Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Exposição reúne a arte plural de Ivan Serpa

‘A Expressão do Concreto’ será aberta no Rio com mais de 200 obras

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 08h00


RIO - Expoente do modernismo brasileiro, Ivan Serpa terá finalmente uma grande retrospectiva de sua obra exibida ao público carioca - e, até o fim do ano, para o de outras três capitais do País, incluindo São Paulo. A exposição Ivan Serpa - A Expressão do Concreto será aberta ao público na quarta-feira, 4, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio. Será a chance de conhecer mais de 200 obras do artista que ao longo da carreira variou conceitos e que para alguns é considerado o “Picasso brasileiro”.

Com curadoria do jornalista Marcus de Lontra Costa e do professor e historiador de arte Hélio Márcio Dias Ferreira, a exposição reúne peças de importantes coleções particulares, de galerias e da família do artista, morto em 1973 aos 50 anos. “Reunimos um conjunto expressivo de obras do Ivan, que começou a produzir intensamente a partir dos anos 1950 até a data de seu falecimento, em 1973”, explica Costa. “Nesses cerca de 20 anos temos uma produção impressionante, com variações formais, conceituais, estéticas, que reproduzem de certa maneira todo o clima, todas as tensões, as diferenças que aconteceram nesse período.”

A exposição ocupa todo o 1.º andar do CCBB. “Temos pinturas, desenhos, gravuras e algumas obras inéditas. Há, por exemplo, um álbum de fotografias. O Ivan participou como membro do Comitê da França Livre, e trabalhou nesse álbum de retratos ainda na juventude”, conta Ferreira. “É de propriedade da família e nunca foi mostrado.” Entre as obras está um caderno de desenhos com os últimos traços pintados por Serpa. “Ele foi feito três dias antes de sua morte”, destaca o professor.

Nas duas décadas em que produziu com intensidade, Ivan Serpa passou por diversas fases - todas elas retratadas nos diferentes ambientes da exposição. “Ivan tinha hábito de fazer intervenções sobre convites. Ele fazia intervenções com séries de bichos e de mulheres. Teve também uma fase chamada Antiletra, em que trabalhava sobre papel impresso, criando uma nova caligrafia. No fim dos anos 1960, início dos 70, ele fez um conjunto de móveis trabalhados por dentro”, diz Ferreira.



Ambientes mais claros, com luzes vermelhas ou com aspecto mais soturno ajudam o público a se inserir ainda mais na exposição. E essas mudanças vistas a cada novo ambiente também são uma forma de fazer o visitante se surpreender.

“Quando visitamos uma exposição, a tendência natural é buscarmos uma coerência facilmente perceptível. Aqui ela não é”, afirma Marcus Costa. “A proposta que fazemos ao público é que primeiro se deixe encantar por esse universo criativo do Serpa, que nunca se preocupou em fazer parte de uma escola, de uma vertente artística.”

Serpa tinha grande paixão pela França e chegou a morar um período por lá, o que influenciou sua formação, mas não anulou a preocupação com suas raízes. “A geometria da fase final de sua vida retrata toda a experiência de um homem sofisticado, de cultura francesa, mas ao mesmo tempo de um homem que jamais abandonou seus compromissos, sua família, seu país, sua gente”, explica Costa. “Ele passou boa parte da vida no Méier, um bairro característico da zona norte do Rio, de grande história e potencial criativo.


 


Ivan nunca abandonou suas raízes. Foi um brasileiro interessado na construção de um país que tivesse uma estética particular, uma linguagem específica. Foi também um carioca, um torcedor do Flamengo e da Mangueira”, pontua.

Para Dias Ferreira, a retrospectiva sobre Serpa também serve para refletir sobre o momento no País. “O Brasil atravessa uma série de questões de esquecimento, de abandono, e essa é a possibilidade de ver aquele que foi principalmente um professor de arte, aquele que pode fomentar a arte”, diz, antes de resumir o que o público vai ver no CCBB. “Costumo chamar o Serpa de Picasso brasileiro, e acho que é isso que as pessoas podem esperar da exposição. Elas vão encontrar as obras de um dos maiores gênios da arte brasileira.”

A mostra fica no Rio até maio. Depois, será levada a São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

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