LÚCIA GUIMARÃES/ESTADÃO
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Lúcia Guimarães
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Exposição reúne no MoMA esculturas criadas por Picasso durante 60 anos

Peças do artista mais célebre do século 20 são exibidas em ordem cronológica em 11 salas do museu

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2015 | 19h00

NOVA YORK - Quem precisa de argumentos para visitar uma retrospectiva de Pablo Picasso? A atração previsível pelo artista mais célebre do século 20 não deve inspirar complacência. A exposição Picasso Sculpture inaugurada no Museu de Arte Moderna de Nova York não é mais uma exposição da obra que tantos acreditam conhecer. É um evento que justifica o clichê “a chance de uma vida.”

O MoMA liberou as onze salas que exibem parte de sua coleção de arte do pós-guerra no quarto andar e instalou 60 anos de esculturas de Picasso em ordem cronológica, de 1902 a 1964. Ao percorrer a mostra, o visitante não pode ser culpado se balbuciar espontaneamente nomes de outros artistas como Alexander Calder ou Robert Rauschenberg. Como disse ao Estado a curadora Ann Temke: “Você se depara com uma obra e vem a memória de toda a carreira de outro artista”.

Há uma explicação para a escultura de Picasso, com algumas exceções, como a famosa Cabra que habitava o jardim de museu, não ter sido reunida com frequência. Picasso o filho de pintor, treinado como pintor, não se levava a sério como escultor. Não considerava as esculturas vendáveis ou tema de exposição. Ele as guardava em casa e no estúdio, misturadas aos objetos da decoração. Depois de sua morte, em 1973, a organização do espólio permitiu que obras fossem adquiridas por outras coleções. Mas o Musée Picasso de Paris é a mina de ouro que tornou possível a retrospectiva do MoMA. Ainda que as esculturas ficassem longe do público, elas foram vistas por artistas que visitavam Picasso. Só no período que precede a Primeira Guerra, Ann Temke vê as conexões entre as visitas e as obras do russo Kazimir Malevitch e do italiano Umberto Boccioni.

O diálogo do pintor com o escultor é constante. A escultura, diz Temke, se adaptava ao temperamento irrequieto de Picasso, que se permitia improvisação no meio. Na década final representada na mostra, em que predomina o metal, ela se diverte com a ideia do artista mais rico da história frequentando ferro velhos em busca de objetos.

A geografia da mostra permite também apreciar a vertiginosa rapidez de mudanças de linguagem e a manipulação de materiais – barro, gesso, bronze, cartolina, alumínio. É preciso uma pausa para lembrar que este artista tinha uma visão da escultura do século 19. Ele deu as costas para a tradição no meio com um vigor e um abandono que, agora podemos compreender, deixaram marcas em gerações de artistas no século 20, como Alexander Calder e Robert Rauschenberg.

No departamento de chances únicas, há a primeira reunião dos seis copos de absinto, cinco deles dispersados pelo então marchand do artista no começo da Primeira Guerra e leiloados em 1920, com exceção do que Picasso guardou. 

A influência da arte africana sobre a pintura de Pablo Picasso é conhecida. É só admirar as sublimes Demoiselles D’Avignon que moram no quinto andar do MoMA. Mas só quando apreciamos a obra em escultura a conexão fica mais evidente e compreensiva. Ann Temke lembra que a visita de Picasso ao Museu Etnográfico de Paris, em 1907, por sugestão do amigo e pintor André Derain, foi um divisor de águas. “A noção de fazer um espírito habitar uma figura vem daí”, diz ela. “Você não olha para escultura europeia daquele tempo e pensa neste poder mágico.”

A curadora vê na representação erótica das formas femininas uma âncora do diálogo entre o pintor e o escultor. “Ele estava mapeando a renovação de sua linguagem em duas e três dimensões ao mesmo tempo.”


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