Christian Cravo
Christian Cravo

Exposição reúne primeiras fotos de Christian Cravo na Bahia

As imagens, que a extinta editora Cosac Naify lançou em livro, em 2015, estão sendo exibidas pela primeira vez na exposição 'Northern Light, Southern Skies'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 05h00

Nascido em 1974, o fotógrafo baiano Christian Cravo era quase um menino quando veio passar uma temporada com o pai, o também fotógrafo Mário Cravo Neto (1947-2009), na Bahia, antes de voltar para a Dinamarca e cumprir o serviço militar. Filho de mãe dinamarquesa, Eva Christensen, a Bahia era um mistério para aquele garoto que, aos 17 anos, fazia suas primeiras fotos: retratos de meninos brincando na praia, fiéis diante de imagens religiosas ou carregando oferendas, trabalhadores em repouso. Esse esforço, ele conta, foi mais para conquistar o pai – que se separou da mulher quando ele tinha 5 anos – do que propriamente com o propósito de se tornar fotógrafo. As imagens, que a extinta editora Cosac Naify lançou em livro, em 2015, estão sendo exibidas pela primeira vez na exposição Northern Light, Southern Skies, que a Galeria de Babel mantém aberta até 31 de janeiro de 2021. São 32 fotos selecionadas entre variados formatos.

Mais que uma mostra com registros de um iniciante, a exposição – com fotos feitas principalmente entre 1991 e 1993 – revela um olhar inquieto para a realidade brasileira, não como o de um estrangeiro em busca do exótico, mas de um garoto disposto a reencontrar suas raízes. Passados todos esses anos, Christian Cravo resolveu revisitar esse passado e concluiu que muito do que faz hoje já estava presente nesse trabalho documental, em que o ser humano é protagonista, diferentemente das últimas obras do fotógrafo, produzidas no continente africano, em que o homem está ausente.

“É parte de um processo de autocrítica, rever a narrativa de outrora para entendê-la num sentido amplo”, resume Cravo, que já produziu oito livros desde seus primeiros passos na fotografia. São obras dedicadas a investigações de caráter etnográfico e religioso. Em busca de uma imagem sintética, que traduza a natureza (humana e selvagem), Cravo já registrou imagens de um Haiti arrasado por um terremoto, a paisagem árida das dunas africanas, a vida mística na Índia e a fé de pessoas simples no Nordeste, como fazia seu pai ao fixar marcantes imagens do candomblé da Bahia, embora não fosse, segundo o filho, um homem religioso.

O título da exposição faz referência tanto à luminosidade ofuscante do Nordeste brasileiro como à opaca luz dinamarquesa. Christian usa esse contraste de modo inteligente e sensível nessas fotos em preto e branco. “Poderia pegar uma foto dessas de 28 anos atrás e colocar ao lado de uma dessas fotos da África, e não veria grande diferença, pois elas usam parâmetros reconhecíveis”, observa Christian.

De fato, tanto nas fotos do Nordeste brasileiro como nos registros das crenças religiosas do Haiti, embora seja inegável seu caráter documental, o elemento expressivo não foi descartado, bem como a subjetividade do autor. As fotos da exposição são provas contundentes dessa sua necessidade do calor tropical, da vida comunitária que era mesmo um contraponto do isolamento nórdico na infância, vivendo numa casa com a mãe e a irmã. O rigor dessas imagens tem muito das formulações estéticas ditadas pela formação dinamarquesa, mas, com a mesma intensidade, projeta as paixões, a sensualidade e o lirismo dos trópicos.

“Para mim, fazer aquelas fotos era uma justificativa para ficar próximo do pai e do avô (o escultor Mário Cravo Jr.), que eu adorava, para deles roubar alguns momentos e conselhos, além, é claro, de voltar à Bahia, ao ‘útero’, como diria o Caetano (Veloso)”, resume Christian Cravo.

No momento, sua cabeça está em outro lugar. Mais precisamente, na África, onde pretende concluir, em 2023, a série que começou, fugindo um pouco do registro documental da vida humana e natural e se aproximando mais de um olhar contemplativo. Contra a excessiva produção de imagens do mundo digital, Christian quer cortar os excessos, evitar a verborragia contemporânea, abraçando a abstração. “O fotógrafo só tem a imagem, não tem o poder da palavra”, diz ele, consciente de que sua retórica econômica está a serviço da limpeza formal e da criação de uma nova espacialidade, ditada por uma narrativa poética. A exposição de Christian Cravo pode ser vista presencialmente, respeitadas as recomendações das autoridades sanitárias. 

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