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Exposição reúne obras dos amigos Iberê Camargo e Stockinger

Mostra na Galeria Frente, que será aberta hoje (22), às 11 horas, tem trabalhos raros do pintor e do escultor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2018 | 06h00

Dois nomes que representam o Rio Grande do Sul no cenário moderno brasileiro, o pintor gaúcho Iberê Camargo (1914-1994) e o escultor de origem austríaca, naturalizado brasileiro, Francisco “Xico” Stockinger (1912-2009) foram grandes amigos e confidentes. Um retrato do escultor pintado por Iberê em 1984, comprado da família de Stockinger, levou o marchand Acácio Lisboa, proprietário da Galeria Frente, a organizar uma exposição em homenagem aos dois, que será aberta hoje (22), a partir das 11 horas. Trata-se de uma oportunidade valiosa de observar a ressonância que a obra de um teve no trabalho do outro – é possível, por exemplo, identificar nos volumosos corpos da série Gabirus (1995), de Stockinger, os trágicos personagens da derradeiras telas de Iberê Camargo.

Até porque as últimas pinturas, por suas dimensões e raridade, estão em coleções de difícil acesso, não há na mostra nenhuma tela dos anos 1990. Em contrapartida, há muitas da década de 1980, entre elas obras da série Ciclistas, um dos grandes momentos do Iberê do último período. Nela, o pintor registra suas impressões de pessoas pedalando no parque da Redenção, na capital gaúcha, invariavelmente retratadas como seres desproporcionais e em primeiro plano.

Essas criaturas parecem emergir de um texto de Camus: seguem adiante, sem direção, num embate com o fim da experiência existencial. Há nisso, evidentemente, um diálogo áspero com a morte, tanto quanto os “gabirus” de Stockinger, seres subnutridos e nanicos, assim chamados pejorativamente com base na origem tupi do nome, que significa algo como “ratos de paiol’. Vale lembrar que, a despeito do volume das figuras de bronze de Stockinger (na exposição), a remissão às figuras esquálidas de um Giacometti aproximam conceitualmente os dois – em ambos os casos, são seres em decomposição, no limiar do desaparecimento, como os dois guerreiros mutilados de Stockinger reproduzidos aqui.

Iberê conheceu Stockinger em 1947, no ateliê de Bruno Giorgi, no Rio. Ficariam afastados durante 30 anos – o primeiro vivendo em Porto Alegre e Iberê continuando a morar no Rio, que trocou pela capital gaúcha após a trágica briga em que se envolveu na rua Sorocaba, em 1980, e que acabou em morte (Iberê atirou no engenheiro Sérgio Alexandre e foi preso, sendo posteriormente absolvido ao alegar legítima defesa). No retorno a Porto Alegre, os laços de amizade com Stockinger ficaram mais estreitos. Iberê deixou no Rio de Janeiro grandes pintores que foram seus alunos, entre eles Eduardo Sued, Carlos Vergara e Carlos Zilio.

Aluno de Guignard no Brasil e do metafísico italiano Giorgio de Chirico quando morava na Itália, Iberê Camargo foi um grande mestre, que trabalhou tanto no campo figurativo como abstrato. Muitos associam a retomada da figuração nos anos 1980 ao episódio da briga no Rio, mas vale lembrar que sua paleta já era escura no fim dos anos 1950, quando uma hérnia de disco o obrigou a se isolar no ateliê e a buscar em suas memórias e nos objetos que o marcaram material para sua pintura. Os carretéis de linha de sua infância, dispostos sobre a mesa, evocam os tempos de menino em Restinga Seca, onde o pai era ferroviário. Esses mesmos objetos, mais tarde, seriam transfigurados e desfigurados em arranjos abstratos construídos com uma densa massa pictórica (há exemplos na mostra).

Essa pintura de cores escuras contrasta com trabalhos do começo dos anos 1950 expostos na Galeria Frente, telas produzidas por Iberê na época em que protestava contra as altas taxas de importação de material artístico, a ponto de organizar com Milton Dacosta o polêmico Salão Preto e Branco (no edifício do MEC, em maio de 1954), em que, como sugere o nome, predominavam trabalhos nessas duas únicas cores. Iberê e Stockinger sempre foram dois artistas combativos – e uma série de esculturas de Stockinger, Sobreviventes (também na mostra), iniciada em 1971, usa ossos de animais amalgamados com o bronze numa vigorosa denúncia contra a mutilação de corpos nas guerras. Considerando a série posterior dos gabirus, é possível afirmar que tanto Stockinger como Iberê colocam em evidência a miséria humana. E incomodam.

Iberê é a antítese das flores tropicais de Beatriz Milhazes. Nele, o sol, quando aparece, enfrenta um eclipse de Antonioni. A exemplo de Cézanne, o gaúcho considerava a vida “assustadora”, o que justifica sua paleta nada solar, mais próxima da melancolia metafísica de seu mestre De Chirico e dos pintores europeus que admirava. Surpreende, portanto, a presença na mostra de paisagens de tons claros, pintadas nos anos 1950 e claramente marcadas pelos ensinamentos de Guignard.

O marchand Acácio Lisboa conseguiu ainda cinco desenhos raros do pintor produzidos nos anos 1980. Cerca de 90% das obras expostas estão à venda (por preços que variam de R$ 120 mil a R$ 1 milhão, no caso de Iberê). Ainda que sua presença no mercado brasileiro seja discreta, lembra Lisboa, as casas de leilão internacionais têm vendido pinturas do gaúcho por volta de US$ 400 mil. Aqui, a última exposição de Iberê aconteceu há 18 anos, o que dá a medida de como sua obra, embora canônica, ainda enfrenta rejeição no país das trevas. 

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