo “muda o gênero do retrato”, disse Delieuvin. “Em vez de retratar a figura de perfil, como era costume em Milão na época, ele fez com que ela se vire e olhe quase que diretamente para o espectador. “É a personalidade, o sentimento interior e a alma que são revelados por meio do movimento da figura e deste olhar extraordinário”, acrescentou.

 

Estrela de Belém e de outras plantas

Este desenho botânico, exposto na seção de ciências da mostra, deriva de conjunto de desenhos conhecidos como Codex Windsor, de propriedade da Royal Collection da Inglaterra. É uma das dezenas de desenhos de plantas que Leonardo produziu como uma maneira de imaginar como elas crescem e melhor representá-las na pintura. É também uma obra de arte autônoma, disse o curador. “Não é só uma descrição científica; Leonardo colocou toda a energia da vida nela. Você sente o vento soprando nas folhas”.

 

Homem Vitruviano

Se houver um concurso dos desenhos mais famosos do mundo, Leonardo venceria com seu Homem Vitruviano. O famoso quadro com a dupla imagem de uma figura masculina nua com os braços e pernas esticados dentro de um círculo e um quadrado veio da Gallerie dell’Accademia, de Veneza. É um desenho anatômico inspirado na obra do arquiteto romano Vitruvio, e produzida quando Leonardo realizava uma pesquisa em matemática e geometria aplicadas aos seres humanos. Uma representação do homem idealmente proporcionado, um desenho de tinta sobre papel tão frágil que não é sempre que está à mostra para o público.

 

A Virgem e o Menino com Santa Ana

Esta pintura é “o testamento de Leonardo”, segundo Delieuvin – a única na qual ele trabalhou mais tempo. O mestre renascentista passou 20 anos aperfeiçoando esta obra e produziu mais esboços preparatórios dela do que no caso de qualquer outra pintura. Se Mona Lisa representa uma única figura, aqui são três figuras magnificamente entrelaçadas com uma elaborada paisagem de montanhas no fundo. Na opinião dos curadores do Louvre, esta é uma realização maior do que a Mona Lisa e São João Batista, outra obra na coleção do Louvre que, para Delieuvin, “talvez seja a mais reveladora, a mais ambiciosa e a mais completa pintura em termos de técnica pictórica”.

(TRADUÇÃO: TEREZINHA MARTINO)

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