Paulo Kuczynski Escritório de Arte
Paulo Kuczynski Escritório de Arte

Exposição reúne gravuras raras de Goeldi

Coleção que pertenceu à artista Lygia Pape é exibida, a partir de hoje (7), no Escritório de Arte Paulo Kuczynski

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2019 | 06h00

Num texto publicado há alguns anos, o crítico Ronaldo Brito, destacando a ressonância da gravura de Goeldi entre os contemporâneos, escreveu que sua obra “é a única que mantém um diálogo vivo com a arte moderna brasileira, desde que ela atinge a sua maioridade, no início dos anos 1950, até nossos dias”. E citava uma série de artistas que, de alguma forma, fizeram uso dessa herança: Amilcar de Castro, Iberê Camargo e Lygia Pape, que, nos anos 1960, segundo Brito, fizera uma associação original entre a xilogravura brasileira, inspirada em Goeldi, e o construtivismo geométrico. Como prova disso associou uma premiada xilogravura de Goeldi, Silêncio (1957), a outra xilo de Lygia Pape, Tecelar (1958), que faz referência ao mestre com linhas diagonais e quadrados que remetem às janelas e linhas das casas da paisagem saturnina do artista – uma paisagem com dois solitários que Brito define como sua versão pessoal de “minimalismo expressionista”.

Goeldi e Lygia Pape foram amigos íntimos. Ela e o marido, o químico Günther, colecionavam as xilogravuras do artista, nascido no Rio de Janeiro em 1895 e morto na mesma cidade, em 1961. E é parte dessa mesma coleção que o marchand Paulo Kuczynski exibe, a partir de hoje (7), em sua galeria. São 62 obras (gravuras e desenhos) compradas por ele e mais dois amigos (Afonso Costa e Gerard Loeb) há mais de 30 anos e outras 26 pertencentes a outros colecionadores.

Muitas dessas 88 obras estiveram presentes em exposições históricas (Brasil 500 Anos, entre elas). Outras são praticamente desconhecidas do grande público, mas todas igualmente importantes – a ponto de despertar o interesse de um museu, que entra na disputa com colecionadores. Silêncio, a citada xilogravura que foi premiada na segunda edição da Bienal Interamericana do México, em 1960, está na exposição. É uma oportunidade única de atestar a proximidade de Goeldi e Lygia Pape e confirmar a observação de Ronaldo Brito em relação à “redução formal” de Goeldi destacada pelo crítico.

Sobre essa redução estar associada invariavelmente à condição existencial do homem moderno, inserido num cenário hostil, outro grande crítico que escreveu a respeito de Goeldi, Rodrigo Naves, destaca a solidão que as figuras marginais, beckettianas, do artista – prostitutas, carroceiros, bêbados, ladrões – não conseguem ocultar.

Uma “gravidade sombria”, observou Naves, “recobre o mais banal dos atos” nas gravuras de Goeldi, em que a morte revela seu perfil “agourento”, ameaçando a todos com sua presença ostensiva. É possível notar nessas gravuras traços de artistas como o expressionista austríaco Alfred Kubin (1877-1959) e o belga James Ensor (19860-1949).

Entre as 88 obras de Goeldi em exposição no Paulo Kuczynski Escritório de Arte, muitas delas revelam a influência de expressionistas europeus que foram amigos pessoais do artista brasileiro, como  Kubin (1877-1959), com quem Goeldi manteve uma correspondência regular. Outra grande influência foi o belga James Ensor (1860-1949) – especialmente sua sarcástica relação com a figura da morte, fruto da influência dos holandeses, nunca esquecendo que o próprio Goeldi admirava as experiências de Seghers, um contemporâneo de Rembrandt.

Como Seghers, Goeldi foi um artesão inventivo que viveu entre pessoas do povo, bêbados e miseráveis. No entanto, nem mesmo a falta de dinheiro e a identificação com os deserdados foram capazes de transformar Goeldi num artista engajado. Ele tampouco se deixou seduzir pela abstração – em alta nos anos 1950, após a realização da 1.ª Bienal de São Paulo (da qual participou). Sua modernidade é atestada pelos procedimentos técnicos que inovaram a linguagem da gravura, sintética graças às incisões minimalistas e um cromatismo ainda mais econômico.

Ainda que não seguisse o caminho de Portinari, é possível atestar pelas gravuras da mostra o interesse social de Goeldi, que passa pelo retrato dos personagens desesperados de Dostoievski – ele ilustrou várias traduções de seus livros, seguindo a trilha de Kubin, também ilustrador dos livros do russo. Sempre com o dinheiro escasso, era desse trabalho gráfico que Goeldi tirava seu sustento – ele foi, invariavelmente, a primeira opção de José Olympio para ilustrar os livros de sua editora. Goeldi ilustrou obras importantes do modernismo literário brasileiro como Canaã, de Graça Aranha, e Cobra Norato, de Raul Bopp.

Mas era o contato com os pescadores do Leblon que mais o entusiasmava a criar. Kuczynski destaca a série de gravuras sobre o tema no acervo da coleção original de Lygia Pape. Essa simplicidade contrasta com o homem culto, que passou a adolescência em Berna, filho de um naturalista suíço, e que conhecia profundamente história da arte, a ponto de discutir o assunto em pé de igualdade com Kubin (do grupo Der Blaue Reiter) e frequentar o ateliê de Hermann Kümmerly.

Numa carta a Kümmerly, Goeldi revelou que se sentia como um exilado em sua própria terra, sentimento que só cresceu com o passar dos anos. É de se supor, portanto, que o contato com os pescadores – ele acompanhava todas as madrugadas o desembarque do peixe no Leblon – fosse um chamado à concretude, num mundo povoado de visões surrealistas, fantasmagóricas, em que a morte surge como a companheira inseparável de seus personagens – bêbados que vagam pela noite, prostitutas de rua em busca de clientes e vagabundos solitários acompanhados de cães famintos (um deles um mendigo de Ipanema com quem bebia).

No ateliê da Tijuca, Goeldi adaptava os desenhos de observação à dureza da madeira de demolição, muitas vezes com algumas doses a mais que o faziam tremer ao pegar a goiva. No entanto, a perfeição técnica dessas xilogravuras é tamanha que cada obra é única, mesmo que os temas se repitam. Goeldi cria um mundo em que não existe mais a fronteira entre público e privado. Há na exposição gravuras em que os móveis da casa surgem no meio da rua como num cenário teatral. Sem destino, seus personagens solitários que vagam pela noite são absorvidos pela própria sombra, por vezes arrastados pelo vento ou consumidos por uma tempestade que não poupa o único elemento simbólico da segurança, o guarda-chuva, objeto onipresente nas xilogravuras de Goeldi.

Embora seja impreciso associá-lo ao simbolismo de um Böcklin, é possível ver em algumas delas – em Fuga (1959), por exemplo – a luta do ser humano e a natureza, como num a versão gráfica da literatura de Melville. Dos agourentos urubus a peixes gigantescos, quase monstros marinhos, Goeldi mostra o homem nesse desigual conflito com a morte. Não é exatamente para todos os olhos.

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