A. De Barros Lobo
A. De Barros Lobo

Exposição nega fama do Brasil pacífico

Mostra no IMS do Rio reúne fotos de conflitos entre 1889 e 1964

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 06h02

RIO - A história do Brasil é bem mais sangrenta do que se aprende na escola. A premissa norteia a exposição Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio. O público encontra um potente conjunto de 338 imagens de embates que envolveram o Estado, por meio das Forças Armadas, e grupos que se insurgiram contra o status quo - uma boa parte delas, registrada por pioneiros da fotografia documental no País.

São revoltas ocorridas a partir da Proclamação da República e presentes em todos os livros de história, como a Revolução Federalista (1893-1895), de disputa pelo poder no Rio Grande do Sul; a Guerra de Canudos (1896-1897), liderada por Antônio Conselheiro, na Bahia; e reações à deposição de João Goulart e à instauração do regime militar (1964).

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Já o Levante dos Colonos, no Paraná (1957), e as insurreições de Jacareacanga, Pará, e Aragarças, Goiás (em 1956 e 1959), em que integrantes da Aeronáutica tentaram derrubar Juscelino Kubitschek, são menos comentadas pelos professores, e não se fixaram na memória dos brasileiros.

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A mostra, que ocupa todo o centro cultural do IMS carioca, tem esse recorte no tempo diante da impossibilidade de se abarcar toda a história nacional. O IMS da Avenida Paulista a recebe a partir de maio de 2018. “São imagens que iluminam as crises do presente, nos ajudam a entender as raízes dos conflitos dessa sociedade que hoje vemos dividida, principalmente depois das manifestações de rua de 2013”, analisa a curadora Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS.

Ela contou com a consultoria de especialistas, como a socióloga Angela Alonso, professora da USP e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Angela, o consenso em torno da falsa ideia de que o Brasil tem um passado relativamente pacífico se perpetuou porque compactuaram dela governos, elites e intelectuais de diferentes momentos históricos. 

“Depois da Proclamação, os monarquistas propagaram a noção de que o Império havia sido um período de estabilidade, e que a República era um momento de conflitos; na Era Vargas, foi dito que a República Velha era conflituosa... A versão de que o brasileiro é um povo feliz, o povo da paz, do carnaval e do futebol se consolidou, mas não é o que as fotos da mostra nos dizem”, explica.

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“Há alguns anos, por meio de trabalhos acadêmicos, os historiadores vêm lutando contra essas construções dominantes que foram sendo difundidas. As fotos selecionadas têm poder de comunicação muito maior do que textos. Com elas, mostramos conflitos em que lutaram facções da elite, para ver quem iria mandar no País, e elites contra grupos de estratos sociais baixos.”

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Os cliques são de profissionais contratados pelo Estado e por seus oponentes para retratar as principais lideranças, a movimentação de tropas, a montagem de barricadas, a exibição de armamentos, a organização de acampamentos e também as celebrações de vitória e a devastação de locais deixados em escombros. Os resultados eram comercializados em álbuns, comprados por órgãos públicos, por militares que participavam dos confrontos e também por cidadãos comuns.

Uma parte das imagens, de luminares da fotografia, como o espanhol Juan Gutierrez (1859-1897) e o franco-brasileiro Marc Ferrez, que acompanharam a Revolta da Armada (1893-1894), e de anônimos que registraram a Guerra Civil de 1932 em São Paulo, veio do próprio acervo do IMS, que soma 2 milhões de itens. Outras 30 coleções brasileiras, de instituições como a Fundação Joaquim Nabuco (PE), o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (RS) e a Biblioteca Nacional (RJ), colaboraram com a curadoria.

No decorrer das salas, onde estão dispostas imagens sobre vidro, estereoscópios, cartões-postais e fotos em 16 e 35 milímetros, é possível acompanhar o desenvolvimento das técnicas fotográficas e entender como a tecnologia de cada época é determinante para a linguagem.

O papel de albumina, feito a partir da proteína da clara de ovo, já existia desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), mas a reprodução em jornais e revistas não era ainda possível. Assim, as publicações tinham ilustradores para retratar fielmente em xilogravuras e litogravuras as cenas captadas pelas câmeras. Instantâneos como o do rebelde federalista sendo decapitado por um agente da tropa legalista, eram, na verdade, fotos posadas, por conta do tempo de exposição de que o fotógrafo necessitava.

Apenas nos anos 1930 e 1940, com a chegada de profissionais europeus com a bagagem de publicações como a revista francesa Paris Match, as fotografias ganhariam mais agilidade e contornos parecidos com o fotojornalismo de hoje, calcado em flagrantes.

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