Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Exposição no Instituto Tomie Ohtake reúne obras da padroeira do pop

Leda Catunda é a ponte entre a sua geração, dos anos 1980, e os jovens pintores, como comprova sua mostra individual 'I Love You Baby'

Antonio Gonçalves vFilho, O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2016 | 05h00

Há 33 anos, quando Leda Catunda fez sua primeira exposição individual, seus contemporâneos estavam sintonizados com a onda neoexpressionista que marcou a pintura nos anos 1980. Ela, não. Seus interlocutores, na época, eram poucos: Sergio Romagnolo, Leonilson e mais dois ou três nomes. Hoje, graças ao diálogo fácil com a nova geração, ela transita entre jovens artistas como a paulistana Ana Elisa Egreja, nascida em 1983, ano da primeira exposição de Leda, a mineira Ana Prata, três anos mais velha, e o carioca Rafael Alonso, também de 1983, o que faz de Leda Catunda a padroeira pop da novíssima geração, graças à abertura da artista para nova linguagens e sua tentativa de entender, de fato, o que está por trás da cultura de massa e da iconografia da web.

Na exposição I Love You Baby, que Leda abre hoje, 10, no Instituto Tomie Ohtake, estão expostos cerca de 80 trabalhos que cobrem o mais recente período de produção da artista (de 2003 em diante) e reafirmam sua ligação com o pop norte-americano – especialmente as “combines’ de Rauschenberg, nas quais o artista texano empregava materiais pouco usuais em assemblages. No caso de Leda, essas “combines” têm uma ligação estreita com o artesanato, o que a aproximaria do pós-moderno Jeff Koons, associado à cultura pop e às referências ao cotidiano.

 A diferença é que, ao contrário de Koons, ela não vê o mundo com olhar paródico. “Koons é duchampiano, enquanto o repertório de Leda é pictórico”, observa o curador da exposição, Paulo Miyada, que a concebeu como mostra inaugural do projeto Nossas Artistas, criado pelo Instituto Tomie Ohtake para contar a história da arte brasileira por meio da produção de mulheres artistas, de Tarsila do Amaral a Anna Maria Maiolino.

 A modernista Tarsila do Amaral, lembra Leda Catunda, é outra referência de sua pintura, repleta de figuras enigmáticas que têm algum parentesco com os bichos exóticos da criadora do Abaporu. Eles se espalham por toda a mostra, em especial nas gravuras expostas à direita da porta de entrada.

A pintura atual, analisa a autora, “é quase uma negação daquela dos anos 1980”. Leda prefere a palavra “tingimento” para se referir aos objetos que cria com molduras almofadadas de manta acrílica e imagens do universo pop. Há na mostra desde pranchas de surfe até recortes de madeira que imitam renda nordestina. “O raciocínio é de collage”, define, assumindo seu lado Kurt Schwitters, o protopop alemão que revolucionou a arte entre os anos 1920 e 1930 com suas colagens dadaístas.

As de Leda Catunda se aproximam da reciclagem poética de Schwitters ao trabalhar com reverência signos da cultura de massa – anúncios, bichinhos fofos da internet, iconografia das bandas de rock, caveiras dos góticos e selfies. “Quero reforçar o caráter amoroso do fim do capitalismo, do consumo indiscriminado, essa obsessão por pertencer a um grupo”. Ela chegou a dar aulas de pintura para surfistas, que, em reconhecimento, encheram seu ateliê de miniboards e funboards, algumas pintadas pela artista e expostas num imenso painel.

A incorporação desse repertório visual – tanto o dos surfistas como o dos youtubers – não significa que, ao se apropriar dos elementos da cultura de massa, Leda persiga uma estética camp. Ela, como diz Miyada, não é paródica nem elegíaca. “A graça desse trabalho é que Leda não julga, aceita o excesso de imagens de nosso tempo, mas não entra nesse turbilhão”.

A artista, que passou um tempo como artista residente na China, ficou impressionada com o vertiginoso ritmo com que os chineses imprimem imagens do mundo todo nos mais variados suportes. “Eles criam até tecidos africanos com a nova tecnologia, o que dá o que pensar sobre nosso mundo visualmente saturado de imagens”. Duas dessas reflexões, Ásia 1 e Ásia 2, destacam-se na exposição, entre obras que saíram diretamente da observação direta em campo ou das redes sociais na internet.

Uma delas foi baseada numa modelo real, ex-funcionária da galeria de arte que comercializa o trabalho de Leda, a Fortes Vilaça. A moça, tímida na vida real, é a rainha do selfie na internet. Sua imagem, multiplicada, faz refletir sobre a uniformização cultural que tomou conta do globo e a superexposição em redes sociais de pessoas vulneráveis e reservadas que adotam uma persona para sobreviver em sociedade.

Por fim, uma pesquisa no Google cruzando as palavras sexo e romance renderam outra obra (I Love You So Much) em que casais trocam beijos afetuosos e juras de amor, ampliando o repertório kitsch de Leda.

LEDA CATUNDA

Instituto Tomie Ohtake. Rua Coropés, 88, tel. 2245-1900. 3ª a dom., 11h/20h. Abertura sexta (10), às 10h. Até 15/1. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.