Henry Nicholls/Reuters
Henry Nicholls/Reuters

Exposição na Tate Modern e livro reveem obra de Olafur Eliasson

Artista islandês-dinamarquês fala sobra sua obra e as influências do Brasil

Celso Filho, Especial para o Estado

17 de dezembro de 2018 | 03h00

AMSTERDÃ - Reconhecido internacionalmente por suas instalações imersivas e obras monumentais em espaços públicos, Olafur Eliasson passa por um momento de revisão de sua obra. Lançado recentemente pela editora Phaidon, o livro Olafur Eliasson: Experience recapitula pela primeira vez quase 30 anos da carreira do artista dinamarquês/islandês, de suas investigações sobre a luz e a forma aos seus projetos colaborativos e seu ativismo. A ocasião também se mostra oportuna ao coincidir com a produção de uma mostra individual do artista na Tate Modern em Londres, marcada para o meio do ano que vem.

“Sua arte faz uma diferença; ela gera experiências que são descontínuas, sempre mudando, alterando em relação aos outros e a nós mesmos”, escreve, no texto de abertura do livro, a curadora do MoMA de Nova York, Michelle Kuo. Não é por coincidência que Experience ganhou este título. São abordadas ali não somente suas experimentações, mas também as experiências que o público vive ao se defrontar com sua arte. Seja ao transformar uma ala interna do museu de arte moderna Louisiana, na Dinamarca, em uma paisagem rochosa e inóspita, ou ao criar uma cachoeira artificial nos jardins do Palácio de Versalhes, na França, o que está em jogo é questionar a relação entre o espectador e o trabalho de arte – tanto no campo sensorial quanto em questões sociais ou políticas. 

“Sou motivado pelo potencial da arte de ativar as pessoas, de engajá-las em coproduzirem suas próprias experiências”, diz Eliasson, em entrevista ao Estado. “Esta é a diferença, eu diria, entre o encontro físico com uma de minhas obras, seja em uma praça pública ou num museu, e o modo como nós somos moldados pelos constantes ataques de informação que recebemos online e pela mídia diariamente.” E nesta busca pela provocação ao espectador, o artista alia elementos naturais, como a luz e o som, à tecnologia. É o caso, por exemplo, de By Means of a Sudden Intuitive Realization (1996), no Inhotim, em Minas, onde de dentro de um pequeno iglu, o público é convidado a observar como uma fonte d’água parece jorrar em câmera lenta em uma ilusão de ótica produzida por flashes de luz.

Propósito. Eliasson explica que neste exercício de reflexão para produzir o livro, ele conseguiu ver como seu trabalho seguiu direções simultâneas, mas sempre interligadas a um propósito. “Uma grande preocupação para mim ao longo dos anos tem sido explorar a arte para áreas onde as pessoas não esperam inicialmente encontrá-la, enxergar o que você pode fazer com a arte, e como um artista pode colaborar com um arquiteto, cenógrafo, ou um político”, explica. Atualmente, seu estúdio em Berlim emprega cerca de 90 colaboradores, de artistas a chefs de cozinha. 

Esse diálogo com outras áreas não se resume somente a sua equipe. Com o tempo, Eliasson também viu sua arte englobando diferentes propósitos. Neste ano, por exemplo, seu estúdio assinou o projeto arquitetônico da sede da empresa Kirk Kapital, construindo uma espécie de palacete nas águas de um fiorde em Vejle, na Dinamarca. Ou também no projeto de sustentabilidade Little Sun, de 2012, no qual foram criadas pequenas luminárias solares para serem usadas em regiões precárias, sem acesso à energia elétrica.

Ao longo dos anos, Eliasson foi se enveredando cada vez mais a causas sociais e ambientais. O aquecimento global é um tema recorrente de seus trabalhos. Em 2015, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-21), o artista extraiu 12 pedaços de um iceberg na Groenlândia e os expôs em uma praça em Paris. Distribuídos no formato de um relógio, os blocos de gelo derretiam ao relento, enquanto líderes mundiais discutiam o meio ambiente no encontro. “Arte está engajada no cotidiano ao tocar as pessoas, movê-las a um novo lugar, e mudar consciências. E isto é importante para expandir nossa capacidade em entender o outro, ter empatia, e, afinal, dar o primeiro passo para transformar pensamento em ação no mundo.”

Este projeto Ice Watch, inclusive, remontado em Londres, em cartaz desde o dia 11, em dois locais da cidade: na área externa da Tate Modern e em frente à sede da Bloomberg, no centro financeiro londrino. A instalação quer ressaltar as negociações da COP-24, na Polônia.

