Centro Cultural Banco do Brasil
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Exposição revela as distintas fases na pintura de Cícero Dias

Mostra é realizada no CCBB, no centro de São Paulo

Olívio Tavares de Araújo, ESPECIAL PARA O ESTADO

08 de junho de 2017 | 06h00

De que Cícero Dias (1907-2003) foi um grande artista, não resta dúvida. Entretanto, acontece-lhe um fenômeno raro, entre os de seu porte. Existem, dentro de um só, quatro Cíceros Dias bastante desiguais entre si, em estilo como em qualidade. Sua atual retrospectiva em São Paulo (aliás, primorosamente realizada) deixa isso muito claro. A arquitetura do Centro Cultural Banco do Brasil, um prédio antigo adaptado, obrigou a distribuir o conjunto em distintos andares, acentuando as fraturas. Impõe-se uma reflexão.

Dos quatro Cíceros, dois são mais conhecidos. O primeiro é o jovem pintor que, nas décadas de 1920 e 30, produziu paisagens com personagens a partir de suas vivências do sertão pernambucano, sobretudo aquarelas (mas também óleos) de sensível desenho, belo colorido e perfume chagalliano. Trata-se, esse, de um mestre precoce. O segundo é, de novo, um competente pintor figurativo que, nos anos 1960, retoma os mesmos temas, porém mais convencional e menos inspiradamente, sem conseguir resgatar a antiga poesia. No entremeio, menos conhecido, há, ao longo da década de 1950, um abstracionista geométrico puro, sem a mais mínima alusão à realidade exterior. E, antes dele, uma transição influenciada pelo surrealismo e pelo Picasso dos anos 1930, o que mais deforma a figura.

Uma geração mais moço que os modernistas históricos da Semana de Arte Moderna, Cícero não foi marcado pelos mesmos exemplos que eles, em especial a racionalidade do cubismo - que balizou fortemente a fase pau-brasil de Tarsila, a ponto de ela o chamar “o serviço militar obrigatório” do artista. Sua natureza era expressiva e lírica, nada cerebral, aparentando-se com a de Ismael Nery, outro de herança chagalliana também alheio à Semana. Como em Chagall e Nery, no nordeste do primeiro Cícero, personagens e outros filhos de sua fantasia - o casario, um braço solto, um par de tranças, um ramo de flores - podem esvoaçar pelo espaço, sobre céus azulinos, ou mergulhar por águas intensas, em meio à rica vegetação. É realmente bonito e bom.

 

Por certo, mudanças de fases são inerentes a artistas de temperamento inquieto e longa carreira. O mesmo Picasso é o exemplo por excelência: trocou sete vezes de estilo, coincidentemente (ou não?) à medida que também trocava de mulher. Mas, para que tais mudanças deem certo, tornando-se parte orgânica da trajetória da obra, é necessário que provenham de uma necessidade interior, da chegada a um novo patamar existencial e criativo. Não foi assim com Cícero Dias. Por que? Eis aqui uma hipótese heurística, uma possibilidade de explicação que não há como provar. Soará verdadeira para quem assim soar, e forçada (se não maldosa) para os demais. No ex-aquarelista pernambucano, a incursão de mais de dez anos pela pintura abstrata geométrica resultou de uma adesão ao momento, da vontade de se mostrar à la page, buscando espaço e sucesso no mundo europeu. Por isso, não funcionou. 

Ocorre que, em 1937, Cícero se muda para Paris, onde se torna amigo de Picasso. O impacto do encontro se traduz por alguns anos de grande influência. Além de quadros da época, mostra-se nesta exposição a ampliação de uma esclarecedora foto de seu ateliê de 1946, cheio de telas. Perderam toda a harmonia tão bem concertada da produção dos anos 20 e 30; perderam-lhe a característica, aliciadora sensibilidade; e não têm nada a ver, tampouco, com a força catártica do Picasso que lhes serve de modelo. Deixam-nos indiferentes - ou até ligeiramente irritados - porque soam postiças. O mais surpreendente é que estamos diante de um, dali a pouco, abstracionista geométrico. Não se percebe nessa pintura - que se supõe seja de transição - aquela inexorável depuração progressiva que caracteriza a caminhada de ex-figurativos em direção à geometria. Por exemplo, a de um Volpi, cujas paisagens (por coincidência na mesma época) vão-se transformando em cubos e pirâmides, cada quadro partindo exatamente do ponto em que ficou o anterior. Ou aquela aula de inteligência visual dada por Mondrian numa famosa série de árvores pintada entre 1909 e 1913. Salta aos olhos que, nos casos desses dois, a abstração geométrica teria mesmo de ser o coerente ponto de chegada de um processo vivido.

 

Em Cícero, não há coerência, há contradição. Se sua fase picassiana fosse efetivamente de transição, deveria dar na abstração informal ou lírica, feita de manchas de cor e pinceladas gestuais, e não na geometria, que é seu antípoda. A deformação anatômica é de índole expressionista e os expressionistas se tornam naturalmente abstracionistas informais, como Kandinsky. A troca daquele Picasso pela geometria viola a lógica interna de ambas as linguagens. A desagradável consequência é que, a despeito de toda a estima que Cícero Dias nos merece, sua pintura abstrata fica longe da dos verdadeiros mestres dessa tendência. Não está mal feita, não é incompetente. Mas não transmite convicção. Uma tela é de um jeito como poderia ser de outro. O todo carece de vitalidade (não de colorido - o que não é a mesma coisa). Se não fosse, esta, uma palavra perigosa, porque começa a entrar no terreno da ética, diria que lhe falta autenticidade, tout court. A alma de Cícero Dias não estava ali.

* OLÍVIO TAVARES DE ARAÚJO É CRÍTICO DE ARTE, CURADOR, DESENHISTA E ESCULTOR

CÍCERO DIAS - UM PERCURSO POÉTICO

Centro Cultural Banco do Brasil Rua Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651. 4ª a 2ª, 9h/21h. Grátis

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