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Exposição reúne expoentes do Grupo Santa Helena

Mostra na Galeria ProArte tem pinturas de Volpi, Bonadei, Rebolo e Zanini, entre outros que participaram do ateliê coletivo, que completou 80 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2016 | 04h00

Demolido em 1971 para dar lugar à estação Sé do Metrô, o palacete Santa Helena, construído em 1925, passou à história por ter abrigado o ateliê do Grupo Santa Helena, na sala 231. Formado por Bonadei, Rebolo, Volpi e Mário Zanini, entre outros pintores, o grupo, criado há oito décadas, ganha uma exposição que reúne nove dos seus integrantes, cada um deles representado por sete obras, tanto pinturas de época como trabalhos posteriores. Tendo como curador o crítico Enock Sacramento, a exposição Grupo Santa Helena – 80 Anos, que foi inaugurada ontem, dia 17, na galeria ProArte, antecipa uma onda internacional em torno da sua principal figura, Volpi, que será objeto de uma mostra organizada pela crítica Aracy Amaral no MAM de São Paulo e de outra – esta internacional – na galeria Cecilia Brunson Projects, em Londres, ambas em junho.

Volpi, representante da segunda geração de modernistas brasileiros, domina, claro, a exposição. É, de fato, o maior entre os modernos paulistas. A exposição londrina deve abrir as portas para sua consagração definitiva na Europa (a Tate Modern já mostrou interesse em expor sua obra). Dele, o curador conseguiu telas raras que estão em mãos de colecionadores particulares, como um pequeno óleo de 1940, que retrata uma rua de Itanhaém e revela sua inteligência visual, além de sua autonomia estética em relação ao grupo, apesar da amizade que uniu todos os seus integrantes – “ele e Zanini eram chamados de Cosme e Damião por sempre andarem juntos”, observa o curador Sacramento.

 

Quem primeiro ocupou o palacete Santa Helena, em 1933, segundo o curador, foi Francisco Rebolo, ex-jogador do Corinthians, que alugou uma sala vizinha ao futuro ateliê de Mário Zanini, separados apenas por uma porta. Zanini trouxe outros pintores operários para dividir o aluguel e o jeito foi derrubar a porta para ampliar o estúdio, ocupado à noite com sessões de modelo vivo. Fulvio Pennacchi, que gostava de pintar a figura humana, é autor de belos retratos de seus companheiros exibidos na mostra.

Como Pennacchi, todos os pintores do grupo eram de origem humilde, imigrantes italianos ou descendentes destes. Volpi pintava afrescos em casas de família. Clóvis Graciano morava num vagão de trem da Estrada de Ferro Sorocabana e pintava placas. Bonadei era figurinista. Alfredo Rizzotti era torneiro mecânico. Enfim, nenhum deles pertencia ao segmento burguês ao qual estavam atrelados os pintores do primeiro modernismo da Semana de 22. “Os modernos diziam que o grupo era acadêmico, achavam que seus integrantes eram influenciados pelo Novecento italiano, enquanto os acadêmicos diziam que eles eram modernos”, observa o curador.

De qualquer modo, o certo é que nenhum deles, como testemunhou Rebolo em 1945, tinha grande apreço pelos acadêmicos ou pretendia fazer uma pintura narrativa, anedótica. Não eram “tradicionalistas”, como os definiu o crítico Geraldo Ferraz. O curador Sacramento selecionou, por exemplo, uma tela de Pennacchi – mais conhecido por sua reverência a Giotto e Cimabue, dois precursores da pintura renascentista – que surpreende por sua aproximação com os muralistas mexicanos, observa o curador. De fato, sua tela O Arado (1935) remete aos murais de Orozco e Siqueiros, não em escala, mas em conteúdo social.

“Pennacchi chegou ao Brasil em 1929, em plena crise, trabalhando em várias frentes, como os outros santelenistas”, lembra o curador, destacando a reverência do escritor e crítico modernista Mário de Andrade ao trabalho do grupo de artistas, que ele chamava de “pintores proletários”. Havia, diz Sacramento, uma espécie de “socialização cultural” no convívio do grupo, notável desde a primeira exposição dos pintores do Santa Helena, em 1937, na agremiação Família Artística Paulista, criada pelo empresário Paulo Rossi Osir, para o qual Volpi e Zanini criaram azulejos. A “Família”, um agrupamento moderado, que mantinha cautelosa distância da vanguarda, abrigou os santelenistas ao lado de figuras já conhecidas, como Anita Malfatti, então já distante dos modernos de 1922 e mais próxima dos tipos populares que habitam as telas de Clóvis Graciano, de quem é possível ver na mostra algumas telas com cenas da vida nos bairros periféricos de São Paulo.

Tendo começado a vida como pintor de frisos de caminhões, Graciano aproximou-se de eruditos como Waldemar da Costa e estudou desenho e pintura. Era o intelectual da turma que, entre os nomes menos conhecidos, abrigou Humberto Rosa e Manoel Martins. Todos integram a mostra dedicada ao Grupo Santa Helena.

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