Rômulo Fialdini/MAM
Rômulo Fialdini/MAM

Exposição no MAM resume o percurso do abstracionismo informal

Mostra terá obras dos anos 1940 em diante, assinadas por Antonio Bandeira, Tomie Ohtake e outros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2018 | 06h00

Convencido de que o abstracionismo geométrico acabou por eclipsar a corrente informal da arte abstrata brasileira, o curador do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, Felipe Chaimovich, prepara há um ano, com a ajuda do crítico Lauro Cavalcanti, diretor do Instituto Casa Roberto Marinho, a exposição Oito Décadas de Abstração Informal, que será aberta hoje, 16, às 20 horas, no museu, com 36 obras do instituto carioca e 47 do MAM/SP.

Organizada de forma cronológica, a mostra começa com os pioneiros da abstração informal no Brasil, nos anos 1940, em atividade bem antes da abertura da primeira edição da Bienal de São Paulo (1951), vista por alguns como o marco zero do abstracionismo brasileiro. É bem certo que a exposição começa com uma pintora de matriz europeia, a portuguesa Vieira da Silva (1908-1992), naturalizada francesa em 1956, que é classificada por historiadores ora como tachista, ora como expressionista. Mas a maioria dos artistas presentes nasceu no Brasil. E certamente muitos deles aprenderam grandes lições com a pintura de Vieira da Silva.

Essa questão nacionalista, aliás, atrapalhou o desenvolvimento da abstração informal no País, argumenta Chaimovich. O que vingou foi o abstracionismo geométrico, em especial a corrente concreta pela qual a arte brasileira é mais conhecida lá fora. Chaimovich considera essa uma injustiça – até política – contra artistas que se mantiveram fiéis ao informalismo. O cearense Antonio Bandeira, por exemplo, foi para Paris em 1946 com uma bolsa e passou lá a maior parte de sua vida. Só agora deve ganhar um catálogo raisonné, ainda em preparo. 

A exposição do MAM é a primeira realizada em parceria com o Instituto Casa Roberto Marinho do Rio de Janeiro, instalado na residência do falecido dirigente das Organizações Globo, no Cosme Velho, e que será aberto ao público em março. Marinho (1904-2003) reuniu um acervo invejável. Pertencem a essa coleção quase todas as obras expostas nas salas dedicadas às décadas de 1940, 1950 e 1960. De 1970 até 2012, a maior parte dos trabalhos da mostra é do acervo do MAM.

Entre as obras mais antigas da coleção Roberto Marinho estão uma tela de Vieira da Silva (de 1949) e uma rara escultura de Maria Martins (1894-1973), forma orgânica (de 1954) que atraiu a atenção dos surrealistas franceses, em especial André Breton, que convidou a artista mineira a integrar o grupo de Max Ernst, Roberto Matta e Yves Tanguy. Há apenas outras três esculturas na mostra: uma do paulistano (radicado no Rio) Ângelo Venosa, outra de Márcia Pastore e uma terceira de Frida Baranek.

Como os três últimos, alguns artistas que começaram a carreira nos anos 1980, entre eles os integrantes do grupo Casa 7 – Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Nuno Ramos e Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade –, historicamente definidos como neoexpressionistas, foram incluídos na exposição do abstracionismo informal por ter a curadoria considerado a ressonância da escola nas últimas três décadas. São 38 os artistas da mostra, alguns muito conhecidos, como Tomie Ohtake, e outros que, a despeito do grande talento, permanecem ainda sob uma luz crepuscular.

“É o caso de Yolanda Mohalyi”, cita o curador Felipe Chaimovich, chamando a atenção para outras mulheres artistas que não tiveram a mesma projeção de Tomie: Laurita Salles e Maria Bonomi. Yolanda Mohalyi (1909-1978), pintora húngara que chegou ao Brasil em 1931, formada no ambiente expressionista alemão, foi professora de Maria Bonomi. É preciso que algum museu siga o exemplo do MAM e organize uma individual dessa grande artista, premiada na 7.ª Bienal (1963) e injustamente esquecida no país que adotou.

Chaimovich lembra que o MAM já nasceu sob o signo da abstração. A primeira exposição do museu, que completa 70 anos em 2018, chamava-se justamente Do Figurativismo ao Abstracionismo (1948). Obras que estiveram na mostra serão exibidas numa retrospectiva que o MAM organiza e será aberta em setembro deste ano.

“Ao contrário dos abstracionistas geométricos, em particular os concretos, os abstracionistas informais seguiram um caminho solitário, o que explica, em parte, o isolamento a que foram confinados”, analisa o curador Chaimovich. “A inexistência de coletivos entre os informais, como o grupo Frente, marco do movimento construtivo, foi um fator que pesou muito nesse ostracismo”, conclui.

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