Um dos marcos deste lado mais ativista de Eliasson está em uma de suas obras mais emblemáticas. Em 2003, o artista ocupou o Turbine Hall da galeria britânica com a instalação The Weather Project, onde ele criou um grande sol formado por espelhos, lâmpadas e neblina artificial. Na época, mais de 2 milhões de pessoas visitaram a obra.

No ano que vem, o artista volta ao espaço para uma mostra individual. “A exposição não será exatamente uma retrospectiva, embora seja uma pesquisa do meu trabalho até hoje, cobrindo pelo menos 20 anos. Então, mesmo ao lidar com trabalhos mais antigos, vai ser (exibido) algo novo”, conta. Com abertura marcada para 11 de julho, a exposição também terá intervenções no entorno e no bar no terraço da galeria.

Entrevista

Há algumas semanas, você postou nas redes sociais um alerta sobre o futuro da Amazônia com as eleições no Brasil. Como você vê o novo momento político no País?

Ao redor do mundo, infelizmente estamos vendo os países se voltarem para dentro, em vez de buscar soluções internacionais. Este não é apenas o caso do Brasil ou dos EUA, mas também é tendência na Dinamarca, onde eu vivo. Muitas pessoas com razão veem a crescente desigualdade e corrupção como os principais obstáculos para resolver os problemas no mundo, mas como o ganhador do Nobel Joseph Stiglitz apontou, isso também nos torna suscetíveis às promessas falsas e soluções fáceis de demagogos. Infelizmente, a realidade das mudanças climáticas é que o que acontece em uma região afeta o resto do globo. A questão do meio ambiente não acaba nas fronteiras nacionais. Com 60% da floresta amazônica no País, os movimentos de conservação no Brasil são essenciais para proteger o balanço das emissões de carbono em todo o mundo. Nos EUA, após a eleição de Trump e sua decisão de se retirar do Acordo de Paris, várias lideranças empresariais, incluindo Michael Bloomberg, e muitos dos prefeitos de suas maiores cidades, reafirmaram seu compromisso de combater as mudanças climáticas, o que significa, em nível local, que pelo menos ainda há um esforço considerável nos EUA de se atingir os objetivos de Paris. Minha esperança é que empresas e indivíduos no Brasil também continuem assumindo este compromisso com a conservação e a ecologia, apesar da falta de apoio do novo presidente.

Já faz alguns anos desde sua mostra individual pelo Festival Sesc Videobrasil. Você planeja voltar a exibir no Brasil?

A mostra Seu Corpo da Obra foi muito especial para mim, não somente porque ocupou três espaços de São Paulo (Sesc Pompeia, Pinacoteca e Sesc Belenzinho), mas também se estendeu por toda a cidade – com intervenções como Your New Bike (2009), na qual deixamos bicicletas com espelhos redondos ao invés de rodas amarradas pela cidade. Na verdade, eu tive muita sorte de poder trabalhar no Brasil, e em São Paulo especialmente, em outros momentos, realizando trabalhos que foram muito importantes para meu desenvolvimento artístico – notavelmente The very large ice floor, em 1988, na 24ª Bienal de São Paulo, onde eu gostei bastante de assistir aos visitantes deslizando sobre o piso congelado no pavilhão de Oscar Niemeyer. Então, em suma, eu adoraria exibir no País de novo em breve.

Durante essas viagens ao Brasil, quais foram suas impressões do País e da arte brasileira? Por exemplo, algumas de suas investigações me lembram as experimentações brasileiras dos anos 1960, como de Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Lygia Clark e Hélio Oiticica são grandes fontes de inspiração para mim e para outros artistas. As práticas artísticas deles não são relevantes somente no contexto brasileiro, mas também em uma discussão internacional maior sobre a arte. Algo que também me impressionou no Brasil é a tradição do Sesc, que trabalha para levar artistas contemporâneos e mais jovens a um público mais amplo. Cultura é a chave para que qualquer país possa se enxergar num contexto de onde viemos e para onde seguimos, e também no contexto mundial. Não é um elemento decorativo e marginalizado na periferia da identidade de uma nação. Ela é uma linguagem com a qual exercitamos autocrítica e nos engajamos para melhorar nossa relação com o outro. Arte é uma ágora, onde os não ouvidos são escutados e o impossível pode se tornar possível. É também o lugar onde demagogos patriarcais, corruptos, populistas e nacionalistas podem ser desafiados, e é por isso que eles não são necessariamente os maiores fãs da cultura. 

 

Mais conteúdo sobre:
artes plásticasOlafur Eliasson

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.